sexta-feira, julho 24, 2015

Nova meta fiscal põe em xeque manutenção do grau de investimento do país, dizem especialistas

Ana Paula Ribeiro, João Sorima Neto e  Lino Rodrigues 
O Globo

Mas analistas consideraram positiva transparência do governo em mostrar cenário mais realista da economia

Reprodução de internet
Cédulas de reais

SÃO PAULO - A redução da meta de superávit primário pode colocar em risco a manutenção do grau de investimento pelo Brasil, mas também ajudar a equipe econômica a recuperar a credibilidade perdida em anos anteriores, segundo avaliação de economistas ouvidos pelo GLOBO. Em comum, todos veem o novo número, uma economia para o pagamento dos juros equivalente a 0,15% do PIB, mais realista com o cenário econômico atual, de forte redução da arrecadação de impostos.

Na avaliação de Newton Rosa, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, a redução da meta ocorre devido ao quadro econômico, em que a atividade está em declínio e, por isso, a arrecadação de impostos está menor. Ele destacou ainda a dificuldade em se implementar da maneira esperada as medidas de ajuste fiscal.

— Muitas das medidas de ajuste fiscal adotadas no início do ano não surtiram o efeito desejado, seja por conta das modificações no Congresso ou por conta do ritmo de implementação. O importante é que se está reduzindo a meta não para gastar mais, mas porque houve uma frustração de receitas e você não tem como acomodar isso via corte de despesas — disse.

A nova meta é considerada mais realista, inclusive abaixo da projeção dos economistas, e mostra uma postura mais transparente por parte da equipe econômica. No entanto, alertam os especialistas, o governo terá que redobrar a atenção porque a chance de rebaixamento da nota de crédito do Brasil, e até mesmo a perda do grau de investimento ficou maior, uma vez que o mais importante nessa avaliação é a trajetória da relação entre a dívida e o PIB.

O Brasil tem esse selo de bom pagador nas três grandes agências de avaliação de risco. Na Standard & Poor's, o rating soberano só está uma nota acima do grau especulativo, na Fitch e na Moody's - essa última está preparando a sua reavaliação da nota do Brasil.

— A comunicação do governo em relação ao tamanho do problema na economia ficou mais transparente. Mas cresceu a chance de que a perspectiva da nota brasileira seja negativa e não estável pela Moody'. Isso porque o governo espera que a relação dívida/PIB comece a cair apenas em 2017 e mesmo assim essa expectativa é questionável — explica Fábio Klein, especialista em administração pública da consultoria Tendências, acrescentando que um país com taxa de juros tão elevada como o Brasil necessita de "um superávit primário mais forte para reduzir essa relação."

Para o estrategista-chefe do banco japonês Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, embora a transparência da nova equipe econômica seja altamente positiva, a mudança drástica apresentada é uma sinalização ruim ao mercado. Significa ainda que para colocar a dívida em uma trajetória sustentável, o esforço deverá ser maior nos anos seguintes.

— O governo tem que entregar o que promete, fazer com que a dinâmica da dívida pública entre numa trajetória sustentável.

Não adianta ser transparente, mas não entregar o que promete, diz Rostagno, avaliando que a perda do grau de investimento faria o país mergulhar numa recessão mais profunda e mais prolongada.

DIFICULDADE DE CORRIGIR ERROS
Outro ponto negativo dessa mudança é sinalização de que o ministro da Fazenda Joaquim Levy sofreu mais uma derrota, perdendo força na condução da politica econômica. Ele lembra que a mudança vem logo depois de uma pesquisa que mostra alta reprovação do governo, o que dá margem que possa ter tido alguma ingerência politica.

— Em meio à situação delicada em que o país se encontra, o governo tem dificuldades de corrigir os erros do primeiro mandato da presidente Dilma que levaram a essa situação de risco de perda do grau de investimento.

Para o economista da MB Associados, Sergio Vale, a única boa dessa mudança é que se antecipou uma discussão que permearia todo o segundo semestre e reforçaria as dificuldades do governo.

— Nós trabalhávamos com 0,6% desde o início do ano. Esse número de 0,15% mostra como a situação é mais difícil, não apenas pelo lado da receita, mas revela também as dificuldades do governo em fazer cortes de gastos mais fortes e pela não implementação das reformas necessárias. Mostra também a dificuldade do ministro Joaquim Levy, que está cada vez mais isolado e enfraquecido — observa.

A preocupação com a perda do grau de investimento afetou diretamente os negócios nos mercados financeiros ontem. Paulo Eduardo Nogueira Gomes, economista-chefe da AZ FuturaInvest, explica que os mercados financeiros reagiram de forma negativa à redução da meta.

— Perder o grau de investimento é uma ameaça grave e real que paira sobre o Brasil mais a partir de agora. Acredito que o país possa ficar no limite, mas para isso o governo vai precisar reverter as expectativas dessas agências, que olham a perspectiva para a evolução da relação entre dívida e PIB — disse.

O temor de perder o selo de bom pagador fez o dólar comercial subir 1,63%, a R$ 3,226, maior valor de fechamento desde os R$ 3,232 de 30 de março. Já o índice Ibovespa recuou 1,08%, aos 50.915 pontos, com o agravante da derrocada do preço das matérias primas no mercado internacional, que acabou por afetar a Vale e a Petrobras.