domingo, outubro 15, 2006

Problemas fiscais da irresponsabilidade.

Inchaço do governo federal anula a redução
de gastos das estatais .


Entre 1980 e 2005, o custeio da administração central, somado à despesa das estatais,
ficou em 20% do PIB .

Por Renée Pereira
Publicado no Estadão .

O tamanho do governo praticamente não se alterou entre 1980 e 2005. Apesar do processo de privatização das estatais federais, o custeio do Estado - que inclui despesas com mão-de-obra, materiais, previdência, educação, saúde, bolsa-família e segurança nacional - se manteve em torno de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estudo elaborado pela Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, obtido com exclusividade pelo Estado.
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O número reforça a necessidade de mudanças radicais na próxima administração para conter o ritmo crescente dos gastos públicos - um problema que tem se arrastado sem solução nos últimos anos. Os candidatos à Presidência da República, no entanto, têm evitado falar muito do assunto, que exigirá medidas bastante impopulares para surtir algum efeito.
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O trabalho, elaborado pelos professores Paulo Roberto Arvate (FGV) e Vladimir Fernandes Maciel (Mackenzie), considera no cálculo do tamanho do Estado, além do custeio do governo central, as despesas das estatais, com dados do Tesouro Nacional e do Departamento de Coordenação e Controle das Empresas Estatais (Dest), entre outros documentos. O cálculo não inclui gastos com juros e investimentos.
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A conclusão do estudo é que o espaço reduzido com as privatizações foi, aos poucos, incorporado pelo governo central. Assim, a curva de custeio do governo central aumentou e a das estatais caiu. 'Tudo que estava acomodado nas estatais passou a ser acomodado nos ministérios', destaca Arvate. Exemplo disso é o aumento do número de pastas na atual administração, que subiu de 20 para 25 ministérios gastadores, sem Fazenda e Planejamento. Trata-se do maior número desde 1985.
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Uma explicação para o aumento, diz Arvate, é que as estatais representavam um poderoso espaço político, tão disputado quanto os ministérios por causa do volume de recursos que elas movimentavam. Com a privatização, foi preciso encontrar outro espaço para acomodar os aliados. 'É um jogo de barganha. Você oferece um cargo para conseguir a maioria no Congresso e governar o País', observa o professor da FGV, explicando o fato de o tamanho do governo continuar o mesmo.
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Maciel, outro pesquisador do trabalho, destaca ainda que grande parte do crescimento das despesas correntes entre o fim do governo Sarney e o início do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso pode ser explicado pela Constituição de 1988. 'Isso ocorreu pelo avanço das despesas com Previdência (número e valor dos benefícios) e pelo aumento do número de gastos assistenciais e com pessoal.'
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Surgiu então a necessidade de estabilizar a economia desenhando um conjunto de reformas em direção à abertura econômica e à redução da participação estatal. As medidas dariam dinamismo e competição à economia e reduziriam a intervenção do Estado e seu tamanho. A idéia era dar prioridade às políticas públicas e transferir para a iniciativa privada segmentos que não fossem estratégicos.
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De 1988 até 1998, o número de estatais federais caiu de 258 para 92, segundo o estudo. A partir do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva não houve nenhuma outra privatização e o número de estatais voltou a subir.
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No início, o aumento deveu-se à transferência de empresas estatais dos governos estaduais e municipais para o governo federal, como parte do processo de renegociação das dívidas de Estados e Municípios. Segundo os professores, um exemplo de companhia estadual que passou para o controle federal foi a Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (Ceagesp).
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REESTATIZAÇÃO
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No governo Lula, houve um movimento de reestatização, com estatais comprando empresas que estavam com a iniciativa privada. No setor de energia elétrica, por exemplo, a estatal Eletrobrás, que controla Furnas, Eletronorte e Chesf, iniciou um movimento de compra de participação em hidrelétricas de grande porte, como Peixe Angical, Foz do Chapecó e Lajeado, entre outras. Além disso, arrematou várias usinas nos leilões de energia nova promovido pelo governo.
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Esse movimento contribuiu para elevar o número de estatais no governo Lula de 106, em 2002, para 135 empresas, no ano passado. Juntam-se a isso as aquisições feitas pela Petrobrás, como a Agip-Liquigás. 'Hoje quem faz os investimentos não é o governo, mas sim as estatais', diz Arvate.
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Um Estado maior significa ter receitas suficientes para cumprir os compromissos e cobrir os gastos do governo. Fator que justifica os consecutivos aumentos na carga tributária brasileira, em 38,9% do PIB. 'É como uma taxa de condomínio. Você paga o quanto o condomínio gasta. Se gasta mais, tem chamada extra. É o que está ocorrendo com o Brasil', exemplifica o tributarista Clóvis Panzarini, em recente entrevista ao Estado.
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O especialista em contas públicas, Raul Velloso, completa ainda que há no Brasil um modelo de crescimento do governo que impede o avanço da economia. 'Esse modelo de crescimento está chegando ao fim, pois não dá para criar mais impostos no País.'
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Para os professores da FGV e Mackenzie, a solução para o problema está em fazer, além de uma reforma fiscal, uma reforma política para reduzir o espaço político. 'É preciso ter menos jogadores', diz Arvate, concluindo que a tese de que a privatização diminuiria o tamanho do governo não funcionou no Brasil, ao contrário do que ocorreu na Inglaterra.