Veja online
Entre os feitos citados pela presidente e atribuídos a seu governo, houve exagero, mentiras e meias verdades
Ivan Pacheco/VEJA.com
A candidata Dilma Rousseff (PT), durante intervalo do debate
entre os presidenciáveis promovido pela Rede Bandeirantes, em 26/08/2014
No debate dos candidatos à Presidência da República transmitido pela Band na terça-feira à noite, a presidente Dilma Rousseff mostrou ao público um Brasil com o qual poucos se identificam: inflação sob controle, pleno emprego, estabilidade econômica, alto padrão de consumo, entre outras características que poderiam ser atribuídas a países escandinavos.
Questionada sobre o problema do baixo crescimento econômico, a presidente atribuiu a culpa, como de costume, à crise internacional. Dilma não só parece estar vivendo num Brasil completamente fora desta dimensão, como também mostrou seus argumentos lançando mão de informações equivocadas e meias verdades. O site de VEJA selecionou algumas delas.
Os sete erros de Dilma no debate
Política econômica
O que Dima disse: “Fizemos um compromisso com a questão da estabilidade econômica e cumprimos esse compromisso”
Qual é a realidade: É consenso entre especialistas em gestão pública, economistas e cidadãos brasileiros que acompanham o desenrolar dos assuntos econômicos que estabilidade não é bem a melhor característica que define a economia nos dias atuais. A grande crítica ao governo Dilma é a deterioração do tripé econômico (composto pelo sistema de metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal), um mecanismo criado no governo de Fernando Henrique Cardoso para fazer a economia brasileira a entrar nos eixos. Os dois maiores indicadores da instabilidade econômica são o baixo superávit fiscal e o altissimo deficit em transações correntes.
O primeiro, que significa a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida, vem se deteriorando desde 2012. Devido ao aumento dos gastos num ritmo mais acelerado que o da arrecadação, o governo não tem conseguido cumprir as metas anuais de superávit. Em 2014, por exemplo, a meta é de 99 bilhões de reais, ou 1,9% do PIB. Até junho, o superávit estava em apenas 34 bilhões de reais, apenas um terço do resultado total. Num intento de maquiar o fracasso fiscal, o governo tem se valido de medidas de contabilidade criativa.
A última delas foi atrasar os repasses de recursos para a Caixa que devem financiar programas sociais, como o Bolsa Família. Já o deficit em transações correntes mostra um diagnóstico do fluxo de negócios do Brasil com o exterior. É impactado, sobretudo, pela balança comercial. O deficit até julho estava em 49 bilhões de dólares, mas o BC espera que o resultado até o final deste ano fique negativo em 80 bilhões de dólares, ou 3,5% do PIB. Como resultado da deterioração das contas públicas e externas, o país teve sua nota rebaixada pela agência Standard and Poor’s, além de ser considerado, em 2014, uma das cinco economias frágeis, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Inflação
O que Dilma disse: “A inflação está sistematicamente sendo reduzida. Mantivemos a inflação sob controle. Ela está no limite da banda, a mesma situação que ocorreu nos últimos 9 anos.”
Qual é a realidade: Segundo dados do IBGE, a inflação ficou, em média, maior no governo Dilma do que nos quatro anos anteriores. Em 2011, chegou a fechar em 6,5%, no teto da meta, que vai de 2,5% a 6,5% e tem como centro 4,5%. Em 2014, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a estourar o teto em junho, ao atingir 6,52%. Em julho, cravou 6,5%. Assim, não só ela não está sendo reduzida, como tampouco está sob controle. O próprio Banco Central não prevê o retorno do índice ao centro da meta nos próximos 12 meses.
Duas informações importam nesse contexto. A primeira é que o governo Dilma não perseguiu o centro da meta de inflação, tolerando o patamar máximo de 6,5% como “nova meta” ao longo de todo o governo. A segunda é que, não fossem os malabarismos feitos nos preços administrados para conter o avanço inflacionário, o IPCA teria ultrapassado o teto da meta há muito tempo.
O governo Dilma atuou diretamente no preço da gasolina, ao impedir a Petrobras de realizar reajustes de acordo com o mercado internacional, além de ter criado uma situação de caos no setor elétrico depois que decretou a redução do preço da energia em cerca de 20%.
