terça-feira, junho 03, 2014

Sem pré-sal, produção da Petrobras se iguala a 2005

Cláudia Schüffner
Valor

Para 2014 está previsto um salto na produção, que deve crescer em torno de 7%, primeiro incremento desde 2011

A Petrobras anunciou que atingiu, no dia 11 de maio, o recorde de 470 mil barris produzidos diariamente no pré-sal, mas a realidade é que está sendo difícil aumentar a produção nos níveis prometidos alguns anos atrás, o que a empresa promete mudar em breve. Se toda produção do pré-sal fosse da Petrobras, esses barris representariam quase um quarto dos 1,933 milhão de barris de petróleo que a companhia extraiu diariamente no Brasil em abril, último dado disponível.


Contudo, a parcela da estatal no pré-sal foi de 299 mil barris por dia. Na campanha publicitária sobre a produção na região, a Petrobras não esclarece que parte desse petróleo pertence às sócias BP, Repsol Sinopec e Galp. A companhia informa que o número recorde é extraído por meio de 24 poços perfurados nos campos do pré-sal.

Sem a sua fatia no pré-sal, a companhia estaria produzindo 1,634 milhão de barris. Esse volume é inferior à produção em 2005 (ver gráfico), já que ela encerrou aquele ano com 1,684 milhões de barris produzidos na média diária.

Já a produção do país como um todo, sem o pré-sal, cai para 1,463 milhão de barris por dia quando retirada a parcela da Petrobras e dos sócios. Nesse caso, o recuo é de dez anos, pois o volume ainda é menor que os 1,49 milhão de barris produzidos em 2004.

O paradoxo é que, depois que as enormes reservas do pré-sal se tornaram públicas, a produção começou a cair, apesar de a área de exploração e produção da companhia ter investido R$ 247,8 bilhões entre 2007 e 2013. Já a dívida explodiu nesse período, saindo de R$ 26,7 bilhões para R$ 221,6 bilhões, um aumento de 730%.

No mesmo período, as exportações de petróleo caíram para compensar a menor disponibilidade interna. As exportações de óleo bruto, que tinham atingido o pico de 506 mil barris diários em 2010, baixaram para 206 mil barris em 2013, menores que a média de 353 mil barris diários exportados em 2007, quando ficou claro o potencial das descobertas no pré-sal.

A queda da produção da Petrobras depois do pré-sal se deve em parte ao esgotamento natural das reservas na Bacia de Campos, que no caso da Petrobras sempre ficou em torno de 10% ao ano. Mas houve uma perda de eficiência nos últimos anos e também uma mudança abrupta de foco da companhia, que ficou com pressa para explorar a nova fronteira. Como se brinca nessa indústria, companhias deste tamanho são como transatlânticos que não permitem mudanças abruptas de direção.

Uma pergunta inevitável é como o Brasil estaria em termos de produção e atendimento ao mercado interno se essa província não tivesse sido descoberta, dada a queda galopante da produtividade da Bacia de Campos. Essa Bacia, que respondia por 85% da produção nacional em 2010, hoje representa 75%, mas a participação relativa tende a cair.

Em sua resposta sobre o assunto a estatal afirma que se o esforço exploratório na camada do pré-sal não tivesse se mostrado tão bem sucedido, outras áreas ao longo da costa brasileira poderiam ter sido priorizadas "com possíveis bons resultados também".

A estatal continua dizendo que, com o pré-sal, "optou pela alternativa que se mostrou mais atrativa em seus estudos de viabilidade técnica e econômica, a partir dos excelentes resultados apresentados pelo esforço exploratório nos reservatórios situados na camada pré-sal". E essa estratégia, diz a empresa, "mostra-se acertada a cada aumento da produção nos novos campos".

Um programa para aumentar a eficiência operacional da Bacia de Campos, lançado depois que Graça Foster assumiu a presidência da Petrobras, foi responsável por um aumento de 63 mil barris/dia à produção naquela região. E até abril a contribuição era de 55 mil barris diários.

Desde 2006, quando descobriu Paraty, o primeiro campo no pré-sal da Bacia de Santos, a Petrobras tem enfrentado e vencido uma série de desafios tecnológicos que permitiram chegar a 2014 extraindo uma média de 28 mil barris por dia de cada poço nessa região geológica.

