Vitor Hugo Soares, Blog do Noblat
“Eu venho de longe”, costumava dizer Leonel Brizola, sempre que desconfiava do jogo político e relações de poder, ou de que alguém tentava enganá-lo. Ouvi dele pessoalmente a frase, pela primeira vez, em seu exílio do Uruguai e há semanas recordo freqüentemente de suas palavras. Não só pelos escândalos mais recentes ou em andamento, mas principalmente pelo barulho das primeiras máquinas que chegam ao sertão de Cabrobó, acompanhadas dos soldados e oficiais do Batalhão de Engenharia de Exército, que iniciaram esta semana, sem mais conversa, as obras de transposição das águas do São Francisco.
Venho de um lugar chamado Abaré, que fica na beirada baiana do rio. Os melhores anos da meninice, passei ali perto, na cidade de Glória, onde a correnteza fazia mais barulho, espremida pelos cânions lunares que estreitam as margens do Velho Chico antes da chegada na Cachoeira de Paulo Afonso. Isso, quando havia a cachoeira que deslumbrava o poeta Castro Alves, o sanfoneiro Luiz Lua Gonzaga e os presidentes Getúlio Vargas e Café Filho. Na outra margem, a menos de seis quilômetros de Abaré, fica Cabrobó, cidade pernambucana onde tropas fardadas agora trabalham para levar “água e abundância” a outras áreas do Nordeste.
A ação de sugar ainda mais o anêmico Velho Chico, portanto, veio antes da revitalização prometida pelo governo ao frei Luiz Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), para acabar a greve de fome do religioso contra a degradação do rio que corre inteiro dentro do Brasil, ícone insubstituível de unidade nacional, como me ensinava a professora Letícia Campos, na escola a poucos metros de distância do rio.
Os soldados e oficiais trabalham nas medições da área e na construção de acessos às máquinas portentosas de algumas das maiores empreiteiras e consórcios nacionais de construção. Concorrem aos nacos mais saborosos e desejados do filé de primeira, na licitação de mais de R$ 3 bilhões destinados a esta etapa do projeto digno de faraós. Ao Exército, coube um contrato de R$ 26 milhões.
Outros quase R$ 3 bilhões previstos no Orçamento da União vão aguardar no cofre pelas etapas seguintes do megaprojeto, a cargo do Ministério da Integração, apesar da previsão do bispo Cappio, feita no debate, em Salvador, semana passada, de que “a transposição não passará da primeira fase”. O ministro Geddel Vieira Lima faltou ao debate, mas, dois dias depois, deu coletiva em Brasília e avisou: a obra sai, “de qualquer jeito”. Segunda-feira, 11, ele inicia um périplo da nascente à foz do São Francisco, destinado ao convencimento dos que ainda resistem ao projeto. Boa parte do percurso, porém, será cumprida de avião.
Confesso: tenho andado distante do rio e da região de onde venho. Mas ultimamente vivo de olhos e coração colados no Velho Chico. Sei que a gente de suas barrancas não vive há tempos uma fase de tanta apreensão e dúvidas. O período mais parecido foi nos estertores do regime militar, no governo do general João Baptista Figueiredo, quando eu trabalhava no Jornal do Brasil e andei por lá. Naqueles dias, as águas do São Francisco serviam de cemitério para o improvisado projeto “Plante que o João garante”, uma das megalomanias da época. Concebido pelo milagreiro Antônio Delfim Neto, então ministro do Planejamento, o projeto prometia o céu ao povo da beira do rio.
João mandou todo mundo plantar com a promessa da compra de toda a safra. No Vale do São Francisco, se plantou principalmente cebola, daquelas brancas e graúdas de dar inveja e muitas lágrimas... Safras monumentais brotaram, mas o governo do João não garantiu sua promessa aos beradeiros da Bahia e Pernambuco. O preço da cebola desabou a ponto de o prejuízo ser menor com a destruição da safra do que com a sua venda a preço vil.
Endividados nos bancos, milhares de pequenos e médios agricultores quebraram. Em desespero, alguns decidiram tocar fogo na lavoura, descarregar caminhões de cebola dentro do rio e mudar de cultura. E foi aí que nasceu o próspero cultivo irrigado da cannabis sativa na região nacionalmente conhecida como Polígono da Maconha, que hoje abastece o crime organizado e virou uma das áreas mais violentas do País.
Não sei como o gaúcho Leonel Brizola reagiria diante dessas coisas. Mas, quem vem de longe, das barrancas do Velho Chico, ou vive por lá, tem motivos de sobras para desconfiar. Ou não?
