quinta-feira, fevereiro 24, 2022

Putin é outro líder covarde mundial

 ESPECIAL: CRISE RÚSSIA X UCRÂNIA


Guga Chacra
O Globo

Aleksey Nikolskyi/Kremlin via Reuters
Vladimir Putin: Os líderes mundiais de hoje são guerreiros de sofá 
que não se arriscam, mas suas decisões enviam milhares à morte 

Vladimir Putin, de sua bolha em Moscou, mobiliza dezenas de milhares de jovens russos para uma possível invasão à Ucrânia. Não será o líder russo que poderá morrer. Tampouco será o líder russo que fará disparos que resultarão na morte de crianças, mulheres e inocentes que nada têm a ver com as disputas geopolíticas de grandes potências. Mas o líder russo será o responsável por todas essas mortes. Esta guerra é dele.

Os líderes mundiais nos dias de hoje não são como Júlio César, como Alexandre, o Grande. Não vão a campos de batalha. São guerreiros de sofá que não se arriscam. Não morrerão na guerra. Estarão sempre seguros para dar ordens bem distantes do campo de batalha. Putin jantará tranquilamente em Moscou, onde também realizará reuniões em salões gigantescos de mármore como se fosse um czar. Tem milhares de ogivas nucleares em seu videogame. Enquanto isso, pessoas morrerão por sua decisão de tentar reescrever a História.

Putin não é o único covarde.

George W. Bush enviou dezenas de milhares de jovens americanos de lugares como Montana e Califórnia para o Iraque em uma guerra baseada em informações falsas de seu governo. Cerca de quatro mil desses jovens morreram e um número ainda maior se suicidou quando retornou aos EUA em decorrências dos traumas psicológicos. Nesse mesmo conflito, centenas de milhares de iraquianos morreram. Quantos ficaram órfãos? Quantos ficaram viúvos? Quantos enterraram seus filhos pela decisão de um homem que vive hoje tranquilamente como pintor de quadros em seu rancho no Texas?

Ucranianos e russos podem morrer nos próximos dias. Milhares deles. No resto do mundo, acompanharemos essa possível guerra. Diremos que em um bombardeio morreram 20 pessoas. Sem nome. Vai parecer normal. Afinal, moram na Ucrânia. Mas são pessoas como a gente, que têm uma filha de 5 anos como a minha. Em muitos casos, essa filha morrerá. Se a fotografarem, talvez impacte o mundo como o menino refugiado sírio em uma praia da Turquia. Mas muitas delas simplesmente desaparecerão da face da Terra sendo apenas uma memória triste para os parentes que sobreviverem.

Em agosto do ano passado, Joe Biden anunciou em tom solene que os EUA haviam eliminado uma célula do Estado Islâmico prestes a cometer um atentado terrorista em Cabul. Na verdade, depois descobriram que era uma família, incluindo sete crianças. O pai trabalhava em uma organização humanitária. O Pentágono admitiu o “erro”. O presidente dos EUA nunca pediu desculpas aos familiares das vítimas. Nada. Foi descansar em um sofá na Casa Branca.

Ainda dá tempo para tentar impedir que a Ucrânia se transforme em um Líbano dos anos 80, uma Bósnia dos 90, um Iraque dos 2000 e uma Síria da década passada. Mas não será simples. As sanções certamente afetarão a economia russa. Mas Putin seguirá com a sua vida de oligarca no Kremlin. Não corre o menor risco. Sua popularidade? Sanções nunca ameaçaram regimes. Vejam Cuba, Irã, Coreia do Norte e Síria.

Infelizmente, vivemos em um mundo de guerreiros de sofá, como Putin, como Bush, e como Tony Blair. O líder russo tem a sua dacha para relaxar, assim como o ex-presidente americano tem seu rancho.