Ruth de Aquino
O Globo
Rafaela Felicciano/Metrópoles
Salles está enrolado por duas operações da PF. Agora,
a acusação é grave: facilitar contrabando de madeira ilegal |
A boiada passou, o gado silenciou. A boa notícia do ano é a operação da Polícia Federal contra o ministro Ricardo Salles. Injustamente eclipsada pelo depoimento, na CPI da Covid, do general Pazuello, que é dose para boi dormir. Salles acusado de facilitar contrabando de madeira ilegal é algo que me devolve a esperança no Brasil brasileiro.
Dez acólitos de Salles no Ibama foram afastados como suspeitos no esquema criminoso milionário. Dez, nota 10. O ministro predador do meio ambiente chegou à PF em Brasília com um assessor armado, militar da reserva. Correu depois para pedir proteção e bênção a seu mentor Bolsonaro.
Salles é o mais sonso sobrevivente da ala ideológica de Bolsonaro. Já caíram Weintraub, Araújo e Pazuello. Os três sabotavam suas pastas. Não só para obedecer a quem manda. Acreditavam mesmo na deseducação, na antidiplomacia e na cloroquina sem vacina. Assim como Salles acredita piamente no desmatamento como política pública e protege os contraventores. Essa investigação, se aprofundada, revelará outros crimes. Salles vai dançar. Para blindar o presidente.
É difícil e árido acompanhar o novelão amazônico. Mas às vezes se consegue sorrir. “Salmo 96:12: Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta”. Assim reagiu nas redes o delegado Alexandre Saraiva, derrubado da chefia da PF no Amazonas. Punido por acusar Salles de boicote à fiscalização ambiental.
O ministro está enrolado por duas operações da PF, batizadas com apelidos criativos como manda a tradição. Primeiro, foi a Handroanthus, nome científico do ipê, que fez apreensão recorde de madeira ilegal cortada no Pará. Salles voou ao local e se apressou a liberar. Posou diante das toras como um caçador posa junto ao animal abatido. Agora, o ministro foi alvejado pela Akuanduba, divindade dos índios Araras. É o nome da nova operação da PF. O crime já não se limita ao território brasileiro. A denúncia é de cargas de madeira ilegal da Amazônia chegadas aos Estados Unidos.
Aliado de garimpeiros, grileiros e madeireiros, Salles teve sigilos bancários e fiscais quebrados. Houve busca e apreensão em sua casa em São Paulo e em seus endereços em Brasília e no Pará. Tudo autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo. E Augusto Aras ficou a ver navios. Um pedido de impeachment de Salles, engavetado pela Procuradoria-Geral da República, foi encaminhado ontem ao STF.
Conversei com Marina Silva, ministra do Meio Ambiente no governo Lula. Ela colocou mais de 700 na prisão e fez 25 operações da PF. A maior foi a Curupira, com 400 policiais federais, e madeira ilegal que daria para encher 66 mil caminhões. Saiu do governo petista cinco dias depois de lançar o programa Amazônia Sustentável. Perdeu várias batalhas ecológicas contra o PT. Mas afirma que nunca viu nada parecido com os crimes atuais.
“Bolsonaro cumpriu o que prometeu. Não ia demarcar nenhum centímetro de terra indígena. E ia desmontar a política ambiental. O principal operador é Salles e agora ele ficou insustentável. Não vai mais ter Europa nem EUA nem Mercosul nem investidor. Serão rompidos contratos já firmados com o Brasil. Nossa política ambiental passou para as páginas policiais. Mudam-se leis para normalizar o crime. O presidente mente na Cúpula do Clima. E isso não se aceita lá fora”.
Está no The Times, no Le Monde. O ministro brasileiro suspeito de exportar madeira ilegal. A ‘Mamata Atlântica’ do título, eu peguei emprestado do site satírico ‘Sensacionalista’. Não são só as árvores que sorriem com a boiada passando por cima de Salles.
