Augusto Nunes, Jornal do Brasil
O presidente Juscelino Kubitschek é o que o brasileiro deveria ser. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o que o brasileiro é. Incapaz de folhear uma biografia, sem paciência para estudar a História do Brasil, Lula não sabe exatamente quem foi o antecessor. Mas gosta de comparar-se a JK. Depois de apresentá-lo como exemplo a seguir, não demorou a descobrir-se superior ao modelo. JK morreu antes que o atual chefe de governo tivesse nascido politicamente. Caso o conhecesse, não gostaria de ser comparado a Lula.
Ambos nascidos em famílias pobres, ultrapassaram sem medo as fronteiras impostas ao imenso gueto dos humildes e alcançaram o coração do poder. Esse traço comum abre a diminuta lista de semelhanças, completada pela simpatia pessoal, pelo riso fácil e pelo apreço por viagens aéreas. Bem mais extensa é a relação das diferenças, todas profundas, algumas abissais. O pernambucano de Garanhuns é um bom político. Pensa nas próximas eleições. O mineiro de Diamantina foi um genuíno estadista. Pensava nas próximas gerações.
Lula ama ser presidente, mas viveria em êxtase se pudesse ser dispensado de administrar o país. Bom de conversa e ruim de serviço, detesta reuniões de trabalho ou audiências com ministros das áreas técnicas. E escapa sempre que pode do tedioso expediente no Palácio do Planalto.
JK amava exercer a Presidência - e administrava o país com volúpia e paixão. A chama dos visionários lhe incendiava o olhar quando contemplava canteiros de obras que Lula só visita para discursar de improviso. Lula só trata com prazer de política. JK tratava também de política com prazer.
O país primitivo dos anos 50 pareceu moderno já no dia da posse de JK. Cinco anos depois, ficara mesmo. O otimista incontrolável inventou Brasília, rasgou estradas onde nem trilhas havia, implantou a indústria automobilística, antecipou o futuro. Com JK, o Brasil viveu a Era da Esperança.
O país moderno deste começo de milênio pareceu primitivo no momento em que Lula ganhou a eleição. Quatro anos e meio depois, ficou mesmo. As grandezas prometidas em 2002 seguem estacionadas no PAC. As estradas federais estão em frangalhos. O apagão aéreo vai completando nove meses. A roubalheira federal atingiu dimensões amazônicas. Mas Lula está bem no retrato, informa a mais recente pesquisa de opinião.
Está bem porque a economia tem sido poupada de sacolejos planetários freqüentes em governos anteriores. Está bem por ter inventado o Bolsa Família, que promoveu milhões de miseráveis a dependentes da esmola federal. E está bem sobretudo porque o advento da Era da Mediocridade tornou o país mais jeca, mais brega, menos exigente.
Nos anos 50, o governo e a oposição eram conduzidos pelos melhores e mais brilhantes. O povo que sabia sonhar sabia também escolher. Mereceu um presidente como JK. No Brasil de Lula, mandam os medíocres. O grande rebanho dos conformados tem o pastor que merece.
Cabôco Perguntadô
O Cabôco recita há 10 dias um trecho do discurso de posse de Mangabeira Unger: "O engrandecimento do Brasil soará em todos os recantos da Terra, como o grito de uma criança ao nascer, prometendo um recomeço para o mundo. Presos a seus afazeres, ansiosos para esquecer que morrerão, todos pararão por instantes, perturbados por esperança inesperada. Ouvirão no grito a profecia do casamento da pujança e da ternura".
Continua sem saber se o homem é só meio bobo ou completamente maluco.
Desafinação e desatino
O ministro da Defesa, Waldir Pires, avisou que o apagão aéreo vai durar pelo menos mais um ano. O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, informou que o colapso da aviação civil está quase no fim. Não passa de julho, garantiu. O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, acaba de dar a excelente notícia: "A crise acabou".
"Aos cretinos fundamentais, nem água", advertia Nelson Rodrigues. A era Lula deu a vários deles mais que isso. Ganharam o direito de beber nas fontes do poder.
Todo berço pode embalar bandido
"Eles não são bandidos", comunicou Ludovico Ramalho Bruno, pai de Rubens Arruda, um dos cinco jovens de classe média que espancaram e roubaram a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto. "Tem que criar outras instâncias para puni-los", reivindica. São bandidos, sim. De boas famílias, mas bandidos. Não merecem instância especial: merecem é cadeia, feita para engaiolar qualquer criminoso. O país ficará menos cafajeste quando o Código Penal valer para todos - pobres ou ricos. Até mesmo para senadores.
