André Petry
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Os estrangeiros já não conhecem apenas a velha trilogia de estereótipos sobre o Brasil – "samba, sex and soccer" –, mas ainda pisam na bola na hora de entender o futebol e seu significado para os brasileiros
(Markus Gillar/AP)
DANÇA DA CHUVA: A seleção alemã é homenageada por índios da Bahia
A maioria dos estrangeiros parece ter superado o estereótipo dos três "s" sobre o Brasil: samba, sex and soccer. Embora o comportamento politicamente correto tenha levado os ingleses a confraternizar numa capoeira com os moradores da Rocinha e os alemães a compartilhar uma dança da chuva com os índios na Bahia, os estrangeiros já sabem, de modo geral, que os brasileiros não vivem pulando Carnaval e que suas mulheres não estão a um assovio da cama, mas o futebol, logo o futebol, ainda os confunde com letalidade. O El País, maior jornal espanhol, por exemplo, informou, mais de uma vez, que os protestos e as manifestações nas grandes cidades são a prova de que o Brasil já ganhou a Copa. O motivo? É que, "pela primeira vez", os brasileiros não colocaram o futebol acima de "suas exigências sociais e políticas". Conclui o jornal: "Hoje o Brasil é mais que futebol. Sonha mais alto".
Ganha ingresso para um jogo da Espanha, com direito a goleada, quem conseguir apontar em que momento da história os brasileiros renunciaram às "suas exigências sociais e políticas" em nome do futebol. Isso faz parte do velho mito de ver o Brasil como um país cegamente fanático a ponto de confundir a taça com o Santo Graal. Em que pesem as reiteradas tentativas, os políticos brasileiros nunca foram donos do futebol, cuja graça, portanto, jamais esteve a serviço da manipulação popular. Nem a ditadura militar teve sucesso na tentativa de se legitimar politicamente com a conquista do tricampeonato em 1970. O general Médici, com seu radinho de pilha colado no ouvido, não mudou de tamanho quando Pelé, na cena clássica, comemorou o gol dando um soco no ar.
A sério e usando tom até dramático, o Wall Street Journal de domingo passado disse que a derrota brasileira para o Uruguai, na final da Copa de 1950, é um "trauma nacional" ainda a ser superado. É mesmo? Na esportividade do futebol, o Maracanazo, de mais de seis décadas atrás, entra no cardápio apenas para apimentar rivalidades, nunca como cicatriz na psique coletiva. (Há onze anos o Brasil não perde para o Uruguai. Nas últimas sete partidas, empatou duas e ganhou as outras cinco, e a maioria nem lembra disso.) O Journal ainda traz uma novidade retumbante, ao revelar o que ninguém sabia. Diz que os protestos de junho do ano passado foram contra os gastos excessivos da Copa do Mundo. Orçado em 1 bilhão de dólares, o custo da Copa já passa de 11 bilhões de dólares e enfureceu os brasileiros. Nos protestos do ano passado, porém, isso era residual. Até o mote contra o Mundial "não vai ter Copa" só surgiria meses depois.
Observando o país de longe, alguns estrangeiros imaginam que tudo o que se tem feito no país é parte da "preparação para a Copa". O semanário inglês The Week informou no sábado passado que até a política de pacificação nos morros do Rio de Janeiro se deve à Copa. A brava Al Jazeera, emissora do coração (e do bolso) da família real do mesmo Qatar enrolado com as denúncias de corrupção para sediar a Copa de 2022, chegou a divulgar que a greve dos policiais militares em Pernambuco era uma manifestação contra a Copa, e que o esforço do estado para esconder essas manifestações levou a uma política de "encarceramento em massa". Sério? O autor dessa enormidade é Khaled Beydoun, professor de direito da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.
Outra descoberta intrigante foi feita pela Fox News, que lamentou que os moradores do Morro da Mangueira, de onde se pode avistar o Maracanã, não estarão no estádio assistindo à final por falta de dinheiro. Seria mesmo necessário subir o Morro da Mangueira para encontrar brasileiros sem condições de pagar o ingresso? Há duas verdades que todos conhecem sobre as copas da Fifa: são eventos altamente populares, mas não são eventos para populares.
A noção de que o futebol é uma prioridade – ou era – e que tem o poder mágico de definir o comportamento das urnas é mais ou menos recorrente lá fora. O experiente Vac Verikaitis, que já cobriu competições esportivas em todos os cantos do planeta, escreveu no Daily Beast, site americano de notícias, que "a presidente Rousseff sabe" que, se o Brasil vencer a Copa, suas chances de ser reeleita serão "muito melhores". As Copas anteriores mostraram que essa relação não existe. A influência eleitoral de uma Copa realizada no próprio Brasil, no entanto, é uma variável desconhecida, pois o último Mundial no país ocorreu há 64 anos. Tratá-la como uma verdade histórica, e ainda parte das certezas eleitorais da presidente Rousseff, é um desses frutos bastardos dos mitos que insistem em permanecer de pé.
