Adelson Elias Vasconcellos
Nunca uma copa do mundo foi tão desejadamente aguardada por um partido no governo como esta. Todas as fichas do Planalto estão sendo empenhadas para que seja dado o pontapé inicial, e que o clima de festa do futebol se espalhe pelo país. A senhora Rousseff sonha com isso, para deixar de ser telhado, pelo menos por um mês.
Mas que não se espere que a festa do futebol se transforme em arreganhos para o governo, pelo contrário. O povo, por mais focado nos jogos e nas festas que possa estar, não esquecerá tão cedo a total inversão de prioridades, até porque o país continuará por alguns meses, talvez até alguns anos, um imenso canteiro de obras paradas ou inacabadas. O tumulto em algumas cidades como Fortaleza, Porto Alegre e Cuiabá, acabará falando mais alto. E o que se dizer do desmanche da segurança pública, tão logo a última delegação estrangeira deixe o país?
A cada gol brasileiro, a cada vitória, o país vai explodir sem dúvida. Se explodiu durante a ditadura militar em 1970, com a conquista do tri, o que dirá agora com a liberdade que a democracia garante para festejar a vontade?
Mas o governo sonha com este anestésico para tentar se recuperar nas pesquisas e afastar o temor de ser alijado do governo nas eleições de outubro. Torce para que o clima das arenas, desaqueça a febre dos protestos.
Mas é bom lembrar que, em 2002, fomos penta, e nem por isso o governo FHC conseguiu fazer seu sucessor. E é possível afirmar, com segurança, que o clima atual é bem pior. O governo medíocre da senhora Rousseff não tem legados para oferecer ou apresentar. Pelo contrário: é imensa a herança maldita plantada nestes quatro anos para começar a ser colhida a partir de janeiro de 2015, independente de quem seja eleito.
Porém, o fato do futebol sempre tem sido paixão e festa para boa parte dos brasileiros, apesar das muitas derrotas e frustrações ao longo da história, (que o diga 1950!), não podemos é tentar esconder a realidade de que esta copa veio em hora errada. Disse quando da apresentação da candidatura e repeti no dia do anúncio. O Brasil não estava preparado para acolher e sediar evento desta magnitude. Os investimentos então anunciados para a mobilidade urbana se impunham como necessidade já naquele ano de 2007, sem que precisássemos de evento algum. A megalomania de 12 sub sedes, era uma doidice monumental. Com metade disso, poderíamos ter concentrado melhor os recursos, ter apresentado um projeto mais bem acabado, e cada estádio proporcionaria um retorno maior.
Lá atrás, sempre acreditei que concluiríamos, pelo menos, os estádios prometidos. Contudo, aquele projeto faraônico de mobilidade era excessivo demais para alguém supor que teríamos condições e capacidade de concluí-lo no tempo prometido. Obras foram sendo deixadas pelo caminho. E do que restou, mais da metade está inacabada e inacabada ficará por um bom tempo.
Assim, este discurso ufanista que saltou do pronunciamento da senhora Rousseff, em cadeia nacional de rádio e tevê, é uma tentativa torta de se tentar vender aos olhos dos brasileiros um projeto como concluído, quando o que a realidade exibe é coisa muita diversa. Só se pode falar em legado se o projeto original estivesse, de fato, concluído e, bem sabem as populações de Porto Alegre, São Paulo, Fortaleza, Brasília e Cuiabá, que a realidade desmente as palavras da presidente. Ou ela está mal informada sobre o que ficou por ser realizado, ou, age com absoluta má fé.
Não sei se a presidente irá ao jogo inaugural. Mas se for , não acredito que irá se expor como o fez no estádio Mané Garrincha, na abertura da Copa das Confederações. Dilma pertence a um partido que adora criticar os outros mesmo quando acertam, mas detesta ser criticado mesmo quando erram. O espírito autoritário que os alimenta só admite a submissão, a servidão, o elogio fácil, mesmo que cínico e hipócrita, só sabem tolerar o “sim, senhor”, “sim, senhora”.
Ninguém precisa elogiar o brasileiro para fazê-lo ser o povo alegre e otimista que é. Como, também, ninguém precisa solicitar que seja amistoso na recepção aos estrangeiros que nos visitarem. Neste aspecto, damos aulas de civilidade ao mundo. Porém, bem que poderíamos recebê-los com a casa mais bem arrumada. Nas cidades que citei acima, não há discurso presidencial que consiga esconder a vergonha pela bagunça, ou a incompetência de não se levar adiante e concluir obras essenciais.
Como já afirmei, não é indo às ruas, com cartazes e gritos de “não vai ter copa”, que mostraremos nossa indignação e inconformismo. Temos dia e hora certa para tanto. É em outubro, nas urnas, que poderemos bradar um grito de protesto e não apenas em relação à Copa no Brasil, mas em relação a tudo o que se refere ao governo da senhora Rousseff, um dos piores que este país já teve.
Assim, o melhor por ora é gritar, torcer, e, se der, festejar com a garotada que entra em campo representando o Brasil. Não é momento para baderna, para protestos, para arruaças e vandalismo. Temos em casa milhares de visitantes que se deslocaram para cá em busca de algo que sabemos fazer como ninguém: vibrar alegres com a festa do futebol. Depois que terminar a Copa, quando as visitas já tiverem ido embora, então terá chegado o momento de cobrar o governo por sua inércia e mediocridade.
Assim, e enquanto houver bola rolando na Copa, deixemos rolar a festa. Afinal, mesmo sem ter motivos festejamos até a nossa desgraça, não é mesmo?
E, claro, ficará a esperança em todos nós de que, terminado o grande evento, motivador de tantas obras, as que se encontram inacabadas tenham sua sequencia natural, assim como esperamos que o esquema de segurança seja permanente, não apenas temporário para temperar o gosto dos visitantes. Porque somente isto autorizará o governo da senhora Rousseff falar em legado. Enquanto isso não ocorrer, o máximo que se tem é um bilionário estelionato político. E só!
Daí o tom do pronunciamento: não tendo “virtudes” para exibir , a senhora Rousseff preferiu atacar adversários. Ao invés de dar boas vindas aos que nos visitam, preferiu o tom canastrão muito empregado pelo regime militar, tentando associar futebol ao seu governo. Em vez de clima de festa, optou pela via transversa da politicagem barata e ordinária. Infelizmente, nem neste momento, a senhora Rousseff abandona seu jeito grosseiro de ser.
Para encerrar, uma pergunta ao Ministério da Cultura: e a greve dos museus vai durar toda a copa? Turismo com museu fechado é bola fora, hein, Dona Martha?
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