quinta-feira, março 29, 2018

José Padilha ironiza boicote à Netflix: 'Vão perder a 4ª temporada de Narcos'

Fabiano Ristow
O Globo

Cineasta comenta reação à série 'O mecanismo', diz que esquerda 'enlouqueceu' e chama de 'patético' o movimento para cancelar assinaturas

  Netflix / Alexandre Loureiro 
José Padilha 

RIO — O cineasta José Padilha não acredita que "O mecanismo" tenha espalhado "fake news", como alegou a ex-presidente Dilma Rousseff neste domingo.

— Não creio que espalhamos noticias falsas. Ou será que a corrupção gigante que PT, PMDB e PSDB operam no país são fake news? — questionou o diretor.

Em entrevista por e-mail, Padilha comentou a repercussão que a série da Netflix, inspirada na Operação Lava-Jato, ganhou desde a estreia, na última sexta-feira.

Movimentos de esquerda iniciaram uma campanha nas redes sociais para que usuários cancelassem suas assinaturas do serviço de streaming. A iniciativa é "patética", segundo ele:

— Acho patético! Vão perder a quarta temporada de "Narcos"! — ironizou, referindo-se à outra série que produziu para a Netflix.

A reação a "O mecanismo" ganhou força já no fim de semana, quando os usuários descobriram que a expressão "estancar sangria" foi colocada na boca do ex-presidente Lula. Na vida real, a frase foi dita pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR) numa gravação em que ele falava em pacto para deter o avanço da Operação Lava-Jato.

— A série mostra como PT e PMDB montaram um enorme esquema de corrupção de lavagem de dinheiro. Um esquema que lesou os brasileiros, com a participação clara de Lula e de Temer, que durante boa parte do tempo foram sócios na corrupção sistêmica, lógica estruturante da politica no Brasil. E a esquerda quer polemizar o uso do termo “estancar a sangria”? Não é preciso ser nenhum Sigmund Freud para concluir o que a esquerda revelou sobre si mesma ao se ater a este ponto... — ponderou Padilha.

Ele afirmou ainda que a "esquerda enlouqueceu e ficou tão hipócrita quanto a direita":

— Os bandidos entram na sua casa. Estupram a sua esposa, matam os seus filhos e roubam tudo o que você tem. Na saída, surrupiam seu isqueiro... A esquerda viu a série e quer debater a cor do isqueiro. Há um elefante na sala. O PT de Lula se associou ao PMDB de Temer. Juntos, operaram o mecanismo. Desviaram bilhões de dólares dos cofres públicos. Petrobras, Belo Monte, Eletrobrás, BNDES. Parasitaram o cidadão. E a esquerda finge que não viu? Sinto muito. A esquerda enlouqueceu e ficou tão hipócrita quanto a direita. Hoje estão todos de mãos dadas: os formadores de opinião da esquerda, Aécio Neves e Temer, torcendo para que o STF revoque a prisão em segunda instância. Depois o maluco é o Ruffo... — concluiu, referindo-se ao personagem Marco Ruffo (Selton Mello), delegado da Polícia Federal que tenta prender corruptos.

Em outra cena de "O mecanismo", o doleiro Roberto Ibrahim (inspirado em Alberto Youssef) traz dinheiro para a campanha da candidata Janete (ou Dilma Rousseff). Em texto publicado em seu site, a ex-presidente Dilma acusou Padilha de "inventar fatos".

'O mecanismo': conheça as referências da série à vida real

O doleiro 

Foto: Divulgação / Jorge William 
O ator Enrique Diaz e o doleiro Alberto Youssef 

Na série, o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) comanda um esquema de lavagem de dinheiro, operando por meio de um escritório instalado em cima de um posto de gasolina. Na vida real, foi exatamente esse o cenário que batizou a operação Lava-Jato, que prendeu o doleiro Alberto Youssef em sua primeira fase.

Prostitutas 

Foto: Pedro Saad / Netflix
A atriz Alessandra Colasanti 

Ibrahim chama a ex-cafetina Kitano (Alessandra Colasanti) para trabalhar com ele. As suas prostitutas são usadas para distribuir dinheiro de corrupção em Brasília. Na vida real, Youssef, que teve um relacionamento com Nelma Kodama, condenada, afirmou aos investigadores que prostitutas eram pagas com dinheiro desviado da Petrobras.

Nomes de fantasia

Foto: Karima Shehata / Netflix
Cena de 'O mecanismo' 

Alegando ser uma obra independente, a produção de "O mecanismo" não quis usar nomes verdadeiros de instituições. Assim, PF virou "Polícia Federativa"; o MP é chamado de "Ministério Federal Público"; a Odebrecht, de Miller & Bretch; e a Petrobras se tornou PetroBrasil. Muita sutileza.

O presidente


Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena / Agência O Globo / Agência O Globo
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva 

"Nunca antes da história desse país", diz o presidente do Brasil (interpretado por Arthur Kohl) ao fim do primeiro episódio, numa referência a Lula. O personagem é barbudo, tem a língua presa e está em meio à campanha para eleger sua colega de partido.


A 'presidenta'

Foto: Omar de Oliveira/Fotoarena / Agência O Globo / Agência O Globo
Dilma 

A candidata à Presidência, Janete, aparece já falando em "estocar vento" — expressão usada por Dilma em 2015, que acabou sendo alvo de piadas na internet. A assessora de campanha, vivida por Maria Ribeiro, recebe dinheiro de Ibrahim.

O investigador

Foto: Divulgação Netflix
Selton Mello em cena de 'O mecanismo' 

Selton Mello afirma que seu personagem Marco Ruffo foi baseado num homem chamado "Gerson". No livro "Lava Jato: o Juíz Sergio Moro e os bastidores da Operação que abalou o Brasil", no qual a série se baseia, Gerson Machado é um delegado da PF. Selton afirma não ter tido contato com o homem real.

Diretor da 'PetroBrasil'

Foto: Divulgação
Leonardo Medeiros em 'O mecanismo'; 
e Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras 

O diretor da PetroBrasil (ou Petrobras, em bom português) é João Pedro Rangel (Leonardo Medeiros). Ele mantém uma relação próxima com Ibrahim, que dá de presente ao colega um carro de luxo. Na vida real, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa disse ter recebido um Range Rover de Alberto Youssef.