Resultado é que, depois da queda forçada, os preços estão sendo reajustados em 2014 em mais de 30% em alguns estados, o que deverá impactar a inflação nos próximos meses.
Emprego
O que Dilma disse: “O Brasil tem hoje as menores taxas de desemprego da história, mesmo diante da mais grave crise internacional. Geramos, no meu governo, mais empregos do que vocês (PSDB) geraram em oito anos. Em três anos e oito meses geramos 5,5 milhões de empregos.”
Qual é a realidade: A questão da taxa de desemprego tornou-se um problema institucional no governo e gerou uma debandada de funcionários do do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), alegando ingerência. Ocorre que dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) se mostraram conflitantes com aqueles da Pnad Contínua, ambos medidos pelo instituto. Enquanto a primeira, feita em apenas seis regiões metropolitanas, apontava desemprego de 5,4% em 2013, a Pnad, feita em mais de 3 mil municípios, apontava uma taxa de 7,1%.
Tão logo a pesquisa foi divulgada, em abril, a senadora petista Gleisi Hoffmann protocolou um requerimento no Senado questionando a metodologia da Pnad, o que acabou levando à suspensão da pesquisa mais ampla e à saída de diversos técnicos do instituto. A esse episódio sucedeu-se uma greve de funcionários que terminou apenas em agosto. Sendo assim, desde abril os brasileiros não sabem qual é a taxa de desemprego do país.
Um retrato mais fiel do mercado de trabalho vem sendo mostrado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), computado pelo Ministério do Trabalho. Segundo o levantamento mais recente, que corresponde a julho, a criação de empregos naquele mês foi a pior desde 1999. No acumulado do ano até julho, houve contratação líquida de 504.914 trabalhadores com carteira assinada, o pior resultado desde 2009, ano em que o mundo, de fato, passava por uma crise.
Petrobras
O que Dilma disse: “A Petrobras é a maior empresa da América Latina. Passou de um valor no governo do PSDB de 15 bilhões de dólares para 110 bilhões de dólares agora. Houve aumento de valor porque nós concedemos à Petrobras um volume de reservas que permite que ela se transforme em uma das maiores empresas de petróleo do mundo”.
Qual é a realidade: A Petrobras perdeu 52% de seu valor de mercado entre maio de 2008, quando o preço da ação da empresa atingiu seu auge, e os dias de hoje. Se contabilizarmos as perdas apenas até março deste ano, somam 73%. Isso significa que o brasileiro que investiu 1000 reais em papéis da empresa em 2008 tinha em março apenas 270 reais. De março até hoje, as ações da estatal se valorizaram mais de 40% e fizeram com que voltasse a ser a maior empresa de capital aberto da América Latina, desbancando a Ambev. As razões dessa alta, contudo, estão inversamente relacionadas ao sucesso do governo — algo que a presidente Dilma preferiu ocultar. Investidores pararam de penalizar a ação da empresa em março, quando as primeiras pesquisas de intenção de voto mostravam a presidente Dilma Rousseff com um baixo nível de aprovação e um alto nível de rejeição entre os eleitores.
Com a aproximação das eleições, tanto as ações da empresa quanto a de todas as estatais se valorizaram, com investidores apostando numa mudança de governo. Alvo de corrupção e ingerência, a Petrobras atingiu no governo Dilma o título de empresa de petróleo mais endividada do mundo, com uma dívida de 300 bilhões de reais — maior, inclusive, que seu valor de mercado, que está em 287 bilhões de reais, segundo o Google Finance.
Crise internacional
O que disse Dilma: “Eu acho que o Brasil enfrenta hoje uma coisa que ninguém pode negar: uma das maiores crises internacionais. E, ao enfrentar essas crises, nós recusamos a velha receita que, diante da crise, o Brasil botava a conta para o trabalhar pagar, desempregava, arrochava empregos, aumentava impostos e aumentava tarifas. Nós nos recusamos a fazer isso".
