sábado, agosto 02, 2014

Energia impede queda de preços ao consumidor

Denise Neumann e Flavia Lima
Valor

Os dados do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) sugerem que a atividade econômica fraca está contendo reajustes no atacado e podem sinalizar uma trégua aos preços de bens de consumo. Os preços no atacado caem há três meses (baixa de 3,23%) e a deflação ocorre tanto nos produtos agrícolas como nos bens industriais. Essa trégua nos bens, no entanto, não deve se transformar em alívio significativo ao bolso do consumidor e o culpado disso é um item cuja inflação já está contratada e não será afetada pela desaceleração da economia: a energia elétrica.

A última vez em que os preços no atacado tiveram deflação em três meses foi na virada de 2011 para 2012, mas naquela oportunidade a queda foi de apenas 0,81%. Há preços de commodities puxando o movimento, mas ele pode ser mais disseminado. Uma pista está no preço dos bens finais no atacado (produtos de estágio mais avançado), que também cai há três meses. Outra indicação aparece nas entrevistas e informações divulgadas junto com os demonstrativos de resultados das companhias de capital aberto. Algumas já admitem não ver condições de subir preços no segundo semestre.


Surpreendida pela deflação do IGP-M mais forte do que o esperado, a Tendências revisou a projeção em 2014, de alta de 6,6% para aceleração de 4,4%. A previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), porém, se mantém firme em 6,3% em razão da previsão de alta média de 20% (ante 10% previsto anteriormente) para as tarifas de energia elétrica. Marco Caruso, economista do Banco Pine, também revisou para baixo o IGP-M no ano, de alta de 6% para algo entre 4% e 4,5%. Mas entende que, para o IPCA, as notícias positivas se limitarão às variações mensais mais baixas de alimentos, que reduzem as projeções dos IPCAs mensais, mas não são suficientes para desacelerar o IPCA do ano.

O movimento de deflação no atacado é mais intenso (e persistente), porque ocorre tanto nos preços agrícolas como na indústria. A última vez em que o IPA industrial registrou mais de três meses de queda consecutiva foi na crise de 2009. Naquele ano recessivo (o Produto Interno Bruto caiu 0,2%), foram nove meses consecutivos de recuo. Começou em dezembro de 2008 e só terminou em agosto de 2009. Para Alessandra Ribeiro, economista da Tendências, muito desse recuo recente se deve aos preços do minério do ferro, puxados para baixo pela fraqueza da demanda chinesa. "Mas esperamos uma recuperação leve até o fim do ano, o que significa que esses recuos fortes não vão se repetir nos próximos meses."

Caruso, do Pine, diz que no índice de commodities do banco - que tenta replicar o IC-Br do Banco Central e tem, segundo ele, boa correlação com os IPAs -, as commodities metálicas já apontam aceleração do IPA industrial e sugerem uma redução das deflações mensais, ainda que as commodities agrícolas devam continuar a apresentar deflações maiores do que a queda atual de 2,66%.

Na avaliação de Alessandra, a apreciação esperada para o dólar até o fim do ano (para R$ 2,45) deve pressionar tanto o IPA agropecuário quanto o industrial. Como reflexo desse movimento, a economista prevê alta de 1% para o IPA como um todo, em novembro e dezembro.

Embora os especialistas já vejam pressões sobre bens industriais mais básicos, a tendência é de moderação nos reajustes dos preços dos duráveis, algo que já pode ser identificado no discurso de algumas empresas e que pode ter impacto na inflação de outros preços, como serviços e despesas pessoais. Ontem, a Duratex indicou que não vê uma conjuntura de recuperação de preços no segundo semestre, mas de estabilidade.

Na segunda-feira, foi a vez do presidente da Hypermarcas, Claudio Bergamo, traçar cenário semelhante. Disse que não vê "nenhuma condição para aumento de preço no segundo semestre", pois o consumidor tem olhado mais a relação custo-benefício. A fabricante de massas e biscoitos M. Dias Branco, informou que não fará novo repasse de preços ao varejo neste ano.

Diante desses discursos, o economista do Pine vê sinais aparentemente contraditórios: de um lado, a desaceleração da atividade reprime os reajustes de preços, algo que se refletirá no arrefecimento de preços livres, mas apenas em 2015. De outro, o pleno emprego, que ainda pressiona salários para variações acima da produtividade, e a manutenção das expectativas inflacionárias sugerem a permanência dos repasses de custos.

Pedro Paulo Silveira, da TOV Corretora, avalia que a trajetória do IGP-M indica que hoje o problema da atividade mais fraca se sobrepôs ao da inflação. Em razão principalmente dos reajustes esperados em energia, cujo impacto será sentido no IPCA, Silveira diz que a moderação no atacado não deve ser suficiente para trazer a inflação para baixo já em 2014. Em 2015, contudo, o magro crescimento econômico deve trazer a inflação para algo entre 4,8% e 5,3% em 12 meses, já no primeiro semestre. "As expectativas inflacionárias vão cair drasticamente. Acho que o mercado está atrás da curva, como em 2008".