Claudia Tozetto
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Especialistas apontam seis áreas da economia em que o Brasil deve promover a modernização tecnológica para colher frutos pelas próximas décadas
(Thinkstock/VEJA)
"A inovação é a maior determinante da produtividade",
diz Carlos Américo Pacheco, do ITA
Um dos grandes desafios do próximo presidente da República, a ser eleito no mês que vem, é alavancar a inovação tecnológica no governo, instituições de pesquisa, empresas — incutir a ideia em muitas cabeças, portanto. O Brasil é a sétima economia do mundo, mas ainda enfrenta muitas dificuldades tanto para resolver problemas em casa quanto para competir em nível global. “Para sustentar o aumento de salários, a distribuição de renda e a redução da desigualdade, movimentos desejados por todos, a palavra mágica é produtividade. E, em qualquer parte do mundo, inovação é a maior determinante da produtividade”, diz Carlos Américo Pacheco, reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), um centro de excelência em educação e celeiro de mentes inovadoras.
Um dos problemas que emperram a inovação, segundo especialistas ouvidos pelo site de VEJA, é a falta de uma diretriz nacional clara — eis uma missão para o vencedor da eleição de outubro, seja ele (ou ela) quem for. "Assim como ocorre na maioria das grandes empresas, existe uma lacuna na estratégia nacional de inovação. Sem isso, o governo pulveriza investimentos em muitas áreas e não consegue alcançar um resultado significativo. Ter uma estratégia significa fazer escolhas", diz Felipe Scherer, especialista em gestão da inovação da consultoria Innoscience.
De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), atualmente existem 14 áreas estratégicas para inovação no país: biotecnologia, nanotecnologia, TI, saúde, biocombustíveis, energia, petróleo e gás, agronegócio, biodiversidade, Amazônia e semi-árido, mudanças climáticas, programa espacial, programa nuclear, além de defesa e segurança pública. "Como estamos imersos no Brasil e em seus problemas, tudo nos parece prioridade. Isso torna mais difícil estabelecer prioridades. Para isso, talvez, seja melhor tentar colocar-se na posição de quem vê o Brasil de fora: isso pode nos mostrar onde temos potencial para competir em escala global", diz Pacheco.
A pedido de VEJA.com, Scherer, Pacheco e Fabio Gandour, cientista-chefe da IBM, apontaram áreas em que o Brasil pode fazer a diferença e promover inovação tecnológica. Isso demanda redobrar os esforços em áreas em que já fazemos a rodar girar e triplicar o empenho em setores em que ainda avançamos devagar (mas podemos acelerar) — ambos serão cruciais para o futuro. A tarefa requer empenho permanente no presente para colher frutos pelas próximas duas décadas. Perder o trem do inovação, por outro lado, pode custar caríssimo ao país.
Fazer escolhas também significa assumir riscos, algo inerente à inovação. O receio de investir em projetos de longo prazo – que correm o risco de afundar no meio do caminho – assombra os brasileiros. “O empresário precisa se arriscar mais. Muitos só investem em inovação quando há dinheiro público envolvido”, diz Scherer. No Brasil, o investimento em pesquisa e desenvolvimento representa apenas 1,24% do Produto Interno Bruto – menos da metade é investido pelas empresas. A média global nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de nações mais desenvolvidas do planeta, é de 2,3% do PIB. “Precisamos de empresas com a ambição de se posicionar bem globalmente, porque o que interessa são as inovações de classe mundial”, afirma Pacheco.
Apesar dos desafios, é, sim, possível mudar as regras do jogo nos próximos anos e ajudar o Brasil a dar um salto significativo em inovação. O papel do governo é apoiar as empresas e reduzir os riscos. Isso passa pela manutenção de um ambiente econômico estável e também por reformas estruturais. “O governo precisa favorecer a interação público-privada e aprimorar as estruturas de financiamento. Vamos ter que fazer um esforço mais permanente, sustentado e de longo prazo em alguns setores para tornar o país competitivo globalmente”, diz Pacheco. Para Gandour, da IBM, a chave da inovação disruptiva é a paciência. “Não vamos agarrar a inovação em um mês, um ano ou em um mandato político. É preciso continuidade”, diz Gandour.
