Míriam Leitão e Marcelo Loureiro
O Globo
O que está acontecendo nas contas públicas é gravíssimo. A solidez fiscal necessária para sustentar a estabilização da economia está se desfazendo. Se alguém tinha alguma dúvida, o dado que acaba de ser divulgado pelo Banco Central eliminou todas elas: quatro meses de déficit primário! É um déficit gigante, o maior de que se tem registro. Quando a conta é feita em 12 meses, o superávit primário é menor do que o necessário, mas ainda é apresentável. Mas o dado do ano é lamentável, de apenas 0,3%, mesmo com os truques como os dividendos maiores de empresas estatais, que desconsidera a necessidade de investimento delas.
Para quem não sabe, o relato do fato do dia:
Agosto registrou o quarto déficit primário seguido do país. Desde que o Banco Central iniciou a divulgação, em 2001, o Brasil nunca havia tido descontrole tão grande, seguidas vezes. No oitavo mês de 2014, o governo gastou R$ 14,4 bilhões a mais do que arrecadou. Em 12 meses, o governo conseguiu economizar apenas 0,9% do PIB. A reserva estava em 1,2% em julho, já bem abaixo do compromisso do governo de salvar 1,9% (R$ 99 bilhões) para pagar juros.
No recorte de 2014, a situação é ainda mais crítica. Em oito meses, o governo economizou apenas R$ 10,2 bilhões, ou 0,3% do PIB. Se estiver interessado em cumprir com sua palavra, o país terá de economizar cerca de R$ 22 bi ao mês até o fim do ano, algo que nunca ocorreu.
O temor é que isso eleve os riscos de que o Brasil perca o grau de investimento. A concessão do selo, que mede a capacidade de pagamento de um país, está diretamente ligada à disposição de economizar parte do PIB para honrar compromisso com credores. Perder o grau de investimento tem consequências concretas em oferta e preço de financiamento externo para empresas brasileiras.