quinta-feira, novembro 04, 2021

Um pária na COP26

 Carolina Marins e  Jamil Chadedo Ro

Folha de São Paulo

Isolado por sua agenda ambiental, Brasil vai à cúpula querendo mostrar mudanças, mas sem dados favoráveis

Começam hoje as negociações da 26º edição da Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a COP26. Durante duas semanas, líderes, empresários, ambientalistas, etc., discutirão formas de mitigar os avanços das mudanças climáticas.

Historicamente, o Brasil recebia destaque na COP por sua até então defesa do combate ao desmatamento e emissão de gases de efeito estufa. O cenário mudou, no entanto, ao longo do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), que transformou a pauta climática em mais uma agenda ideológica.

Depois de embates com países europeus envolvendo a pauta ambiental e o aumento dos desmatamentos e queimadas —tanto na Amazônia quanto no Cerrado e no Pantanal— o Brasil chega fragilizado à cúpula e com más notícias. Os dados de 2020 de desmatamento e emissões de carbono são os piores em mais de uma década. Ainda assim, a comitiva brasileira tem a missão de negociar um aumento no financiamento concedido pelos países ricos.

Esta COP é importante pois é a primeira após o Acordo de Paris ter substituído o Protocolo de Kyoto, o que ocorreu em 2020. No documento anterior, apenas países desenvolvidos se comprometiam com as responsabilidades de redução de danos. Agora, todos os que assinaram o Acordo de Paris se comprometem e começa a corrida para cumprir as metas.

"Essa COP é uma das mais importantes, porque não há mais debates sobre quais são as metas e regras. Agora é como a gente vai implementar", explica Ana Toni, consultora do Núcleo de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).

Sem credibilidade

O encontro de Glasgow ocorre no momento de maior fragilidade internacional do Brasil. No Tribunal Penal Internacional, o governo de Jair Bolsonaro é denunciado por crimes contra a humanidade por conta do desmatamento. Na ONU, acumulam-se queixas formais contra o país pelo esvaziamento dos mecanismos de controle ambiental.

Enquanto isso, governos europeus caminham no sentido de iniciar a adoção de barreiras comerciais para exportações que não consigam provar que não geram desmatamento. Se não bastasse, fundos de investimento retiram recursos do Brasil, e supermercados e lojas estrangeiras começam um processo para barrar produtos nacionais que não tenham comprovação de que não geram danos ao meio ambiente.

Ciente de estar encurralado, o Itamaraty vem tentando, nos bastidores, romper com dois anos de uma política externa que isolou o país e transformou o Brasil em uma espécie de pária internacional.

O lugar do Brasil no mundo

Nesta semana, o governo brasileiro vai aderir a um novo pacto pela proteção das florestas, que será anunciado no dia 2 de novembro, e tem adotado uma narrativa de que passou a agir para tentar construir consensos. De fato, na semana passada, o Itamaraty reuniu os embaixadores da Europa em Brasília para explicar a postura do governo na conferência e garantir que vai adotar uma atitude construtiva.

Mas a operação de sedução da diplomacia esbarra em pelo menos dois grandes problemas. O primeiro deles é a profunda desconfiança internacional em relação ao Brasil. Se os negociadores nacionais tentam passar uma imagem de moderação, os dados de desmatamento mostram que a destruição ganhou um novo ímpeto nos últimos três anos.

Para negociadores estrangeiros, a credibilidade do Brasil hoje é "perto de zero" e apenas uma reversão nos números do desmatamento poderá restabelecer um clima de diálogo com potências estrangeiras. "Não adianta mais vir com um discurso conciliador. Agora, queremos provas de que as coisas vão mudar", admitiu ao UOL um diplomata europeu, sobre as relações com o Brasil.

O outro problema é a constatação de entidades internacionais, entre elas a ONU, de que o governo Bolsonaro promoveu um desmonte das estruturas da política ambiental no país.

Para negociadores, tanto brasileiros como estrangeiros, a COP26 não é apenas mais um encontro burocrático. Para o país onde a Amazônia tem a maior parte da floresta, o encontro representa a definição de seu lugar no mundo e de que forma o país espera se inserir na nova economia mundial.