domingo, setembro 28, 2014

Se o Fundo Soberano tivesse uma logomarca, seria uma jabuticaba

Marcelo Loureiro 
O Globo

Uma fonte do governo justificou a aplicação de quase todo o patrimônio do Fundo Soberano do Brasil (FSB), que em 2009 era de R$ 14,2 bi, em ações por se tratar de um “investimento de longo prazo”. Se de fato fosse assim, não deveria ser usado para fechar as contas do ano, como ocorreu em 2012 e como deve acontecer agora.

O FSB, que naquela época vendeu R$ 8,9 bi das ações da Petrobras para o BNDES, agora teria de vender R$ 3,8 bi em papeis do BB. Ficaria com cerca de R$ 400 mi e com o prejuízo por ser afoito. Em NY, a presidente classificou de “estarrecedor” o questionamento ao saque no fundo para cumprir a promessa de economizar 1,9% do PIB em 2014. Ele foi criado para ser usado em momentos de dificuldade, disse.

Na verdade, nosso fundo usa uma tecnologia muito difícil de ser encontrada em outras carteiras soberanas. Ele foi capitalizado por dívida do governo, quando o normal é o país reservar ali o seu excesso de receita. E aplicou quase a totalidade dos recursos para capitalizar apenas as duas estatais. Quando o governo precisou do dinheiro novamente, para fechar a conta de 2012, “vendeu” parte dos papéis ao BNDES. O banco de fomento não vai participar de um novo saldão, caso ocorra. Mas outras instituições públicas podem fazê-lo, o BB inclusive.

O maior fundo soberano do mundo, o norueguês GPFG, tinha US$ 869 bi de patrimônio no fim de 2013, sendo 37% em renda fixa, 1% em imóveis e o restante em ações de companhias de outros países. Ele é capitalizado pelo excesso de receita provocado pelo petróleo e aplica somente em outros países para não desequilibrar a economia local.

Entre os fundos soberanos que não são recheados por receitas do petróleo, o maior é o chinês CIC, com US$ 650 bi. Foi financiado com parte das reservas monetárias do país. Aplica 60% em bancos locais e no exterior os outros 40%. Desses, a maior parte está em renda variável, mas não em ações específicas. O CIC prefere os índices, que reúnem várias empresas. Entre outros benefícios, não achataria o preço das ações caso resolvesse vendê-las, como pode acontecer com o BB.

O segundo maior fundo nessa categoria –– e o mais interessante –– é de Cingapura, o GIC, com US$ 315 bi de patrimônio. Foi capitalizado com as reservas cambiais da cidade-estado e é gerido de maneira privada. Funciona com uma gestora controlada pelo governo: o ministro da Fazenda não interfere em sua gestão. 

Embora diferentes, nenhum desses fundos soberanos vende suas participações no afogadilho para pagar as contas do seu governo.