Seis áreas prioritárias para inovação tecnológica no Brasil
Foram ouvidos Carlos Américo Pacheco (reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, ITA), Fabio Gandour (cientista-chefe da IBM Brasil) e Felipe Scherer (consultor de gestão da inovação da Innoscience)
• Aviação
Por que > A importância do setor de aviação no Brasil tem nome: Embraer. A companhia é mundialmente reconhecida como uma fabricante de aviões comerciais e executivos de ponta. É também um gigante do setor, figurando em terceiro lugar entre os maiores do ramo, atrás apenas de Boeing e Airbus. "Essa indústria é estremamente sofisticada. E a Embraer já conseguiu o feito extraordinário de se colocar no primeiro time: não pode perder seu lugar", diz Carlos Américo Pacheco, reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).
Além de manter a Embraer viva, novas tecnologias desenvolvidas no Brasil podem consolidar a posição do país como um centro de excelência em engenharia aeronáutica — tanto no desenvolvimento de produtos como em qualificação de mão de obra.
Como fazer > Algumas razões explicam a necessidade de avançar e os caminhos a seguir. Primeiro, a aviação deve mudar radicalmente nos próximos anos. A aeronaves, por exemplo, devem sofrer profundas transformações, distanciando-se totalmente dos modelos que conhecemos hoje. Em segundo lugar, o mercado vem sofrendo pressões crescentes por parte de consumidores e governos. "Os fabricantes precisarão reduzir em 50% as emissões de gases de efeito estufa até 2030, o que demanda inovação", diz Pacheco.
A Embraer precisa investir de forma permanente em inovação tecnológica. Só isso permitirá que ela continue sendo uma empresa mundialmente competitiva. Sem os investimentos, perderá terreno para rivais da China, Índia e Rússia e também o posto de uma das dez empresas brasileiras que mais exportam.
• Energia(s)
Por que > O Brasil é o segundo maior produtor de etanol no mundo e também um pioneiro em biocombustíveis. A descoberta do pré-sal, em 2006, colocou o país em destaque também na exploração de petróleo. “A Petrobras se sentiu ameaçada pela possibilidade do uso de combustíveis alternativos ao petróleo. Isso fez a empresa inovar e se estabelecer como uma das líderes em exploração em águas profundas e permitiu a descoberta do pré-sal”, diz Fabio Gandour, cientista-chefe da IBM Brasil.
O país também é um dos líderes em geração de energia renovável e hoje 42% de sua matriz energética provêm de fontes limpas — a média mundial é de 13%. Há possibilidades também na indústria química, em especial na produção de plásticos considerados "verdes". “O Brasil tem uma oportunidade ímpar, e o mundo espera que nós cumpramos um papel relevante nessa área", diz Carlos Américo Pacheco, reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).
Como fazer > No caso do etanol, a inovação permitirá que as usinas aumentem a produtividade. Entre os projetos promissores está a criação da cana-de-açúcar transgênica, que pode tornar plantações mais resistentes às pragas, e o etanol de segunda geração, produzido a partir do bagaço da cana, que hoje é desperdiçado. “O aproveitamento do bagaço pode ajudar as usinas a aumentar a produção em 50%", diz William Burnquist, diretor do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).
Apesar do grande potencial das energias renováveis, elas devem representar uma pequena parte dos investimentos na expansão do setor energético no Brasil. Previsão da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgada no início de setembro indica que 1,2 trilhão de reais serão investidos na expansão do setor energético até 2023: 62% na exploração de petróleo e gás natural, 24% no setor elétrico (que inclui a geração de energia solar, eólica e de biomassa) e 14% em derivados do petróleo e biocombustíveis.
Os fortes investimentos na exploração do pré-sal devem ajudar o Brasil a figurar entre os maiores exportadores de petróleo do mundo na próxima década. Porém, os especialistas alertam que é preciso investir em paralelo nos renováveis, para garantir que a matriz energética brasileira continue independente de energias não renováveis no futuro. Os incentivos à inovação nas usinas de etanol, por exemplo, serão determinantes para diluir o custo alto de produção e garantir, no longo prazo, a sobrevivência do setor.
• Agronegócio
Por que > De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o setor agrícola brasileiro representa 23% do PIB e é responsável por gerar 30 milhões de empregos. "Olhando o Brasil de fora, é possível enxergar uma extraordinária agricultura tropical em que o desenvolvimento tecnológico é fundamental para manter a produtividade", diz Carlos Américo Pacheco, reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).
O setor estimulou as pesquisas, que hoje tem entre seus principais destaques a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mas há um grande número de pesquisadores distribuídos em universidades pelo país. “Somos um dos líderes mundiais em produção científica na área de agronomia”, diz Pacheco. Entre as áreas em que o Brasil produz inovações no agronegócio estão agricultura de precisão, biotecnologia e nanotecnologia.
