quarta-feira, junho 18, 2014

O que dizer ao finlandês

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

O finlandês chegou. Ele é jornalista, amigo de um dos meus filhos, e veio cobrir a Copa para uma revista especializada em esporte. O que eu direi a ele sobre o outono do nosso descontentamento? Tempo em que a presidente é vaiada no estádio e não pode nem pensar em discursar. Em que repórteres estrangeiros são atingidos por estilhaços de batalhas de rua.

Além de preparar um lugar confortável para ele se hospedar na minha casa, com uma mesinha de trabalho, terei que dar instruções sobre a melhor forma de se locomover no Rio. Será, certamente, um problema contar todos os detalhes complexos da locomoção por uma cidade que nunca investiu o suficiente na mobilidade urbana, como de resto no país todo. Terá que ser um alerta para qualquer cidade que ele visitar. Informações precisas sobre horário de ônibus, metrôs ou quaisquer alternativas de transportes não poderei dar. Velho problema brasileiro.

Matheus e ele se conheceram em Berkeley e precisaram de apenas uma conversa para encontrar uma série notável de afinidades. Uma delas, o amor ao futebol. Com filhos na mesma idade, as duas famílias ficaram inseparáveis durante o ano do curso na universidade americana, mesmo sendo de países tão diferentes. Poliglota, ele decidiu acrescentar o português à sua bagagem, desde então. E estudou com afinco nos últimos dois anos para ter mais facilidade agora na cobertura do mundial, no qual seu país não joga.

Terei de explicar a aparente contradição de que no Brasil — que se define como “país do futebol” e que há 63 anos sonha com a chance de abrigar nova Copa para, afinal, vencê-la — haja manifestações contra a realização do torneio. Será simples. O Brasil é hoje uma sociedade mais complexa, mais ampla, mais democrática e mais plural do que jamais foi em sua república sempre marcada por períodos autoritários.

O movimento que eclodiu há um ano foi espontâneo, de massa, reuniu famílias e não havia bandeiras precisas. Era a onda do desconforto com a inflação, a corrupção, a incompetência gerencial, a sufocante falha na mobilidade urbana brasileira. De lá para cá, a violência da polícia, a ocupação do espaço público por black blocks, as reivindicações corporativas mudaram a natureza dos protestos.

O descontentamento permanece, mas agora as manifestações são mais violentas. Para exercer nas ruas o ofício de repórter será melhor seguir as dicas de segurança que a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) preparou para os que estarão cobrindo os protestos. No mais, contarei de uma época onde todos os protestos foram impedidos, os estudantes mortos em calabouços, as ruas silenciadas. E aquele foi um tempo de não se repetir, jamais. Hoje, ainda que haja excessos dos dois lados, está garantido o direito de manifestação no país que teve duas ditaduras e um período oligárquico no século passado. Melhor, agora.

Os preços estão altos porque muitas empresas acharam que este era o momento de ganhar dinheiro fácil. Em alguns casos, o preço em real ficou surreal. Mas há uma tendência, em certos casos, de redução dos excessos. As companhias aéreas e até hotéis estão correndo risco de ficar com espaço vago diante dos exageros que cometeram, sem se dar conta de que o turismo interno de negócios seria suspenso nas semanas da Copa.

Sobre as falhas da tecnologia de comunicação no Brasil não há o que dizer para atenuar a responsabilidade das empresas e das autoridades regulatórias. Instalei na minha casa, por razões profissionais, a maior velocidade oferecida no mercado, mas tenho que dizer, constrangida, que no Brasil o órgão regulador acha normal que uma empresa venda uma velocidade e entregue apenas uma fração. Portanto, na era da transmissão instantânea de textos e imagens talvez ele tenha dificuldades em lugares públicos. Terei que avisar que uma ligação de celular cai com enorme frequência e que sei os pontos cegos das operadoras no Rio porque são os mesmos desde o início da telefonia móvel.

Para mim será uma boa chance de conversar com ele sobre o sistema educacional finlandês no qual ele cresceu. O jovem que me visita foi um dos campeões das provas de desempenho escolar no seu tempo de estudante e vem do sistema que hoje é avaliado como um dos melhores do mundo. Terei o que aprender com meu hóspede.