quarta-feira, dezembro 13, 2006

O pacote "Conceição"

Por Carlos Chagas, publicado nna Tribuna da Imprensa
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BRASÍLIA - E o pacote destinado a proporcionar o crescimento econômico de pelo menos 5%, ano que vem? Por enquanto é o "pacote Conceição", aquele que, se subiu, ninguém sabe, ninguém viu. O prazo ainda corre, o presidente Lula prometeu as mudanças econômicas para o final do ano. Como faltam duas semanas e dois dias, não há que descrer de mais essa promessa, apesar dos precedentes.
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Do que se duvida é se o governo anunciará mesmo iniciativas de vulto ou se atenderá apenas às anacrônicas sugestões de parte das elites, como a reforma trabalhista destinada a suprimir os direitos sociais que sobraram e se penalizará ainda mais os trabalhadores e os aposentados com a "reforma" da Previdência Social. O presidente Lula jura que não, mas a pressão é grande.
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Taxar os lucros da especulação financeira ninguém pensa, na equipe econômica. Muito menos restringir o envio de recursos para o exterior. Sequer diminuir as alíquotas do superávit primário. Obrigar os investidores estrangeiros a deixar seus investimentos no Brasil por um prazo mínimo, acabando com o capital-motel? Limitar a farra dos juros cobrados pelos bancos aos correntistas? Negativo, também.
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Em suma, e salvo prova em contrário, a reforma econômica não tocará nem de leve nos privilégios, mas ainda sobraria uma saída: diminuir impostos. Alguém se anima a esperar quais, sejam federais, estaduais e municipais?
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O novo ministro
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Espera-se para hoje, em despacho de Márcio Thomaz Bastos com o presidente Lula, o anúncio de quem será o novo ministro da Justiça. Sepúlveda Pertence e Tarso Genro são hipóteses concretas, mas há quem, no Palácio do Planalto, aposte numa surpresa. Antônio Carlos Biscaia e Sigmaringa Seixas estariam no perfil, até porque são do PT, mas contra eles levanta-se o fantasma da derrota eleitoral em outubro passado. Denise Frossard seria sonho de noite de verão, mesmo pertencendo ao PSB, partido aliado do governo. Assim como Nelson Jobim, do PMDB.
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Uma coisa é certa: apesar de filiações partidárias, o Ministério da Justiça faz parte da quota pessoal do presidente da República. Perto dele, a coalizão não chegará.
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Há quem suponha, também, para janeiro, a criação do Ministério da Segurança Pública, que centralizaria a Polícia Federal e outros órgãos mais diretamente ligados ao setor. Ficaria o Ministério da Justiça com a tarefa maior da coordenação política. Como tudo são especulações, melhor aguardar.
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Pagou vexame
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O mundo inteiro escreve e fala sobre a morte do general Augusto Pinochet. Tudo o que era para ser dito já foi, nos últimos dias, contra e a favor.
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Do fundo da memória, porém, emerge um detalhe desconhecido. Em março de 1974 tomava posse o quarto general-presidente brasileiro, Ernesto Geisel. Convidado, antes de deixar Santiago o ditador chileno declarou que vinha ao Brasil para assistir "à mudança de guarda" no país irmão. Pegou mal, mas ficou pior quando chegou a Brasília. Um dos grandes hotéis da época, o Eron, foi colocado à disposição dele. O elevador externo, todo envidraçado, propicia aos hóspedes singular visão da capital federal, mas foi estranhamente envolto por pesadas cortinas. O argumento era de que um hipotético atirador poderia atingi-lo, do outro lado da Esplanada dos Ministérios.
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A comitiva de montes de carros de segurança chegou ao hotel e Pinochet, em farda de gala, desce e, imediatamente, perfila-se e bate continência. Para quem? Para um cidadão que o aguardava, fardado de almirante-general-brigadeiro, cheio de alabartes, medalhas, túnica vermelha e quepe emplumado.
Era o porteiro...
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Renan na frente
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Assessores especiais de Renan Calheiros costumam, todas as noites, entrar no gabinete do presidente do Senado para o relatório das possibilidades da reeleição. Checam e rechecam o voto dos senadores presentes na casa, envolvem os indecisos e indicam a Renan quem ele deve convidar, no dia seguinte, para uma conversa descompromissada, uma visita pessoal e até um jantar. O mapa, repassado a cada 24 horas, indica sensível vantagem para Renan, até com algumas surpresas: tem tucanos voando para a sua candidatura, assim como o apoio dos três senadores do PDT vai sendo assegurado.
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No PT são poucas as resistências e o fogo, nos últimos dias, concentra-se sobre os chamados dissidentes do PMDB.
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Continuando as coisas como vão, o senador pelas Alagoas pode considerar-se vitorioso, inclusive com o voto do novo companheiro, o ex-presidente Fernando Collor.