Adriana Fernandes e Anne Warth,
O Estado de S.Paulo
Troca de comando da Petrobrás e ameaça de demissão do presidente do Banco do Brasil deixaram sensação de volta ao passado de políticas econômicas
Foto: Dida Sampaio/Estadão - 24/2/2021
Com Bolsonaro, governo voltou a criar uma estatal,
o que não acontecia desde o governo Dilma.
BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro repete passos da ex-presidente Dilma Rousseff na economia, principalmente na intervenção nas empresas estatais, e vem gerando uma sensação de uma volta ao passado de políticas econômicas. As recentes intervençoes provocaram queda na Bolsa e alta do dólar e inundaram a internet de memes mistirando os dois numa referência a Bolsodilma.
Diferentes na política, um se diz de direita e defende o regime mitar, a outra, de esquerda, foi presa pela ditadura, Bolsonaro e Dilma se aproximam na tentativa de responder a problemas econômicos.
Bolsonaro trocou o comando da Petrobrás e já ameaçou demitir o presidente do Banco do Brasil, que colocou o cargo à disposição. Ainda prometeu "meter o dedo" na energia elétrica, mas não explicou como, e zerou os impostos sobre o diesel e gás de cozinha.
Dilma cortou a conta de luz numa canetada - o que acabou provocando desequilíbrio no mercado, que resultou num tarifaço depois -, e decidiu desonerar de uma única tacada todos os produtos da cesta básica, medida que acabou beneficiando também produtos de luxo.
Com Bolsonaro, o governo voltou a criar uma estatal, a Nav (de navegação aérea), o que não acontecia desde o governo Dilma. E o governo tem adotado medidas que caminham na direção contrária à agenda de privatização defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
Eleito por uma aliança que incluiu evangélicos, militares, colecionadores de armas, caminhoneiros e apoiadores de uma economia liberal, o presidente se equilibra entre demandas que dividem a própria base. Paradoxalmente, em algumas dessas disputas, o resultado final acabou se aproximando de políticas do PT.
O episódio da Petrobrás, que gerou perdas no mercado e colocou em xeque de forma mais contundente a política liberal de Guedes, acabou levando à pergunta: afinal, Bolsonaro “dilmou”?
Para a oposição, no campo democrático qualquer comparação é definida como uma afronta. A única aproximação possível de se apontar é que ambos mantêm preocupações de tudo não ser apenas como o mercado financeiro quer. Não por acaso, o presidente deu a sua resposta ao mercado, que ele mesmo já chamou pejorativamente de “irritadinho”, e escolheu entre várias opções à mesa apresentadas pela equipe econômica elevar a tributação dos bancos para compensar a desoneração do diesel e do gás de cozinha. Uma medida que deverá ter impacto direto no custo de crédito nesse momento de busca da retomada econômica.
