quinta-feira, julho 17, 2014

Entenda a crise do Grupo Espírito Santo

Bruno Rosa
O Globo

Problemas na companhia podem atrapalhar fusão da Oi com a Portugal Telecom

Mario Proenca / Bloomberg  
Caixa eletrônico do Banco Espírito Santo em Lisboa: 
grupo passa por dificuldades financeiras  

RIO - O Grupo Espírito Santo (GES), que pertence a uma das famílias mais ricas de Portugal, vem passando por dificuldades financeiras. O GES é dono de 10% das ações da Portugal Telecom (PT) e de diversas companhias, como o Banco Espírito Santo (BES), o maior em valor de mercado de Portugal.

O GES se prepara para anunciar uma reestruturação. Na tentativa de mostrar mais credibilidade para o mercado, o GES fez mudanças em seu comando: saíram nomes ligados à família e entraram executivos de mercado.

Composto por várias companhias, o GES tem em sua estrutura o chamado Espírito Santo International (ESI), uma holding que é dona de 100% do RioForte, empresa que reúne ativos de diversos segmentos do GES, como hotéis, fazendas e empresas de energia.



A RioForte, por sua vez, é dona de 25% da Espírito Santo Financial Group (ESFG), que tem 25% das ações do Banco Espírito Santo (BES).

Na última quinta-feira, a ESFG pediu a suspensão da negociação de suas ações por conta de problemas “materiais” na controladora Espírito Santo International (ESI).

O problema é que a RioForte e o Banco Espírito Santo compraram títulos emitidos por outras empresas do Grupo Espírito Santo. Com isso, teme-se um efeito em cascata. O BES também anunciou que tem cerca de € 2 bilhões (em títulos) de empresas do Grupo Espírito Santo.

Além do Banco Espírito Santo, a Portugal Telecom (em processo de fusão com a Oi) comprou há três meses títulos da dívida da RioForte, sem avisar aos acionistas da Oi e aos investidores que participavam da capitalização da companhia carioca. Esses papéis somam € 897 milhões, e vencem nesta semana.

Como o risco de calote é real, acionistas da Oi e da PT tentam chegar a um acordo e manter a fusão de pé, cuja conclusão estava prevista para outubro deste ano.

Para a fusão entre as empresas Oi e PT, o primeiro passo foi a capitalização da Oi, feita há três meses. Nesse processo, a PT não entrou com dinheiro e sim com seus ativos, que foram calculados em R$ 5,71 bilhões. Pelo prospecto da oferta, esses ativos portugueses serão convertidos em ações da Oi. Além dos R$5,7 bilhões da PT, a Oi conseguiu captar no mercado cerca R$ 8,2 bilhões, com aporte dos atuais acionistas e de novos fundos de investimento. Ao todo, a capitalização da Oi somou R$ 13,96 bilhões.

Agora, como a PT corre o risco de levar um calote de cerca de R$ 3 bilhões, a empresa portuguesa acaba valendo menos, para R$ 2,7 bilhões. Porém, os acionistas da Oi já avisaram a Zeinal Bava, presidente da Oi e executivo egresso da companhia portuguesa, que a PT tem de honrar seus compromissos e colocar os R$ 5,7 bilhões que prometeu.

Do outro lado, a PT tenta convencer a Oi a abater a possível dívida de sua parte das ações na nova Oi. Especula-se que a PT tenha proposto sua redução de cerca de 38% para algo próximo de 30%, opção que vem sendo descartada pelos acionistas da Oi.

Segundo o prospecto referente à capitalização da Oi, a participação do governo, via BNDES e fundos de pensão, que colocaram cerca de R$ 900 milhões, foi reduzida de 10,91% para 7,77%. O Grupo Andrade Gutierrez e o Grupo Jereissati passaram de 4,77% para 1,78% cada. E os acionistas do Grupo Portugal Telecom terão mais espaço na Oi: a fatia atual subirá de 21,14% para 38,25%.