quarta-feira, dezembro 13, 2006

A educação está morrendo

por Timothy Halem Nery, economista, no Blog Diego Casagrande
.

Como pode grande parte das escolas públicas de ensino fundamental e médio terem alcançado o péssimo nível de qualidade retratado atualmente? Essa é uma pergunta que me faço desde março de 2005, quando tive minha primeira experiência em sala de aula, como orientador de projetos sobre empreendedorismo. .É importante esclarecer que o péssimo nível de qualidade se refere ao grau de conhecimento, a disposição e o respeito dos alunos. Sem contar a falta de cuidado com o patrimônio público. Obviamente existem exceções. Na realidade que vivenciei, aproximadamente 25% dos estudantes estavam realmente interessados em estudar. O quadro é assustador! Sem exageros.
.
A primeira resposta para a pergunta inicial está baseada no total desconhecimento por parte das autoridades e da sociedade sobre o que ocorre dentro das escolas, no dia-a-dia. Aliás, desconhecimento que está presente em todos os grandes problemas do Brasil. Inércia! Até parece que está tudo bem.
.
Apenas para exemplificar: nas 7ª e 8ª séries os alunos engatinham na Matemática, em História sabem apenas quem descobriu o Brasil, e assassinam a Língua Portuguesa sem piedade. “Enchergar”, “nogenta”, “encomodar”, entre outras, fazem parte do vocabulário. E a sociedade pagando.
.
Além disso, muitos se julgam no direito de destruir as instalações das escolas. Banheiros depredados, portas arrombadas, ventiladores de teto jogados no chão, classes e cadeiras quebradas e paredes pichadas fazem parte do cenário de horror. E a sociedade pagando.
.
Também existe o problema da falta de respeito com colegas, funcionários, professores e direção da escola. Os alunos respondem, enfrentam e desafiam. Não estudam e querem (e conseguem) passar de ano. Os pais acreditam que os filhos são “anjos”, e desconfiam das capacidades dos profissionais. Muitos desses profissionais já “jogaram a toalha”. E a sociedade pagando.
.
No entanto, o que mais assusta não é esse quadro apavorante. A meu ver, o pior de todos os prejuízos é o fato de que muitos jovens, empenhados em aprender e conquistar algo através dos estudos, estão sendo condenados à mediocridade pelos maus colegas, pelo modelo que joga todos na “vala comum” e pela própria sociedade, pois essa fecha os olhos para tal problema.
.
Enquanto não houver um sistema que proporcione reais oportunidades para aqueles que acreditam na escola e que se esforçam para vencer suas dificuldades pessoais, a tal “inclusão” continuará sendo na prática “exclusão”. .Semana passada peguei duas folhas de ofício e escrevi a seguinte pergunta: “O que é possível fazer para melhorar o desempenho dos alunos na escola?”. Estavam na sala-de-aula 25 estudantes, entre 14 e 16 anos de idade.
.
Automaticamente as folhas seguiram caminhos distintos, uma entre os mais e a outra entre os menos interessados. As respostas foram esclarecedoras. Sete delas citavam a necessidade de mais disciplina, respeito e punição aos bagunceiros. As restantes sugeriam mais açúcar na merenda, menor número de aulas, professores “mais legais”, música no intervalo, entre outras “prioridades”..Só não enxerga quem não quer. A vida é feita de escolhas. E cada um deve ser responsável pelas conseqüências das suas escolhas. No momento em que um grupo de alunos escolhe não estudar, e assim prejudica os demais, alguém deve intervir para solucionar o problema. Sim, isso é um problema.
.
O Estado, assim como os profissionais da área, têm obrigação de entender que na sala-de-aula não existem apenas “anjinhos”. Também devem perceber que existe uma distância significativa entre as teorias difundidas no meio acadêmico e a realidade das escolas. Os reflexos negativos das políticas adotadas nessa área já podem ser vistos nitidamente. O mercado de trabalho emite sinais constantes de escassez de mão-de-obra qualificada; os vestibulares e concursos públicos expõem o despreparo dos candidatos; até mesmo os resultados eleitorais podem estar relacionados aos níveis de educação da população. E a sociedade pagando.