Janaína Figueiredo*
O Globo
Analistas cortam projeção de crescimento do país e província entra em estado de emergência
Marcelo Manera/ “La Nación”
Terra seca. Em Santa Fé, que faz parte da região conhecida
como Pampa Úmido, lavoura de soja e milho foi perdida
BUENOS AIRES - Quando o governo do presidente argentino, Mauricio Macri, enviou ao Parlamento o projeto de Orçamento para 2018 com uma previsão de crescimento de 3,5% não imaginava que seus planos seriam alterados pela seca mais dramática dos últimos 45 anos no país. Desde novembro passado, as províncias de Buenos Aires, Córdoba, Santa Fée Entre Rios vivem verdadeira tragédia que, segundo economistas locais ouvidos pelo GLOBO, já custou meio ponto percentual de crescimento econômico ao país.
Menos otimistas que a Casa Rosada, a maioria das empresas de consultoria argentinas estimava que este ano o PIB registraria variação positiva de 3%. Nas últimas semanas, porém, a seca, que segundo estimativas já causou prejuízo de US$ 3 bilhões, levou a uma revisão generalizada das previsões para 2018 e, em muitos casos, a taxa de crescimento foi rebaixada para 2,5%.
Esta semana, o governo declarou “estado de emergência agropecuária” em Entre Rios, a pedido das autoridades locais, pelo prazo de um ano. A medida implicará a ativação de uma série de mecanismos de ajuda aos produtores da região. O Banco Central da República Argentina (BCRA) anunciou a prorrogação do vencimentos de créditos concedidos a produtores rurais afetados pela seca.
— Quero dizer a vocês que não estão sozinhos. Se todos empurrarmos o carro para o mesmo lado, o carro vai andar — declarou o presidente Macri recentemente, em discurso numa exposição agropecuária.
INUNDAÇÕES EM 2017, SECA EM 2018
Paralelamente, o estatal Banco de la Nación Argentina lançou uma nova linha de créditos para produtores agropecuários, com benefícios excepcionais.
— Queremos ajudar todos os prejudicados pela seca. Não somente os produtores, mas também todos os envolvidos no mercado, como vendedores de máquinas agrícolas — explicou o presidente do Banco de la Nación, Javier González Fraga.
A seca já atingiu 35% das regiões cultiváveis da província de Buenos Aires. Em Entre Rios, espera-se uma queda de 54% na produção de soja e 38% na de milho. Entre janeiro e fevereiro, nas províncias prejudicadas — que formam o que se chama o Pampa Úmido — costuma chover em torno de 250 ml. Este ano, informou Juan Manuel Garzón, economista do Instituto de Estudos sobre a Realidade Argentina e Latino-americana (Ieral), o volume de chuvas nesta região oscilou entre 30 e 50 ml nos dois primeiros meses do ano.
— Em alguns lugares, os produtores passaram de uma situação de inundações vivida no ano passado para uma seca este ano que há décadas não se via na Argentina. O quadro para estes produtores é gravíssimo — comentou Garzón, que coordena pesquisas e trabalhos de investigação sobre produção agropecuária no escritório do Ieral em Córdoba.
Os produtos mais afetados pela seca são soja, milho e girassol. A Argentina é um dos principais exportadores de soja do mundo e o primeiro exportador de farinha de soja, usada para alimentar animais. As exportações de soja e seus derivados representam um terço das vendas totais do país em mercados externos.
— O prejuízo poderá chegar a US$ 3 bilhões. No caso das exportações, as perdas poderiam ser amenizadas pelo aumento dos preços no mercado internacional, algo que já está acontecendo — explicou o economista do Ieral.
Para a produção agropecuária argentina, hoje a soja é mais importante do que a carne. As exportações anuais alcançaram em torno de US$ 19 bilhões no ano passado.
— A produção agropecuária terá queda entre 10% e 14% — afirmou Fausto Spotorno, da consultoria Orlando Ferreres e Associados, que reduziu sua projeção para o crescimento do PIB de 3% para 2,5%.
PREJUÍZO DE 10 MILHÕES DE TONELADAS DE SOJA
Na avaliação de Amilcar Collante, do Centro de Estudos Econômicos do Sul, “a produção de soja vai perder cerca de 10 milhões de toneladas e isso terá impacto em toda a economia”.
— No caso do milho, a produção já caiu em 5 milhões de toneladas. Nossa projeção de crescimento para este ano foi rebaixada em 0,3 ponto percentual e está em 2,7% — disse o economista.
Em alguns campos do Pampa Úmido, o prejuízo será total. As imagens mostram um panorama desolador para muitos produtores, que, em alguns casos, poderão contar com estoques de 2017. O problema surgirá a partir do ano que vem, apontaram os economistas, se o clima continuar surpreendendo e atrapalhando a retomada do crescimento.
(*) Correspondente
