domingo, abril 03, 2022

Grande surpresa militar: Putin atolou na Ucrânia

 José Casado 

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Um mês depois da invasão, russos aparentemente estão perdendo. Quanto mais durar a guerra, maiores as sequelas para países como o Brasil

 — Karen Bleier/AFP/AFP

David Petraeus, general dos EUA na reserva, especialista em invasão

 militar, com histórico no Iraque e Afeganistão, e ex-diretor da CIA 

São imprevisíveis a duração e o desfecho da guerra de Vladimir Putin na Ucrânia. A única certeza é a de que quanto mais tempo durar, maiores tendem a ser as sequelas para países em situação política instável e economia fragilizada, como o Brasil, que está em plena temporada eleitoral.

Um mês depois da invasão, porém, há uma grande supresa militar: Putin e seu projeto de resgate do império russo, pré-União Soviética, atolaram no campo de batalha  ucraniano. Politicamente, significa um fator de multiplicação de riscos.

Os russos estão contidos, aparentemente, perdendo. O inesperado, certamente, deriva de uma superestimativa ocidental sobre a capacidade das tropas invasoras.

Algumas das razões foram debulhadas por um especialista em invasão militar, David Petraeus. General do Exército dos EUA na reserva, ele comandou a 101ª Divisão Aerotransportada na invasão do Iraque em 2003 —  dez anos mais tarde,  Mona Mahmood, Maggie O’Kane, Chavala Madlena e Teresa Smith revelaram no The Guardian que Petraeus tinha ligações com a rede de centros de tortura iraquianos. Na sequência, liderou o Comando Central americano, a “coalizão” no início da guerra no Afeganistão, ajudou a escrever um manual de contrainsurgência do Pentágono e dirigiu a CIA durante o governo Obama.

Petraeus deu uma longa entrevista a Jonathan Tepperman, do The Octavian Report, nesta semana. Num trecho, resumiu motivos do atoleiro de Putin no campo de batalha:

* “Primeiro, a Rússia está enfrentando forças ucranianas altamente capazes e uma cidadania que está lutando por sua sobrevivência, tem vantagem em casa e está ferozmente determinada a defender seu país.”

* “Em segundo lugar, os russos têm sido surpreendentemente pouco profissionais em tudo, desde tarefas táticas até conceitos operacionais gerais.”

* “Terceiro, a grande maioria da população ucraniana odeia os russos, e esse ódio cresce cada vez que um prédio civil é atacado e civis são mortos.”

* “Os russos não só não estão conquistando corações e mentes, como estão alienando corações e mentes, e isso está ajudando a galvanizar toda a nação ucraniana.”

* “As forças armadas russas também carecem de um dos principais pontos fortes das forças armadas americanas e ocidentais, que é um corpo NCO forte e profissional. Para piorar a situação, os militares russos usam uma porcentagem bastante grande de recrutas. É muito difícil determinar quantos deles estão na Ucrânia, mas no exército russo em geral, cerca de 20 a 25 por cento de todas as tropas são recrutas. E há um número particularmente grande de recrutas que realizam tarefas de logística, incluindo dirigir caminhões e caminhões-tanque e manter veículos. Isso poderia explicar alguns dos problemas da Rússia nessas áreas.”

* “Os russos parecem estar lutando para repor suas baixas e perdas de equipamentos, que parecem ter sido muito maiores do que esperavam: seu número de mortos em combate já é quase o dobro de nossas perdas de 20 anos no Iraque.”

* “Não consigo imaginar os desafios extraordinários que os russos enfrentam na Ucrânia: invadir um país onde praticamente todo mundo odeia você e muitos adultos estão tentando matá-lo. Com cada vida civil adicional perdida, os russos apenas tornam sua tarefa mais difícil.”