Manoel Ventura
O Globo
Ministro da Economia questiona pedidos por aumentos feitos por funcionários públicos e diz ser preciso ter cuidado com salários
Foto: Edu Andrade / Ascom/ME
O ministro da Economia, Paulo Guedes
BRASÍLIA — O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou nesta sexta-feira que é preciso ter cuidado com os salários dos servidores públicos e questionou se faz sentido pedir reajustes neste momento, em meio ao avanço da variante Ômicron da Covid-19.
— Qual o sentido de pedir reajuste de salário, mesmo agora, quando temos essa crise ainda conosco, nessa variante Ômicron? Temos que ter cuidado com os salários. Porque estamos ainda em guerra, e temos que pagar pela nossa guerra. Nós temos que pagar, ao invés de empurrar os custos para as futuras gerações — disse Guedes, ao participar do anúncio do resultado das contas públicas em 2021, que fecharam o ano no menor rombo desde 2014.
Guedes não citou diretamente os pedidos de reajustes feitos por diversas categorias nas últimas semanas. A pressão dos servidores federais foi causada pela decisão do presidente Jair Bolsonaro de conceder aumentos apenas para a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e o Departamento Penitenciário Nacional.
O ministro deu a declaração ao comentar que os salários do funcionalismo de União, estados e municípios ficaram travados em 2020 e 2021, como contrapartida aos gastos feitos pelo governo por conta da pandemia.
— O dinheiro vai para a saúde sim, mas não deve haver reajuste de salários durante a pandemia. Se nós estávamos de home office, em casa, nós o funcionalismo, fazendo live, com distanciamento social necessário para não forçar o sistema hospitalar. Se nós estávamos numa situação dessa, não fazia o menor sentido (ter aumento de salário). Os professores em casa, fazendo aula a distância, os alunos também em distanciamento — afirmou Guedes.
O ministro também lembrou que foi concedido um reajuste parcelado em três anos durante o governo Michel Temer, cuja última parcela foi paga em 2019.
Para Guedes, a atual geração já pagou pela pandemia.
— Essa geração pagou pela guerra em um ano e meio. Se precisamos de recursos para a saúde, damos recursos para a saúde, mas não quer dizer que tenha que dar aumento de salário para todo mundo em meio a uma crise de saúde.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Paulo Guedes regula seu discurso conforme o público a quem se dirige. Puro discurso de ocasião. Para o mercado tenta transparecer que não há crise, que está tudo sob controle, que os respingos de crise são mundiais e que não existe problemas fiscais. Agora, na hora de acertar as contas com trabalhadores, sejam públicos ou privados, o xororó se estica o quanto pode. Salário mínimo, por exemplo, pelo segundo ano consecutivo tem sua correção abaixo do índice de inflação. Com tal manobra, só em 2022, ele poupa cerca de R$ 200 milhões. Há quantos anos os servidores públicos federais estão sem reajuste? Por outro lado, e isto o ministro faz cara de paisagem, a inflação vai corroendo o poder de compra das pessoas, e isto diante de um cenário de pandemia .
Então, por que os trabalhadores e servidores públicos querem reajuste, senhor Paulo Guedes? De um lado, para repor aquilo que a inflação (que o governo não consegue controlar), lhes tem tirado em poder aquisitivo. E, de outro, para compensar a brutal defasagem da tabela do imposto de renda que o governo não corrige e que, a cada ano, morde um pedaço maior dos ganhos salariais. Ou o ministro vai insistir nesta política de empobrecimento dos trabalhadores? Até quando, pilantra?