“Eu venho de longe”, costumava dizer Leonel Brizola, sempre que desconfiava do jogo político e relações de poder, ou de que alguém tentava enganá-lo. Ouvi dele pessoalmente a frase, pela primeira vez, em seu exílio do Uruguai e há semanas recordo freqüentemente de suas palavras. Não só pelos escândalos mais recentes ou em andamento, mas principalmente pelo barulho das primeiras máquinas que chegam ao sertão de Cabrobó, acompanhadas dos soldados e oficiais do Batalhão de Engenharia de Exército, que iniciaram esta semana, sem mais conversa, as obras de transposição das águas do São Francisco.
Venho de um lugar chamado Abaré, que fica na beirada baiana do rio. Os melhores anos da meninice, passei ali perto, na cidade de Glória, onde a correnteza fazia mais barulho, espremida pelos cânions lunares que estreitam as margens do Velho Chico antes da chegada na Cachoeira de Paulo Afonso. Isso, quando havia a cachoeira que deslumbrava o poeta Castro Alves, o sanfoneiro Luiz Lua Gonzaga e os presidentes Getúlio Vargas e Café Filho. Na outra margem, a menos de seis quilômetros de Abaré, fica Cabrobó, cidade pernambucana onde tropas fardadas agora trabalham para levar “água e abundância” a outras áreas do Nordeste.
A ação de sugar ainda mais o anêmico Velho Chico, portanto, veio antes da revitalização prometida pelo governo ao frei Luiz Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), para acabar a greve de fome do religioso contra a degradação do rio que corre inteiro dentro do Brasil, ícone insubstituível de unidade nacional, como me ensinava a professora Letícia Campos, na escola a poucos metros de distância do rio.
Os soldados e oficiais trabalham nas medições da área e na construção de acessos às máquinas portentosas de algumas das maiores empreiteiras e consórcios nacionais de construção. Concorrem aos nacos mais saborosos e desejados do filé de primeira, na licitação de mais de R$ 3 bilhões destinados a esta etapa do projeto digno de faraós. Ao Exército, coube um contrato de R$ 26 milhões.
Outros quase R$ 3 bilhões previstos no Orçamento da União vão aguardar no cofre pelas etapas seguintes do megaprojeto, a cargo do Ministério da Integração, apesar da previsão do bispo Cappio, feita no debate, em Salvador, semana passada, de que “a transposição não passará da primeira fase”. O ministro Geddel Vieira Lima faltou ao debate, mas, dois dias depois, deu coletiva em Brasília e avisou: a obra sai, “de qualquer jeito”. Segunda-feira, 11, ele inicia um périplo da nascente à foz do São Francisco, destinado ao convencimento dos que ainda resistem ao projeto. Boa parte do percurso, porém, será cumprida de avião.
Confesso: tenho andado distante do rio e da região de onde venho. Mas ultimamente vivo de olhos e coração colados no Velho Chico. Sei que a gente de suas barrancas não vive há tempos uma fase de tanta apreensão e dúvidas. O período mais parecido foi nos estertores do regime militar, no governo do general João Baptista Figueiredo, quando eu trabalhava no Jornal do Brasil e andei por lá. Naqueles dias, as águas do São Francisco serviam de cemitério para o improvisado projeto “Plante que o João garante”, uma das megalomanias da época. Concebido pelo milagreiro Antônio Delfim Neto, então ministro do Planejamento, o projeto prometia o céu ao povo da beira do rio.
João mandou todo mundo plantar com a promessa da compra de toda a safra. No Vale do São Francisco, se plantou principalmente cebola, daquelas brancas e graúdas de dar inveja e muitas lágrimas... Safras monumentais brotaram, mas o governo do João não garantiu sua promessa aos beradeiros da Bahia e Pernambuco. O preço da cebola desabou a ponto de o prejuízo ser menor com a destruição da safra do que com a sua venda a preço vil.
Endividados nos bancos, milhares de pequenos e médios agricultores quebraram. Em desespero, alguns decidiram tocar fogo na lavoura, descarregar caminhões de cebola dentro do rio e mudar de cultura. E foi aí que nasceu o próspero cultivo irrigado da cannabis sativa na região nacionalmente conhecida como Polígono da Maconha, que hoje abastece o crime organizado e virou uma das áreas mais violentas do País.
Não sei como o gaúcho Leonel Brizola reagiria diante dessas coisas. Mas, quem vem de longe, das barrancas do Velho Chico, ou vive por lá, tem motivos de sobras para desconfiar. Ou não?