Antonio Pita
Estadão Conteúdo
Em decorrência, hoje a indústria brasileira vive um período de "hiato de produtividade" e sofre com um déficit de estoque de capital fixo
Segundo ele, é um "consenso" na agenda brasileira o "hiato"
em relação à produtividade no nível de desenvolvimento industrial
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Mauro Borges, disse, nesta quinta-feira, 07, que o País perdeu, ao longo das últimas décadas, a capacidade de planejar seu crescimento e seus investimentos, sobretudo na área de infraestrutura. Em decorrência, hoje a indústria brasileira vive um período de "hiato de produtividade" e sofre com um déficit de estoque de capital fixo. Borges participou da abertura do Encontro Nacional de Comércio Exterior (Enaex), promovido pela Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB).
Segundo ele, é um "consenso" na agenda brasileira o "hiato" em relação à produtividade no nível de desenvolvimento industrial. "Como enfrentar esse grande hiato de produtividade é o que considero o grande desafio, que perpassa comércio exterior, indústria brasileira, o conjunto de infraestrutura", destacou.
"O País tem dois grandes déficits estruturais que se acumularam desde a segunda fase da industrialização, nos anos 70; o déficit de capital humano e o déficit de capital fixo", reforçou.
Segundo o ministro, o baixo estoque de capital fixo brasileiro passa pelo envelhecimento do parque fabril no País, hoje com média de 17 anos de uso. Para Borges, os países que hoje competem com o Brasil têm média de idade do parque fabril entre 7 e 8 anos. Além disso, o ministro destacou o "baixo nível de escolaridade e qualidade da educação, aquém da dimensão da economia brasileira".
"Esses dois estoques são na verdade elementos centrais para entender a baixa produtividade brasileira, que hoje é apenas 20% da produtividade dos Estados Unidos", afirmou Borges. "Este não é um problema do governo, é um problema do Estado brasileiro".
Borges ressaltou ainda que o déficit de capital fixo é mais visível na área de infraestrutura. "Perdemos a capacidade de planejar o País, de fazer projetos de qualidade, projetos macro de infraestrutura", avalia o ministro. Para ele, o governo está dando velocidade na retomada dos grandes investimentos. "Mas é um processo de maturação que alcançará plenitude em três anos, não é de um dia para o outro".
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Reparem que as advertências acima são feitas por um ministro de Estado do governo petista. Não se trata de alguém da oposição, ou ligado às elites, ou à imprensa dita “golpista”.
Seu diagnóstico é preciso, pena que peca em não reconhecer que, boa parte das soluções para os problemas causados elos déficits estruturais, déficit de capital humano e déficit de capital fixo, poderiam ter sido equacionados nos 12 anos, principalmente até o período pré-crise financeira de 2008/9. Ao assumir em janeiro de 2003, boa parte dos problemas estruturais já haviam sido afastados em razão da estabilidade econômica, fruto ainda de uma profunda reforma do Estado para a conquista do equilíbrio das contas públicas.
O Brasil surfou na onda do crescimento da economia mundial de forma espetacular: aumentou consideravelmente suas exportações, em especial de commodities, cujo consumo cresceu exponencialmente nos países emergentes, elevando seus preços a valores históricos. Pode, internamente, crescer a distribuição de renda provocado pela geração de empregos e atração de investimentos produtivos, provocado diretamente pela remoção de amarras ao investimento estrangeiro que pode, assim, atraído pela estabilidade econômica, sentir-se seguros dadas as oportunidades de negócios nas quais o Brasil sempre foi um expoente mundial.
Contudo, o processo de reformas iniciado com o Plano Real sofreu um retrocesso imenso de 2003 em diante. Apesar do crescimento real da arrecadação dos governos, federal e estaduais, muito pouco destinou-se a investimentos públicos, principalmente os de infraestrutura, nosso calcanhar de Aquiles. Deu-se prioridade ao gigantismo do Estado, e ainda suspendeu-se o processo de privatizações/concessões. Este processo só seria destravado a partir do governo Dilma, ainda assim calcado num preconceito bucéfalo contra o capital privado e uma tentativa inócua de se “tabelar” o lucro dos investidores.
Portanto, é saudável saber-se que dentre os tantos ministros desta verdadeira Torre de Babel montada pela Senhora Rousseff, há pelo menos um que sabe ler perfeitamente bem as causas do nosso baixo crescimento, destacando-se as dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira, em queda livre desde 2008.
Pena que esta leitura não consiga convencer a atual presidente a por de lado a improvisação, a feitiçaria, a falta completa de transparência, as ações de curtíssimo prazo para efeitos unicamente eleitoreiros. Não um único projeto de longo prazo em curso no país.
Claro que os problemas vão muito além de questões estruturais. Há todo um pensamento cheirando a mofo enraizado no Estado brasileiro. Mas conhecer e reconhecer duas das principais causas do baixo crescimento por parte de um ministro de Estado já demonstra que, os críticos da atual política econômica, não perderam o juízo. Pena que a senhora Rousseff continue plantada em sua extrema arrogância e não consiga enxergar um palmo à frente do próprio nariz. Falar em planejamento para esta senhora é um pecado mortal. Como castigo, precisará mudar de endereço em janeiro de 2015.