No campo de Sapinhoá, antigo Guará, um único poço está produzindo 36 mil barris diariamente. É mais do que a OGPar (ex-OGP) e HRT extraíram juntas em março: 25.031 barris por dia, segundo o último boletim da Agência Nacional do Petróleo.

Outras questões, contudo, chamam a atenção de forma não tão favorável. Uma delas é o atraso no cumprimento das metas. No plano de negócios 2007-2011 a estatal previa que a plataforma P-55 entraria em operação para começar a terceira fase de desenvolvimento do campo de Roncador, um dos gigantes da Bacia de Campos, em 2011. Mas ela só entrou em operação em janeiro deste ano.

O plano de negócios de 2007 já previa um declínio natural da produção de 1,114 milhão de barris até 2011. A meta era fechar 2011 produzindo 2,374 milhões, já descontado o declínio. Como se viu, era excessivamente otimista. A previsão não se cumpriu em 2011 e mesmo hoje ela extrai 441 mil barris a menos.

Questionada sobre as causas do baixo ritmo da produção nos últimos anos, os motivos do acentuado declínio e as alternativas se não tivesse encontrado o pré-sal, a Petrobras respondeu de forma pouco elucidativa. A empresa afirma que seus planos de negócios são revisados anualmente, o que todo mundo sabe, "refletindo as melhores opções de portfólio", levando em conta "análise e interpretação das novas informações adquiridas".

Entre as variáveis mencionadas estão o resultado do esforço exploratório (descoberta de novos reservatórios depois da perfuração de poços), a performance dos reservatórios postos em produção, desempenho da construção da infraestrutura de produção e de apoio, e a projeção da eficiência operacional das instalações, entre outros.

"Trata-se de um processo contínuo, a partir do qual novos planos são elaborados, refletindo o melhor conhecimento daquele momento, que se traduz na priorização de áreas com resultados mais promissores e em ajustes nos cronogramas de atividades".

Um tema sensível e que será fundamental para que a empresa possa retomar a credibilidade com relação a suas metas é o compromisso com a construção de plataformas e outros equipamentos no Brasil. A indústria naval brasileira ainda não mostrou condições de competir com a rapidez de entrega dos estaleiros da Coreia do Sul, China e Cingapura, mas uma afirmação de Graça Foster de que a produção seria mais importantes do que o cumprimento do conteúdo local, que podem resultar em multas, gerou reações na indústria. Para 2014 está previsto um salto na produção, que finalmente deve crescer em torno de 7%, a primeira vez que se verá um incremento desde 2011.

No ano passado as duas plataformas que entraram em operação no pré-sal acrescentaram 240 mil barris por dia. Mesmo assim, a produção no país, em dezembro, caiu 3,4% quando comparada com o mesmo mês de 2012. Já os recordes no pré-sal deverão ser registrados nos próximos 30 anos, à medida que gigantes como Libra e Franco entrarem em produção junto com outros da região, e considerando ainda que a base de comparação é zero.

Este ano já entraram em operação as plataformas P-58 (180 mil barris diários) e a P-62, também em Roncador. Até dezembro outras duas plataformas vão aumentar em 300 mil barris diários a capacidade instalada da companhia. A previsão é que no segundo semestre ela comece a conectar a plataforma P-61, associada a uma unidade de perfuração no campo de Papa-Terra, onde a Chevron tem 37,5%. O conjunto de equipamentos vai aumentar em 580 mil barris/dia a capacidade instalada de produção no pós-sal.

Também estão previstas para o segundo semestre as plataformas Cidade de Mangaratiba (Lula) e Cidade de Ilhabela (Sapinhoá), ambos no pré-sal de Santos. Se tudo der certo, as onze plataformas instaladas neste ano e em 2013 trarão um aumento de 1 milhão de barris diários na capacidade instalada de produção exclusiva da companhia. Outros 296 mil barris são dos sócios.

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Nota do Lauro jardim, na Veja online:

Conta-petróleo: mais de 6 bilhões de dólares de déficit no ano
O total do déficit da conta-petróleo do Brasil no primeiro quadrimestre superou os 6 bilhões de dólares – para ser exato 6,031 bilhões de dólares que o Brasil importou a mais do que exportou em petróleo, derivados e gás natural.

Ao contrário do que o senso comum imagina, não é o petróleo o grande vilão desse vermelho. O petróleo contribui com apenas 13,6% do déficit. Derivados e gás natural é que são os maiores responsáveis, com 53% e 33,4% do total, respectivamente.