Como fazer > Além de abastecer o mercado interno, o Brasil já possui papel de destaque no mercado internacional: o país é o maior exportador de café, açúcar, laranja e frango do mundo, de acordo com o Ministério da Agricultura, e o segundo maior em carne bovina. As empresas brasileiras estão bem posicionadas no mercado internacional, explica Pacheco. Mas, para avançar, não basta aumentar a produtividade: é preciso agregar valor aos produtos.
“O sucesso brasileiro só vai se consolidar quando tivermos empresas que atuem em toda a cadeia de valor na agropecuária, até o consumidor final”, diz o reitor do ITA. As empresas brasileiras que atuam no agronegócio, em sua maioria, fornecem apenas os produtos em sua forma bruta. Outras companhias no exterior são responsáveis por processar os alimentos e levar produtos de alto valor agregado para o supermercado, como pratos prontos. É nessa última fase onde as empresas podem agregar mais valor ao produto — e ganhar mais por isso.
A produção do agronegócio brasileiro deve aumentar significativamente nos próximos anos, graças ao crescimento da população em todo mundo e, em especial, em países como a China. A expectativa do Ministério da Agricultura é que o agronegócio no Brasil cresça 40% nos próximos dez anos. Se continuar a investir fortemente em inovação em toda a cadeia, desde a produção até a mesa do consumidor, os resultados podem ser ainda mais significativos.
Além de agregar valor aos produtos, a inovação pode ajudar o Brasil a se tornar um dos países especializados em outras áreas fundamentais para o desenvolvimento do setor. “É possível mirar outros tipos de alimentos, como os funcionais, além de desenvolver o setor em outras partes da cadeia, como embalagens e distribuição em escala global. Isso vai permitir que o Brasil crie empregos de maior qualidade em todo o setor”, diz Pacheco.
• Construção civil
Por que > Com a crescente demanda, os preços dos imóveis não param de subir em todo o Brasil. Apesar do faturamento em alta, as empresas investem pouco em inovação, em novos modos de construir e novos materiais. Para Felipe Scherer, consultor de gestão da inovação da Innoscience, as construções no Brasil são feitas de maneira "artesanal", o que as impede de alcançar bons níveis de produtividade. Entre os resultados estão os atrasos constantes em relação ao planejamento inicial, tanto no setor imobiliário como em obras de infraestrutura.
Outro problema é a tradição das construções de alvenaria, que geram um grande volume de resíduos ao longo da obra e quando o imóvel precisa ser demolido. “O Brasil não precisa de construções rígidas e sólidas, porque não estamos sujeitos a terremotos e furacões. Acho que só vamos conseguir uma mudança no setor quando houver uma lei que obrigue o construtor a reciclar o lixo resultante da obra”, diz Fabio Gandour, cientista-chefe da IBM Brasil.
Como fazer > Para Gandour, uma das formas de inovar é repensar a ocupação de espaço nas grandes cidades brasileiras e favorecer a formação de vários ecossistemas locais — cada um deles com escritórios, residências, escolas, hospitais e outros estabelecimentos em uma mesma região —, melhorando a distribuição das pessoas pelas cidades. Para isso, é preciso a contribuição do governo, por meio de políticas públicas, e das empresas do setor.
Outro ponto é a necessidade de industrialização de alguns pontos da cadeia produtiva. Em vez de concentrar todo o trabalho no canteiro de obra, explica Sherer, é possível expandir o uso de estruturas pré-moldadas, como ocorre em países como a China. Isso garante altos níveis de produtividade e de precisão. “Há também novas possibilidades na área de planejamento e execução de obras, e é preciso aumentar o uso de novos materiais, que sejam mais leves e tenham menor impacto ambiental”, diz Scherer.
• Cosméticos
Por que > Para muitas produtos de beleza e higiene pessoal, o Brasil é o maior mercado do mundo: é o caso de perfumes e desodorantes. Dados divulgados em abril pela consultoria Euromonitor também apontam que o país está em terceiro lugar em vendas de cosméticos. Empresas genuinamente brasileiras, como O Boticário e Natura, estão entre as líderes no país, mas já enfrentam a concorrência local de grandes players globais. No exterior, contudo, as brasileiras são pouco conhecidas e precisam inovar para disputar mercado com gigantes americanas e europeias.
