terça-feira, fevereiro 01, 2022

Vírus da covid vai permanecer entre nós, mas as pessoas irão retomando suas “vidas normais”

 Hélio Schwartsman, Folha de São Paulo

Tribuna da Internet


Charge do Laerte (Folha)

A epidemia é algo que existe em nossas mentes. Não, não aderi ao negacionismo bolsonarista nem ao idealismo radical de Berkeley. Sigo firme em minhas convicções materialistas. Mas, entre os muitos paradoxos relacionados à Covid-19, está uma assimetria entre começo e fim.

Como eu já destacara numa coluna de 2020, embora a epidemia tenha sido deflagrada por uma causa muito concreta, o Sars-CoV-2, seu término é um fenômeno psicológico: o vírus vai permanecer entre nós, mas as pessoas irão retomando suas vidas “normais” à medida que se sintam seguras para tanto.

RELAXAMENTO – Já está acontecendo. Nunca o ritmo de contágio foi tão elevado e, não obstante, vivemos um dos períodos de maior relaxamento desde que a epidemia teve início. As pessoas não ensandeceram.

Também esse paradoxo se dissolve quando consideramos que a maior parte da população já se imunizou e que as vacinas conferem níveis significativos, ainda que não absolutos, de proteção individual. O risco de morrer ou padecer de um quadro grave que o vacinado corre ao infectar-se é bem menor do que em outras fases da pandemia.

Receio, porém, que as pessoas estejam exagerando no relaxamento. A menor morbimortalidade do presente momento é mais do que compensada pela maior transmissibilidade da ômicron.

HOSPITAIS LOTADOS – O resultado é que os hospitais voltam a lotar, e as mortes, a subir. Hoje, nem o mais xiita dos epidemiologistas sugere que retornemos à fase dos lockdowns e do distanciamento social rigoroso. Mas acho que faz parte dos deveres da cidadania que cada um de nós contribua para reduzir o contágio.

A matemática aqui está a nosso favor. Um dos fatores que determinam a taxa de reprodução do vírus, o Rt, é o número de interações que cada um de nós mantém com terceiros. Se a média de pessoas com as quais travamos contato num dia normal é de 10 e baixarmos para 5, o que não parece exigir um esforço hercúleo, já reduzimos o contágio pela metade.