terça-feira, outubro 10, 2006

Questões energéticas

COMENTANDO A NOTICIA: Já há alguns meses especialistas do ramo vêm avisando e alertando as autoridades sobre as possibilidades do Brasil de vivermos a médio prazo um novo apagão. O que se ouve em Brasília é que o governo está investindo na geração para tal não ocorra. Porém, a verdade é que o governo Lula abandonou o programa deixado pelo FHC, e em 46 meses não iniciou a construção de nenhuma nova unidade geradora. Além disto, esvaziou a autoridade que a agência reguladora, a ANEEL, tinha para atrair o investimento privado. A continuar no ritmo atual, e conforme veremos numa série de notas de Adriano Pires, especialista em infra-estrutura, a possibilidade de um novo apagão já é atualmente uma possiblidade concreta.
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Indisponibilidade das Térmicas a Gás Natural
Aumenta o Risco de Apagão
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Adriano Pires
Especialista em infra-estrutura
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A indisponibilidade das térmicas a gás natural por falta do insumo é mais um componente para a avaliação do risco de faltar energia nos próximos anos. A questão será mais crítica entre 2008 e 2009, o que faz com que o setor dependa de soluções como a conversão de usinas para óleo diesel e o uso do gás natural liquefeito(GNL). Ambas soluções que irão encarecer bastante o preço da energia elétrica.
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A transferência de energia para a Região Sul durante o período de estiagem implicou em redução dos volumes dos reservatórios do Sudeste. Com isso, o despacho através das térmicas passou a ser interessante dado que seu custo marginal passou a ser igual ou menor do que o das hidrelétricas. Várias térmicas receberam determinação do ONS para despachar energia por ordem de mérito nos meses de agosto e setembro. As usinas, porém , alegaram falta de gás. Segundo a Aneel, nas duas primeiras semanas de setembro, o ONS ordenou o despacho de 5333 MW, mais foram gerados apenas 1065 MW médios, na primeira semana, e 1042 MW médios na segunda semana. O abastecimento de energia elétrica pode ficar comprometido em situações extremas, caso não se possa contar com uma oferta segura de gás natural.Além disso, o país tem o risco de explosão tarifária. Enquanto, o preço médio praticado nos leilões de energia velha era de R$60 por MWh, o valor inicial fixado para o leilão A-5 é de R$125 por MWh. Em paralelo, à evolução dos preços, há o risco do Preço de Liquidação de Diferenças(PLD) atingir patamares de R$350 por MWh no curto prazo devido a questão de indisponibilidade de gás natural.
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A Aneel estima que cerca de 4000 MW são oriundos de 11 usinas consideradas indisponíveis por falta de gás, Cuiabá, Norte Fluminense, AES Uruguaiana e Termopernambuco. Além de sete usinas da Petrobras, Ibirité, Termomacaé, Eletrobolt, Termorio, Três Lagoas, Canoas e Fafen.
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A Bolívia e o Segundo Turno
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Começaram as especulações sobre a possibilidade de adiamento das negociações com a Bolívia em função do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. Caso isso ocorra, e é o mais provável, estará consagrada a tese de que a condução da questão boliviana é estritamente política. Ou seja, o governo boliviano estaria disposto a ajudar na re-eleição do presidente Lula. Se isso é verdadeiro, qual seria a compensação que o Brasil estaria disposto a dar a Bolívia depois das eleições, no caso da vitória do presidente Lula no segundo turno? E se o Alckmin ganhar como ficam as negociações? No caso da re-eleição de Lula a compensação deverá ser a aceitação de um preço mais elevado para o gás natural e mesmo uma maior ajuda, por exemplo, através do BNDES para tentar reforçar a liderança política do presidente Lula na América Latina. Ou seja, com Lula a negociação política e partidária continuará a predominar na questão boliviana. Aliás, foi uma característica do governo Lula procurar soluções baseadas na ideologia e no partidarismo para os problemas do setor de energia.
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No caso de vitória de Alckmin o que se imagina é uma visão de mercado sobre o problema e o abandono das soluções ideológicas e partidárias. E o que significa uma visão de mercado? Significa, que as negociações serão conduzidas tendo como foco a defesa do interesse da Petrobras e dos seus acionistas e não um projeto político pessoal de liderança na América Latina.
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PREOCUPA A SITUAÇÃO DA ENERGIA ELÉTRICA
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A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) divulgou em setembro na mídia um conjunto de cenários para o balanço entre a oferta e demanda e energia elétrica no Brasil em 2010. Foram concebidos quatro cenários que se diferenciam pela inclusão ou não das importações de energia da Argentina e retorno do lastro de gás natural da usina térmica de Uruguaiana que depende de importações de gás da Argentina. Os cenários 1 e 2 incluem importações de energia da Argentina enquanto essas não foram consideradas nos cenários 3 e 4. No cenário 1, há um lastro de 1.600 MW médios para as importações argentinas e o retorno do lastro da UTE Uruguaiana para 565 MW médios. No cenário 2, considera-se a importação da Argentina com um lastro menor de 400 MW médios e o retorno do lastro da UTE Uruguaiana para 565 MW médios. Por sua vez, o cenário 3 somente incorpora-se o lastro da UTE Uruguaiana para 565 MW médios. Por fim, no cenário 4, não são incluídas as importações de energia da Argentina, tampouco o retorno do lastro da UTE Uruguaiana para 565 MW médios. De acordo com a EPE a oferta de energia em 2010 oscilará entre 60,3 mil MW médios no cenário 1 a até 58,4 mil MW médios no Cenário 4. Com uma demanda estimada para 2010 de 58,3 mil MW médios, o balanço entre oferta e demanda seria superavitário em todos os cenários com a sobre-oferta variando entre 2 mil MW médios no cenário 1 à apenas 69 MW médios no Cenário 4.
