terça-feira, setembro 12, 2017

Janot cita e-mails que mostram jogo duplo de ex-procurador

O Globo 

Troca de mensagem entre Miller e uma advogada do escritório que representa a JBS ocorreu quando ele ainda era procurador

  Fabio Guimarães / Agência O Globo 08/09/2017
O advogado Marcello Miller é suspeito de atuar na defesa 
da JBS enquanto era procurador 

BRASÍLIA -O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, juntou documentos que indicam a existência de um jogo duplo por parte do ex-procurador Marcello Miller no acordo colaboração premiada dos executivos do grupo J&F, controlador da JBS. Miller foi procurador da República até abril deste ano, mas deixou o cargo e passou a integrar o escritório de advocacia contratado pelos delatores.

Segundo Janot, antes mesmo de trocar o Ministério Público Federal (MPF) pela nova função, Miller teria orientado os executivos. Para corroborar seus argumentos, o procurador-geral citou uma troca de e-mails entre Miller e uma advogada do escritório quando ele ainda era procurador, e um depoimento prestado na última quinta-feira por Ricardo Saud, diretor da JBS.

No depoimento, Saud também afirmou que gravou um encontro que teve com o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, do qual também participou o empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS. Segundo Janot, esse e outros áudios não foram entregues ao Ministério Público. Para piorar, foram levados ao exterior, “em aparente tentativa de ocultação dos arquivos das autoridades pátrias, o que reforça o intento de omitir alguns fatos, após a orientação de Marcello Miller”. Omissões são vedadas no acordo de delação premiada e podem levar à suspensão de benefícios.

“Antes de março do corrente ano, Marcello Miller já auxiliava o grupo J&F no que toca o acordo de leniência firmado pela empresa com o MPF. Há, por exemplo, trocas de e-mails entre Marcello Miller e advogada do mencionado escritório, em época em que ainda ocupava o cargo de procurador, com marcações de voos para reuniões, referências a orientações à empresa J&F e inícios de tratativas em benefícios à mencionada empresa”, anotou Janot na sexta-feira, no documento que pediu a prisão de Miller, Saud e Joesley.

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), porém, determinou a prisão apenas de Joesley e Saud. O escritório com o qual Miller trocou e-mails e no qual passou a trabalhar depois é o Trench Rossi Watanabe. Ele e a advogada com quem mantinha contato no escritório já não trabalham mais lá.

De acordo com Janot, nos depoimentos prestados da última quinta-feira, Joesley e Saud “reconheceram que há informações e áudios não entregues”, mas também “foram evasivos, deixaram de apresentar fatos importantes e levantaram explicações confusas”. Assim, “é possível que estejam nesse momento destruindo ou ocultando outras provas que possam corroborar as afirmações envolvendo a prática desveladas no áudio”.

A defesa de Marcello Miller informa que só teve acesso às informações da PGR ontem e está preparando as medidas cabíveis. Em nota, Cardozo disse que foi procurado em seu escritório em março deste ano, oito meses depois de ter deixado o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, a JBS estava interessada em contratar seu serviços. Por isso, foi ao encontro na casa de Joesley: “Posso afirmar que (a conversa) não envolveram, em absoluto, qualquer ato ilícito”. Também em nota, o escritório Trench Rossi Watanabe informou que está colaborando com as investigações e “entregando todos os documentos solicitados pela Procuradoria-Geral da República”. O escriório afirmou ainda que nem Miller, nem a advogada com quem ele trocou e-mails trabalham mais lá.