sábado, março 10, 2007

A “Síndrome Da China”

por Augusto de Franco, Blog Diego Casagrande
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Escrevi outro dia que as elites brasileiras são as grandes responsáveis pelo retrocesso democrático que vivemos no Brasil. Duas semanas depois um jornalista da CBN me perguntou no ar: “Mas quem são essas elites?”. Respondi que são todas as elites: as econômicas, as políticas e as sociais. Examinemos o comportamento das primeiras.
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Quem são elas? Ora, são as mesmas que admiram a China pelo atual milagre do crescimento do PIB sem se preocuparem com o fato de que se trata de uma ditadura. São as mesmas que criticam o Brasil por não ter uma expansão econômica semelhante, mas não querem nem saber se o IDH chinês é duas vezes pior do que o brasileiro.
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São as mesmas que não estão nem aí para os métodos empregados pelos autocratas chineses, que escolheram a dedo a minoria que se beneficiaria do milagre (com salários de 30 dólares) e quem continuaria no século 17, excluído desse nascente capitalismo de Estado selvagem. E o problema não é que essa parcela majoritária da população chinesa (cerca de 80%) continue excluída em virtude do processo econômico e, sim, que ela foi condenada – por força de decisão política – a permanecer excluída.
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Será que nossas elites gostariam de aplicar o mesmo modelo no Brasil? Escolheríamos São Paulo como nossa Xangai e ao resto caberia financiar o crescimento recorde.
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Os jornais noticiam agora que a China vai destinar, somente neste ano, 45 bilhões de dólares para gastos militares. Diga-se o que se quiser dizer, na prática, isso significa retomar aquele tipo de corrida armamentista, do qual nos imaginávamos livres desde meados dos anos 1990. Ou seja, a despeito de terem os mesmos olhos puxados, o caminho da ditadura militar chinesa para o futuro não é exatamente igual ao japonês, baseado em economia e tecnologia.
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Na China não existe a noção de direito. Nem mesmo o direito mais básico de ir e vir é reconhecido pelo Estado partidário-militar. Se a polícia pegar um pobre camponês de Gangou olhando distraidamente as vitrines de uma rua em Beijing, Deus o livre! Mas o que importa isso diante de um crescimento de 10%, não é mesmo?
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Na China não existem políticas públicas, somente programas estatais. Mas é possível que nossas elites não vejam a diferença entre as duas coisas porquanto não percebem que o Estado chinês é – rigorosamente falando – uma instituição privada.
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Na China não existe sequer o conceito de meio ambiente. Continuam queimando toda matéria orgânica que vêem pela frente sem qualquer preocupação com coisas “ocidentais” como poluição. Assim como poluem a natureza, poluem também a política e a sociedade.
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E daí? Eles têm a sua própria cultura, proclama a velha antropologia de esquerda. E nossas elites econômicas, incapazes de pensar alguma coisa substantiva quando o assunto não é economia, devem assentir: é, isso explica tudo! Os motivos das nossas elites para aprovar a China de hoje são basicamente os mesmos que levaram as elites econômicas alemãs de outrora a se empolgarem com os planos de Hitler. Vislumbraram ganhos em escala. Alguns até financiaram muitas das barbaridades nazistas: Ig-Farben, Siemens, Krupp, Bayer e tantos outros devem ter avaliado que seria bom para os negócios.
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Hoje, no Brasil, o financismo também não se recusa a financiar – por enquanto indiretamente – o esquerdismo, desde que seja bom para os negócios. A “síndrome da China” explica porque as elites econômicas brasileiras resolveram fingir que não estão vendo a escalada do banditismo de Estado promovida pelo governo Lula e pelo PT. Se imaginam que podem ganhar mais com o PAC, todo apoio à Lula.
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A “síndrome da China” é um nome para a irresponsabilidade de um setor da sociedade perante o conjunto da sociedade. Depois de tanta conversa sobre responsabilidade social (vista ainda, em grande parte, como marketing), continua faltando, aos nossos empresários, responsabilidade política.
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Felizmente, estão ocorrendo mudanças promissoras no seio do empresariado. Mas os que vêem que tudo isso é insustentável ainda são minoria. Os que percebem que não haverá desenvolvimento sem ambiente político democrático favorável à expansão do empreendedorismo, da criatividade, da inovação e do protagonismo de localidades e setores, ainda são vistos como sonhadores, nefelibatas, gente que não entendeu que – na selva do mercado que a maioria das elites econômicas julga ser o mundo – o que conta realmente é crescer, crescer, crescer e se apropriar de fatias cada vez maiores da riqueza produzida.
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É essa “realpolitik econômica” irresponsável que explica, em parte, porque um irresponsável, apesar de ter feito tudo o que fez, ainda continue nos governando.
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O curioso é o fato da maioria de nossas elites econômicas se contentarem com tão pouco, considerando que no governo Lula, pelo segundo ano consecutivo, o Brasil só tenha crescido mais do que o Haiti em toda a América Latina. Por isso que – como frisei – a “síndrome da China” é uma explicação parcial. O comportamento das nossas elites econômicas, conquanto tenha muito peso, não é tão decisivo quanto a postura de nossas elites políticas e sociais, como veremos em próximos artigos.