quarta-feira, novembro 24, 2021

Valdemar foi só mais um: as trombadas de Bolsonaro com chefes de partidos

 Leonardo Lellis 

Veja online

Antes de se desentender com o cacique do PL, presidente criou problemas para Roberto Jefferson (PTB), Adilson Barroso (Patriota) e Luciano Bivar (PSL)

 Andressa Anholete/Getty Images 

O presidente Jair Bolsonaro 

O cancelamento da filiação de Jair Bolsonaro (sem partido) ao PL de Valdemar Costa Neto é mais um lance do problemático histórico do presidente da República com os dirigentes que abrem as portas de suas legendas para abrigar o capitão em sua tentativa de reeleição. Embora Valdemar negue qualquer troca de ofensas, a decisão foi anunciada em um comunicado após “intensa troca de mensagens” enquanto o presidente está em Dubai.

Segundo relatos, Valdemar ficar muito irritado com o fato de o próprio Bolsonaro ter trazido o assunto a público e citado o impasse em torno da situação do PL em São Paulo — onde a legenda deve apoiar o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB). Político experimentado e conhecido por sua habilidade de bastidores, Valdemar não gostou de se ver enredado numa polêmica pública.

Mas este não é o primeiro caso de dirigente que passa por maus bocados após se aproximar de Bolsonaro. O último foi o ex-deputado condenado no Mensalão Roberto Jefferson, que abriu as portas do PTB para receber o presidente, entrou na briga dos bolsonaristas contra o Supremo Tribunal Federal e hoje está preso, acusado de ameaçar membros da Corte, e afastado do comando da sigla. A aliados mais próximos, não esconde a mágoa.

Antes, Adilson Barroso também sentiu na pele os altos custos que importam na tentativa de atrair o presidente e seus aliados — ele chegou a posar com a ficha de filiação do senador Flávio Bolsonaro, em um gesto para marcar o início da chegada da família. Mas deu tudo errado: de fundador da legenda, Barroso acabou destituído da presidência do partido após promover alterações no estatuto para pavimentar o caminho para a chegada de Bolsonaro.

O deputado federal Luciano Bivar, do PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu, chegou a ceder a presidência da agremiação durante a campanha de 2018 a Gustavo Bebianno — homem de confiança do então candidato e demitido pelo presidente logo no início do mandato. Bivar retomou o controle da legenda, mas não sem ouvir de Bolsonaro que ele “estava queimado”, além de ataques dos filiados que se mantiveram leais ao presidente. A crise terminou com a saída de Bolsonaro do partido no final de 2019.

Em busca de um partido já estruturado depois de ver naufragar a tentativa de fundar um próprio (o Aliança pelo Brasil), Bolsonaro não abre mão de um desejo difícil de acomodar: o controle dos diretórios estaduais e o poder de indicar candidatos. Se a equação já é difícil, o histórico recente mostra que os dirigentes partidários ainda estão sujeitos a mais uma variável: o risco de saírem chamuscados na negociação.