quarta-feira, setembro 03, 2014

Você acreditou mesmo quando o governo disse que ia apurar as alterações em perfis de jornalistas na internet?

Carlos Newton
Tribuna da Internet


No Planalto, as coisas acontecem devagar, devagarinho, no ritmo de Martinho da Vila. A Secretaria de Administração da Presidência da República, por exemplo, alardeou que iria apurar o uso da rede de internet do Planalto para fazer as alterações nos perfis dos jornalistas Carlos Alberto Sardenberg e Míriam Leitão, ambos da Organização Globo.

Mas somente quatro dias depois do escândalo é que o governo federal deu o primeiro passo, ao publicar na edição do Diário Oficial da União a portaria que criou uma comissão de sindicância investigativa para apurar o caso das alterações feitas em perfis de jornalistas na Wikipédia, enciclopédia virtual, a partir da rede de internet do Palácio do Planalto. A portaria estabeleceu o prazo de 30 dias para a conclusão dos trabalhos e designa os servidores que integram a comissão.

Como se sabe, reportagem do jornal O Globo, publicada no dia 8 de agosto , revelou que os perfis de Sardenberg e Míriam Leitão tinham sido alterados, em maio do ano passado, a partir da rede de computadores do Palácio do Planalto, e a fraude incluiu críticas às atuações dos dois profissionais como comentaristas econômicos.

FESTIVAL DE FRAUDES
Além desses perfis, já se sabe que partiu do Palácio do Planalto um verdadeiro festival de adulterações na Wikipédia, inclusive visando a limpar a imagem do ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência da República, no caso Celso Daniel. Isso significa que esse tipo de iniciativa fraudulenta passou a ser rotina na sede do governo, vejam a que ponto chegamos em matéria de falta de ética.

A coisa mais simples é descobrir o culpado (ou culpados), porque os computadores do Planalto operam através de senha. Não há como evitar que se descubra de onde partiu a fraude. E a tal comissão nem precisaria desses 30 dias que o governo tão generosamente lhes ofereceu. O mais certo, porém, é que tão cedo não saia qualquer conclusão. O Planalto vai manter sepultado o instigante assunto até o final das eleições. Podem apostar.

SUMIÇO DE ENTREVISTA
Seria bom saber se está sendo investigado também o sumiço da entrevista de Gilberto Carvalho postada pela Agência Brasil (antiga Agência Nacional). Na matéria, que só foi republicada pelo Correio Braziliense e pela Tribuna da Internet, Carvalho dizia que “um doidinho do Planalto” fizera as adulterações na Wikipédia.

Poucas horas depois da postagem, sem qualquer explicação, a entrevista do ministro foi abduzida do site da Agência Nacional. A meu ver é fato mais grave do que a adulteração de currículos que ninguém lê. O sumiço da entrevista de Carvalho significa a existência de censura oficial na Agência Brasil, mas quem se interessa?