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Os cenários da EPE levam em conta a finalização e operação de uma série de usinas hidráulicas e térmicas em construção que estão enquadradas nos relatórios de acompanhamento de setembro dos empreendimentos em geração da ANEEL como enfrentando restrições para entrada em operação até 2010. Esse é caso das usinas hidráulicas de Olho d'Água (33 MW), Barra do Braúna (39 MW), Baú I (110 MW), Barra dos Coqueiros (90 MW), Caçu (65 MW), Estreito (1087 MW), Monjolinho (67 MW) e Serra do Facão (213 MW) que enfrentam graves restrições para entrada em operação. Juntas estas usinas representam 1704 MW de capacidade instalada e aproximadamente 937 MW médios. Caso as restrições impeçam a entrada em operação destas capacidades, a sobre-oferta existente nos cenários 2,3 e 4 seria não só eliminada como também apareceria um déficit. Somente no cenário 1 haveria sobre-oferta que neste caso seria dependente das condições do mercado de energia e de gás natural na Argentina em 2010. Em suma, os cenários apresentados pela EPE sinalizam para um equilíbrio precário entre oferta e demanda de energia em 2010. É urgente a resolução das restrições que impedem a consecução de importantes projetos hídricos no Brasil. Desde 1996 foram licitados 12889,8 MW, desse total 4374,0 MW estão em operação, 2012,0 encontram-se em construção e 6503,8 MW são de obras não iniciadas. O curioso e que chama bastante atenção é que no segundo governo FHC foram licitados 8485 MW, enquanto no governo Lula apenas de 793,2 MW. É preciso que o novo governo implemente uma agenda que corrija os pontos do atual modelo que vem impedindo uma maior presença de investimentos privados em geração de energia e resolva os problemas para que se dê inicio as obras dos 6503,8 MW.
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A palavra crise não é nada agradável
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A palavra crise não é nada agradável. Sempre procuramos evitá-la na nossa vida pessoal, na atividade profissional e nunca desejamos que ocorra no país em que vivemos. O provérbio chinês que a crise significa saída é muito bonito filosoficamente, mais do ponto de vista prático nenhum de nós deseja estar diante desta situação. Portanto, quando chamamos à atenção para a possibilidade cada vez maior de ocorrerem crises de abastecimento de energia elétrica e de gás natural no Brasil, não o fazemos com alegria e muito menos com prazer como pensam muitos dos atuais membros do governo brasileiro. Ao contrário, é com pesar que verificamos que um país com o potencial energético do nosso fica desperdiçando tempo e não tomando as providências necessárias para que de uma vez por todas superemos essa triste discussão sobre quando será o próximo apagão de energia no Brasil.
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Não temos dúvidas que a atual situação é preocupante. A maior demonstração que o cenário de escassez de energia já chegou é o comportamento dos preços da energia elétrica e do gás natural. Nos primeiros leilões de energia elétrica o preço foi de R$60 Mwh para as hidrelétricas, no último leilão de junho alcançou R$125 Mwh e no próximo de outubro o governo pretende manter esse preço máximo, de forma totalmente artificial, contrariando os sinais do mercado. No setor de gás natural, entre setembro de 2005 e julho de 2006 o preço do gás boliviano apresentou um aumento acumulado de 60%. Em outubro o gás boliviano será reajustado em mais 5% e o governo já anunciou a intenção de igualar o preço do gás nacional ao boliviano no city gate das distribuidoras. Atualmente, o preço do gás nacional é cerca de 20% inferior ao boliviano. Enfim, preços de energia altos terão como principal conseqüência à perda de competitividade da indústria brasileira. Em todo caso, é melhor conviver com preços altos do que com falta física de energia. O absurdo é a política energética ter nos levado a esses dois cenários: racionamento com explosão tarifária ou explosão tarifária.
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Quem deveria dar Exemplo de Bom Pagador
é o Campeão do Calote
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A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) divulgou que as distribuidoras deixam de arrecadar R$6 bilhões anualmente por conta da inadimplência. O que chama à atenção é que o setor público apresenta um índice de inadimplência o triplo dos setores residencial, industrial e rural. Justamente, o setor que deveria dar exemplo de bom pagador é o campeão do calote. O que explica esse comportamento? A meu ver é a idéia, muito presente no atual governo, de que os chamados serviços públicos são um dever do Estado e, portanto, não seria por parte do setor público uma prioridade pagar por esses serviços. Na realidade, hospitais, universidades, empresas de saneamento, prefeituras, órgãos de governamentais das três instancias federativas, entre outros, julgam-se imunes à suspensão do fornecimento por falta de pagamento e colocam a população contra as concessionárias de energia elétrica. Essa é talvez uma herança de quando as empresas do setor elétrico eram em sua maioria estatais federais e estaduais e ninguém pagava ninguém. Para quem não se lembra, isso levou a falência do setor e a conta foi paga pela sociedade.