sábado, outubro 21, 2006

Classe média paga a conta.

Por Pedro do Coutto
Publicado na Tribuna da Imprensa

O fato de o governo pagar aos bancos juros de 14 por cento ao ano para rolar - apenas rolar - a dívida interna mobiliária de 1 trilhão e 39 bilhões de reais, enquanto a taxa inflacionária do IBGE foi de 5 por cento em 2005, representa nítida concentração de renda. E que desaba em cima da classe média, já que o reajuste de seus salários não ultrapassa a inflação. Enquanto isso, na outra margem, o salário mínimo, em maio, foi corrigido em 16,1 por cento.

O que significa isso? Representa que, no campo social, estão ocorrendo dois movimentos: 1) transferência de renda do trabalho para o trabalho; 2) concentração de renda, cada vez maior, do trabalho para o capital. A classe média paga as duas contas.

O dilema entre capital e trabalho, colocação eterna de Karl Marx, elevado ao paroxismo pela administração FHC, continua no período Luís Inácio da Silva. Não houve ruptura alguma com a tese conservadora, que se baseia em tudo para o capital, muito pouco para o trabalho humano. Falei em Marx, cuja obra maior, "O capital", segundo livro mais vendido do mundo, tem cerca de 150 anos. E se falei em Marx, sinto-me à vontade para reproduzir o que Sartre disse do pensador, há uns 40 anos. O marxismo - afirmou o filósofo e ativista - é inultrapassável. Jean Paul Sartre referia-se ao marxismo como instrumento de análise política e social.

A idéia de reforma - não revolução - que inspirou e impulsionou a candidatura Lula em 2002 evaporou-se com sua vitória nas urnas, separando o presidente do candidato. Um está em oposição ao outro.

Ruim isso, sobretudo no momento em que Lula bate o recorde mundial candidatando-se pela quinta vez à presidência da República e se encontra na véspera da reeleição.

Dificilmente retomará o tema da reforma que, como a obra de arte, implicará sempre numa ruptura. No caso da política, uma ruptura com o sistema vigente, anticristão e portanto injusto, de distribuição de renda. Enquanto a renda nacional não for redistribuída de forma a equilibrar capital e trabalho, como é nos Estados Unidos, problema algum poderá ser resolvido. Tudo passa pelo salário e pelo emprego.

O programa Bolsa Família é importante para livrar milhões de pessoas da fome. Mas por si só não pode resolver a questão social de maneira efetiva e permanente. O Bolsa Família permite que pessoas possam ir dormir sem fome. Mas não enfrenta o desafio essencial. Com desemprego alto e salário baixo, como está hoje, não há solução, sequer perspectiva. E os seres humanos necessitam de perspectiva.

Apesar desta constatação, e do conservadorismo que marca a atuação do governo, salvo milagre semelhante ao de Paulo na estrada de Damasco, quando se transformou de perseguidor em cristão, Luís Inácio da Silva vai ser reeleito. Por uma margem de votos bastante próxima àquela que alcançou há quatro anos. Em 2002, no segundo turno, obteve 62 por cento dos votos contra 38 de Serra. Agora está bem perto deste limite. Talvez até o ultrapasse. Não somente em função, vale acentuar, do Bolsa Família e do salário mínimo, mas também pelo fato de a idéia da reforma, que implica numa libertação, ser maior do que as pessoas. Estas vêm e vão. A esperança da reforma fica.

O eleitorado, a meu ver, identificou a presença da ética na campanha de Alckmin, mas não uma vontade de mudança, um impulso para a reforma. É possível que Lula, no fundo, seja mais conservador do que Geraldo Alckmin. Mas o povo não o vê assim, especialmente em face da linguagem que usa e de sua inegável simpatia pessoal. Principalmente os pobres, maioria dos que votam, cujo pensamento acentua a inevitável divisão de classes. Não só no Brasil. Mas no mundo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, se a presidência da República dependesse das classes médias e ricas, Franklin Roosevelt não teria sido eleito quatro vezes. Vargas não teria sido eleito em 1950, no Brasil. Juan Perón não teria vencido na Argentina. Todos estes possuíam força irresistível nas camadas de menor renda. Em nosso País, agora, o mesmo fenômeno se verifica com Luís Inácio da Silva.

As classes pobres só têm motivos para votar em Lula. O funcionalismo público, claro que não. Este ano, foi reajustado em 0,1 por cento para uma inflação de 5 por cento verificada no exercício passado. Mas quantos são os funcionários públicos civis e militares? Não chegam a dois milhões de pessoas. O Brasil tem exatamente 125,9 milhões de eleitores, dois terços da população, provavelmente o maior índice proporcional do mundo entre total de habitantes e eleitorado. A carga tributária subiu, está altíssima, em torno de 37 por cento.
Significa que, todos nós, trabalhamos praticamente três meses de graça por ano, sem contrapartida justa e eficaz. Mas os que ganham até mil reais por mês, 60 por cento da mão-de-obra ativa, não pagam Imposto de Renda. E nem sabem que pagam impostos indiretos, como o ICMS e o IPI. Tampouco poderiam saber. Esta é a realidade nacional.