domingo, janeiro 09, 2022

Enfim, a vez das crianças

 Ana Mendonça e Déborah Lima

Estado de Minas

 © Ina Fassebender/AFP 

Criança é vacinada na Alemanha: doses devem começar a chegar 

ao Brasil no dia 13 e a ideia é imunizar primeiro as crianças com comorbidades

Imunidade para os pequenos. Em Minas Gerais, cerca de 1,8 milhão de crianças devem estar aptas a garantir proteção contra o novo coronavírus nos próximos dias. É que o Ministério da Saúde incluiu, ontem, crianças de 5 a 11 anos no Plano Nacional de Imunização (PNI) contra COVID-19. Em Belo Horizonte, são 193 mil crianças nessa faixa etária. No Brasil, 20,5 milhões.  O ministério não definiu uma data para o início da imunização, mas a previsão é de que o público comece a ser vacinado ainda este mês. Diferentemente do previsto, o governo recuou e não vai exigir prescrição médica para que a criança seja vacinada, depois de a medida ter sido amplamente condenada por especialistas em audiência pública.

Até o fim de janeiro, a estimativa é de que 3,7 milhões de doses da Pfizer cheguem ao país. Somente esse imunizante será utilizado em crianças, conforme autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A primeira remessa, com 1,2 milhão de doses, deverá chegar ao país em 13 de janeiro. Até o fim do primeiro trimestre está prevista a chegada de 20 milhões de doses pediátricas.

Segundo projeções do IBGE de 2018 (últimas publicadas), dos 5 aos 11 anos seriam 1.846.030 em Minas. São crianças que podem se livrar de fazer parte do triste número de mortes por COVID-19 no estado. Nessa faixa etária, foram seis vidas perdidas em 2020 e o dobro em 2021, de acordo com dados do e-SUS Notifica, até 27 de dezembro do ano passado.

O número de casos no estado é preocupante. Foram mais de 34 mil crianças infectadas em Minas Gerais somente em 2021. Isso representa mais que todos os estados da Região Norte juntos (27.058) e que a Região Centro-Oeste também (33.511). Os dados foram apresentados ontem durante coletiva de imprensa do Ministério da Saúde mas não ainda não foram confirmados pela Secretaria de Estado de Saúde MG (SES-MG).

No Brasil, 301 crianças morreram em decorrência da doença desde a chegada do coronavírus até 6 de dezembro de 2021, o que, em 21 meses de pandemia, significa 14,3 mortes por mês, ou uma a cada dois dias.

NA CAPITAL MINEIRA 

A Prefeitura de Belo Horizonte começou a preparar um esquema especial para a vacinação de crianças entre 5 e 11 anos, inclusive com abertura de novos pontos de imunização. No município, são 193 mil crianças nessa faixa etária. “Se recebermos do Ministério da Saúde este quantitativo total de doses, vamos vacinar todas as crianças em sete dias. Inclusive, com perspectiva de abertura de ponto de vacinação no sábado”, explica o secretário municipal de Saúde, Jackson Machado Pinto.

O planejamento do município prevê a imunização das crianças em conjunto com as demais faixas etárias que já estão no prazo para receber a dose de reforço. A prefeitura entende que, caso receba do Ministério da Saúde um quantitativo inferior de doses, fará a convocação das crianças de forma escalonada.

“É muito importante que as crianças recebam a vacina antes do início das aulas. Sabemos que a primeira dose já oferece uma importante proteção. Estamos presenciando um aumento no número de casos de doenças respiratórias e quanto mais pessoas vacinadas, menor a circulação de vírus”, acrescenta o secretário.

Belo Horizonte já atingiu 100,5% da população acima de 12 anos com primeira dose e dose única. Já com a segunda dose e dose única o índice chega a 93%, e 24,2% com dose de reforço.

COMO VAI FUNCIONAR 

O esquema vacinal será com duas doses, com intervalo de oito semanas entre as aplicações. O tempo é superior ao previsto na bula da vacina da Pfizer. Na indicação da marca, as duas doses do imunizante poderiam ser aplicadas com três semanas de diferença. Assim como ocorreu com o público a partir dos 12 anos, a vacinação será feita por faixa etária.O ministério também recomendará uma ordem de prioridade, privilegiando as crianças com comorbidades e com deficiências permanentes; indígenas e quilombolas; crianças que vivem com pessoas com riscos de evoluir para quadros graves da COVID-19; e em seguida crianças sem comorbidades.

Para a imunização dos pequenos, será necessário apresentar uma autorização dos pais. Caso o responsável esteja presente no momento da vacinação, não será cobrado um termo por escrito.

PROCESSO LONGO 

A venda, distribuição e disponibilização da vacina Pfizer contra a COVID-19 para crianças de 5 a 11 anos foram autorizadas pela Anvisa no mês passado. Ainda assim, o Ministério da Saúde abriu uma consulta pública para que, segundo a pasta, pais e responsáveis opinassem sobre o assunto, procedimento inédito no país e visto como desnecessário por especialistas.

Na manhã de terça-feira, foi realizada uma audiência pública, na qual apenas três dos 18 participantes se opuseram à imunização de crianças.

O IMUNIZANTE 

A vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos tem uma formulação diferente e uma dose menor que a dos adultos e adolescentes, com apenas 10 microgramas (0,2ml) do imunizante. Seu uso foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 16 de dezembro.

Segundo a Anvisa, a tampa do frasco da vacina é da cor laranja, para facilitar a identificação pelas equipes de vacinação e também pelos pais, mães e cuidadores que levarão as crianças para serem vacinadas. Para os maiores de 12 anos, a vacina, que será aplicada em doses de 0,3ml, terá tampa na cor roxa.

O médico da SBP explica que, nos ensaios clínicos, os pesquisadores buscam a menor dose capaz de provocar uma resposta imune efetiva, e que, no caso das crianças, foi possível reduzir a quantidade. 

"Percebeu-se que as crianças têm um sistema imunológico que responde muito melhor que o dos adultos".

PROTEÇÃO NECESSÁRIA

Confira totais de casos e mortes de crianças entre 5 e 11 anos em Minas por COVID-19 e público-alvo da vacina

Casos

11.290 em 2020

34.505 em 2021

Mortes

6 em 2020

12 em 2021

Total de crianças de 5 a 11 anos que morreram de COVID-19 no Brasil desde o início da pandemia

301

Público-alvo

20,5 milhões de crianças no Brasil

1,8 milhão em Minas Gerais

193 mil em Belo Horizonte

Fonte: e-SUS Notifica, até 27 de dezembro de 2021 e IBGE