terça-feira, julho 22, 2014

Ucrânia acusa separatistas de destruírem provas

O Globo
Com informações Agências Internacionais

União Europeia terá que rever postura em relação à Rússia, dizem líderes

Alexander KHUDOTEPLY / AFP
 Moradora local em meio aos destroços do avião 
da Malaysia Airlines que caiu no Leste da Ucrânia  

KIEV — Enquanto socorristas trabalhavam na retirada dos corpos das vítimas do voo MH17 da Malaysia Airlines em imensos campos de trigo em Grabovo, na Ucrânia, dezenas de rebeldes pró-russos armados bloqueavam neste sábado a pequena estrada que atravessa a área onde estão os destroços, a 50 km de Donetsk, no Leste do país. O resgate não impediu as trocas de acusações que começaram na quinta-feira, quando a aeronave provavelmente foi abatida por um míssil terra-ar disparado a partir de uma área controlada pelos separatistas. Agora, o governo ucraniano acusa os rebeldes pró-Moscou de destruírem provas de “crimes internacionais” e retirarem corpos do local — e aponta a Rússia como cúmplice na ocultação do material.

No campo político, a Rússia continua na berlinda. Em uma conversa por telefone, o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, disse ao presidente Vladimir Putin que ele tem a última chance de demonstrar que leva a sério os trabalhos de resgate e recuperação dos corpos das vítimas. Reino Unido e Holanda concordaram neste sábado que a União Europeia vai precisar reavaliar sua postura em relação à Rússia.

A Ucrânia informou que conseguiu percorrer apenas 18 dos 25 quilômetros quadrados marcados como local do acidente, e recuperar 186 dos 298 corpos.

“Os terroristas, com a ajuda da Rússia, estão tentando destruir provas”, disse um comunicado oficial do governo.

O avião ia de Amsterdã, na Holanda, para Kuala Lumpur, na Malásia, com 298 pessoas a bordo. Na manhã deste sábado, o chefe dos serviços de segurança da Ucrânia, Valentin Nalivaichenko, anunciou um acordo entre rebeldes e investigadores russos e ucranianos que prevê a criação de uma zona de segurança de 20 quilômetros para o resgate. O que não aconteceu: a linha de frente entre os separatistas e as forças ucranianas fica a poucos quilômetros dali e detonações foram ouvidas durante todo o dia.

O governo ucraniano denuncia ainda que 38 corpos foram levados para um necrotério em Donetsk por pessoas com “forte sotaque russo”, argumentando que fariam as suas próprias autópsias nos cadáveres. De acordo com os separatistas, no entanto, corpos encontrados a alguns quilômetros de distância, perto de outra aldeia, foram transportados para o necrotério da principal cidade da região.

— Militantes armados afastaram as equipes de resgate, deixando-os sem meios de comunicação. Carregaram os corpos em um caminhão com sacos. De acordo com os militantes, iriam levá-los à cidade de Donetsk — disse uma fonte do governo regional de Donetsk.

DOMINIQUE FAGET / AFP
 Um militante pró-Rússia segura um bicho de pelúcia junto a outros rebeldes
 no local da queda de um avião da Malaysia Airlines que transportava 298 pessoas  

Neste sábado, monitores internacionais conseguiram ter acesso a uma parte maior da região. Mas não sem tensão. Quando veículos da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa chegaram ao local, trinta homens armados foram para o campo. A garantia da segurança e a preservação das evidências é crucial para que os investigadores tentem reconstituir a queda.

— Como em qualquer trabalho, a cooperação melhora ao longo do tempo. Tivemos a oportunidade de conversar com líderes, habitantes da área e pessoas que recuperam os corpos — disse Alexander Hug, supervisor da missão.

Inspetores da Interpol e de sua correspondente europeia Europol também irão à Ucrânia para ajudar no processo de identificação das vítimas. As organizações não disseram, porém, se tinham recebido garantias de que teriam acesso ao local do acidente.

EVIDÊNCIAS CONTRA A RÚSSIA
A Holanda foi o maior atingido pela queda: 193 holandeses morreram no acidente. Mais cedo, Merkel e Putin concordaram em abrir uma investigação internacional, sob a liderança da Organização da Aviação Civil Internacional. Neste sábado, o premier da Holanda, Mark Rutte, exigiu que Putin ajude a recuperar corpos do voo MH17.

— Você tem uma última chance para mostrar o que significa a palavra ajuda — disse Rutte, minutos depois do que ele descreveu como uma “conversa telefônica intensa” com Putin.

Já a Ucrânia afirmou ter “provas irrefutáveis” de que a Rússia teve papel decisivo na derrubada do avião da Malásia, por ter fornecido um sistema de mísseis e equipe aos rebeldes. Segundo o chefe de contra-Inteligência do país, Vitaly Naida, Kiev tem evidências de que três sistemas de mísseis guiados por radar Buk-1 ou SA-11 entraram na Ucrânia vindos da vizinha Rússia, junto com uma equipe de três homens.

— Sabemos claramente que a equipe desse sistema era composta por cidadãos russos — disse ele em entrevista a jornalistas. — Temos informações sobre essas três pessoas que vieram junto com esses sistemas do território russo.

Ao pedir que a Rússia forneça os nomes e sobrenomes dos integrantes da equipe para que Kiev possa interrogá-los, Naida disse que os três sistemas já tinham sido recuados de volta para a Rússia, mostrando aos jornalistas fotos dos sistemas de mísseis em vários locais.

O premier Arseny Yatsenyuk disse a um jornal alemão que a queda do avião é obra de especialistas, e não de um bando de “gorilas bêbados”, voltando a acusar a Rússia. Moscou, por sua vez, rejeitou as declarações dos EUA, que na sexta-feira culparam os separatistas por terem derrubado a aeronave com ajuda russa.

— Os comunicados do governo americano são a prova da percepção profundamente aberrante de Washington do que está acontecendo na Ucrânia — declarou às agências de notícias russas o vice-chanceler Sergei Ryabkov. — Apesar da natureza óbvia e indiscutível dos argumentos fornecidos pelos rebeldes e Moscou, o governo dos EUA continua a perseguir os seus próprios objetivos.