Como fazer > As empresas do setor têm o desafio de fazer altos investimentos para incorporar novas tecnologias em seus produtos, com o objetivo de oferecer resultados mais eficazes aos consumidores. “Inovações como o uso de nanotecnologia em cosméticos abrem possibilidades para que novos produtos sejam criados e ofereçam benefícios reais”, diz Felipe Scherer, consultor de gestão da inovação da Innoscience. Entre eles estão os chamados nutricosméticos, pílulas e alimentos que prometem um bronzeado mais eficiente, redução da celulite, entre outros benefícios.
As empresas de cosméticos ainda exploram pouco a biodiversidade brasileira, principalmente por conta de restrições regulatórias e ambientais. Esse aspecto já demonstra que pode ser uma vantagem competitiva para as fabricantes nacionais. Há pesquisas no sentido de incorporar ativos naturais em produtos, mas estudos apontam dificuldades para garantir a eficácia dos componentes. Avanços na nanotecnologia permitirão que os ativos sejam encapsulados, o que pode garantir sua estabilidade e resistência ao longo do tempo.
Com altos investimentos em inovação, empresas brasileiras têm mais chances de posicionar suas marcas entre as gigantes globais em mercados fora do Brasil. A falta deles, contudo, não só prejudica a expansão internacional como ameaça a liderança no ambiente doméstico. Recentemente, marcas internacionais como M.A.C. e Lush começaram a dar os primeiros passos no país, por conta da desaceleração do consumo em alguns países nos últimos anos em vista da crise econômica.
• TI
Por que > Impulsionado pelo uso de dispositivos móveis e pela informatização cada vez maior das empresas, o mercado de TI deve crescer 11,6% em 2014, de acordo com projeção da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). O desempenho, segundo a consultoria IDC, consolida a posição do Brasil como quarto maior mercado de TI e telecomunicações do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Japão. O país também é o quarto maior mercado para dispositivos conectados (computadores, tablets e smartphones). “Se pensarmos apenas no mercado interno, já existe uma oportunidade enorme”, diz Felipe Scherer, consultor de gestão da inovação da Innoscience.
Apesar do enorme potencial, existem poucas empresas brasileiras de destaque atuando no mercado. O país se mantém como grande importador de tecnologia, desde a reserva de mercado no setor de informática imposta pelo governo na década de 1980. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o déficit do setor deve ficar em 37,7 bilhões de dólares em 2014, alta de 4% em relação a 2013. “Novas empresas brasileiras surgiram para atender demandas específicas de TI nos últimos anos e acabaram sendo adquiridas por multinacionais”, diz Bruno Tasco, analista de TI da consultoria Frost & Sullivan.
Como fazer > O Brasil tenta, desde a década de 1990, recuperar o atraso no mercado de tecnologia por meio de investimentos na fabricação de processadores e outros componentes. “Depois de tantos anos investindo nessa área, ainda não conseguimos alcançar um produto de classe mundial”, diz Scherer. Na área de software, porém, há avanços significativos e empresas de classe mundial. Alguns exemplos incluem a Totvs, que desenvolve sistemas de gestão para empresas, e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), que atua em projetos de inovação de empresas, como Motorola e Samsung.
Outro destaque é o surgimento de startups da área de tecnologia, que têm se organizado com a ajuda de aceleradoras. Essas "incubadoras" fora de universidades permitem que os empreendedores recebam investimento, um local para operar e mentoria. Contudo, as startups brasileiras enfrentam dificuldades em emplacar ideias novas, melhor recebidas em países como os Estados Unidos. “A área de software é uma boa opção para focar os investimentos em inovação, mas ainda estamos muito baseados na cópia, temos muitas versões brasileiras de coisas que já existem. Isso precisa mudar”, diz Scherer.
Os incentivos fiscais já oferecidos pelo governo, associados a maiores investimentos em inovação e capacitação de mão de obra podem ajuda o país a reduzir o atraso na indústria nacional de tecnologia. Isso não é garantia de que o país será capaz de competir com outras nações com tradição no setor, como Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão. Contudo, novas empresas nacionais de tecnologia podem ajudar a reduzir a dependência brasileira dos produtos e softwares produzidos em outros países.
Além disso, ao desenvolver a indústria local de tecnologia, em especial na área de software, empresas de outros setores podem se beneficiar com o conhecimento específico dessas empresas. Elas serão capazes de criar soluções de TI adequadas a setores onde o Brasil precisa ser mais competitivo, como agronegócio, petróleo e aviação.
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