Qual é a realidade: O governo petista tem recorrido à crise para justificar todos os resultados ruins da economia. Mas o fato é que a crise internacional é página virada no mundo todo — menos no Brasil. Exemplo disso é que, em 2014, as projeções de crescimento econômico se mostram mais favoráveis que nos últimos anos para a grande maioria dos países, mas não para o Brasil. Relatório do Barclays aponta que o crescimento médio no mundo será de 3,2% este ano. No caso das economias desenvolvidas, o avanço será de 1,6%. Especificamente os Estados Unidos devem crescer 2%. N
o caso dos Brics, o crescimento médio será de 5,5%, enquanto o Brasil espera um número próximo de zero. Analistas ouvidos pelo BC para elaborar o Boletim Focus apontam alta de 0,7% este ano. Mas as projeções vêm sendo sistematicamente cortadas a cada semana. Estudo da Fundação Getulio Vargas aponta, inclusive, que o país teve recessão técnica no primeiro semestre. Entre os cinco países do globo apontado como frágeis pelo FMI, o Brasil está ao lado de Índia, Turquia, Indonésia e África do Sul. Ou seja, nenhum dos principais afetados pela crise de 2008 constam do levantamento.
Aumento da renda
O que Dilma disse: “Quando se financia empresa brasileira no exterior, a mesa do trabalhador brasileiro recebe de volta o investimento porque assegura empregos aqui, já que todo o fornecimento de equipamentos, bens e serviços lá fora é feito condicionado aos bens e serviços brasileiros. (…) e garante um padrão de consumo para o trabalhador brasileiro que ele nunca teve”
Qual é a realidade: A internacionalização de empresas brasileiras deveria ser motivo de celebração, pois significa vitória do setor privado em meio a um ambiente global cada vez mais competitivo. Ocorre que, no caso citado pela presidente no debate, não é a internacionalização que está em jogo, e sim o financiamento de obras públicas em países de regimes antidemocráticos, como é o caso de Cuba, por meio do BNDES, que, em teoria, tem a função de financiar projetos de desenvolvimento social no Brasil. Afirmar que o financiamento de um porto em Cuba, por exemplo, traz comida para a mesa do brasileiro é um argumento sem dados que possam ser confrontados.
O que se sabe é que, segundo estatísticas mais recentes do IBGE, a despesa de consumo das famílias desacelerou para 2,2% no primeiro trimestre deste ano em vem mantendo níveis de crescimento 50% inferiores aos da gestão do ex-presidente Lula. Como a inflação está mais alta (6,5% ao ano) e o crédito está mais caro – os juros para pessoa física bateram recorde de 43% ao ano em julho --, a tendência é de deterioração da renda. O crescimento da massa salarial em 12 meses recuou de 5,2% para 2,8%. Enquanto isso, o ritmo de expansão do crédito cedeu de 10% para 6%.
Política externa
O que Dilma disse: "Nossa política, de fato, tem um passo a frente. O Brasil olha para toda a América Latina e a África, e tem uma relação positiva com os Brics. Isso permitiu que criássemos um banco de desenvolvimento dos Brics, com 100 bilhões de dólares que vão permitir o financiamento de infraestrutura".
Qual é a realidade: A política externa tem ocupado os últimos lugares na lista de prioridades da presidente Dilma. O Itamaraty tem sido considerado quase um sub-ministério, sem verba nem prestígio no Palácio do Planalto, e as investidas da presidente para posicionar-se junto a outros líderes têm causado mais saias justas que benefícios ao país. Durante o governo Dilma, houve um distanciamento diplomático dos Estados Unidos, marcado , em especial, pelo cancelamento da visita oficial ao país após o escândalo de espionagem denunciado por Edward Snowden.
Antes disso, a presidente liderou uma investida truculenta para expulsar o Paraguai no Mercosul e viabilizar a entrada da Venezuela. Ela usou ainda seu tempo de discurso na Assembleia Geral da ONU, em Washington, para criticar duramente os Estados Unidos. Por meio do Itamaraty, a presidente ainda se calou diante de situações gravíssimas de conflitos, como os protestos e perseguições na Venezuela de Nicolas Maduro e o ataque à aeronave da Malaysia Airlines por míssil russo, matando quase 300 passageiros. Por fim, o governo resolveu se pronunciar de forma estabanada sobre o conflito entre Israel e a Palestina na Faixa de Gaza e acabou sendo alvo de chacota internacional, sendo chamado de "anão diplomático". Na criação do banco dos Brics, o país ainda perdeu a presidência da instituição para a Índia. A sede será em Xangai.