Nascidos um para o outro
Quando desfila no bloco dos pecadores companheiros, onde brilha como rainha da bateria, a senadora Ideli Salvatti, do PT catarinense, é um berreiro à procura de uma idéia. Fantasiada de madrinha do cordão dos aliados, Ideli é um sussurro a serviço dos aflitos.
Foi bonito vê-la soprando palavras amáveis aos ouvidos de Renan Calheiros, com escoriações generalizadas no coração e na imagem. Foi bonito ver o senador beijar a mão da parceira.
Ideli e Renan, PT e PMDB. Tudo a ver.
Yolhesman Crisbelles
Vai para o filósofo Renato Janine Ribeiro, pelo sumário de uma pesquisa que bolou:
Trata-se de destilar o que é a cultura social e política de nosso tempo mediante o exame de sua cultura, quer de elite, quer de massas, em especial nos significantes que mais chamam a atenção. Assim, estudaremos Cinderela e Mogli, de Disney, a astrologia, quando se torna junguiana, romances de Agatha Christie, Fellini e o espiritismo, Guimarães Rosa
O presidente Juscelino Kubitschek é o que o brasileiro deveria ser. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o que o brasileiro é. Incapaz de folhear uma biografia, sem paciência para estudar a História do Brasil, Lula não sabe exatamente quem foi o antecessor. Mas gosta de comparar-se a JK. Depois de apresentá-lo como exemplo a seguir, não demorou a descobrir-se superior ao modelo. JK morreu antes que o atual chefe de governo tivesse nascido politicamente. Caso o conhecesse, não gostaria de ser comparado a Lula.
Ambos nascidos em famílias pobres, ultrapassaram sem medo as fronteiras impostas ao imenso gueto dos humildes e alcançaram o coração do poder. Esse traço comum abre a diminuta lista de semelhanças, completada pela simpatia pessoal, pelo riso fácil e pelo apreço por viagens aéreas. Bem mais extensa é a relação das diferenças, todas profundas, algumas abissais. O pernambucano de Garanhuns é um bom político. Pensa nas próximas eleições. O mineiro de Diamantina foi um genuíno estadista. Pensava nas próximas gerações.
Lula ama ser presidente, mas viveria em êxtase se pudesse ser dispensado de administrar o país. Bom de conversa e ruim de serviço, detesta reuniões de trabalho ou audiências com ministros das áreas técnicas. E escapa sempre que pode do tedioso expediente no Palácio do Planalto.
JK amava exercer a Presidência - e administrava o país com volúpia e paixão. A chama dos visionários lhe incendiava o olhar quando contemplava canteiros de obras que Lula só visita para discursar de improviso. Lula só trata com prazer de política. JK tratava também de política com prazer.
O país primitivo dos anos 50 pareceu moderno já no dia da posse de JK. Cinco anos depois, ficara mesmo. O otimista incontrolável inventou Brasília, rasgou estradas onde nem trilhas havia, implantou a indústria automobilística, antecipou o futuro. Com JK, o Brasil viveu a Era da Esperança.
O país moderno deste começo de milênio pareceu primitivo no momento em que Lula ganhou a eleição. Quatro anos e meio depois, ficou mesmo. As grandezas prometidas em 2002 seguem estacionadas no PAC. As estradas federais estão em frangalhos. O apagão aéreo vai completando nove meses. A roubalheira federal atingiu dimensões amazônicas. Mas Lula está bem no retrato, informa a mais recente pesquisa de opinião.
Está bem porque a economia tem sido poupada de sacolejos planetários freqüentes em governos anteriores. Está bem por ter inventado o Bolsa Família, que promoveu milhões de miseráveis a dependentes da esmola federal. E está bem sobretudo porque o advento da Era da Mediocridade tornou o país mais jeca, mais brega, menos exigente.
Nos anos 50, o governo e a oposição eram conduzidos pelos melhores e mais brilhantes. O povo que sabia sonhar sabia também escolher. Mereceu um presidente como JK. No Brasil de Lula, mandam os medíocres. O grande rebanho dos conformados tem o pastor que merece.
Cabôco Perguntadô
O Cabôco recita há 10 dias um trecho do discurso de posse de Mangabeira Unger: "O engrandecimento do Brasil soará em todos os recantos da Terra, como o grito de uma criança ao nascer, prometendo um recomeço para o mundo. Presos a seus afazeres, ansiosos para esquecer que morrerão, todos pararão por instantes, perturbados por esperança inesperada. Ouvirão no grito a profecia do casamento da pujança e da ternura".
Continua sem saber se o homem é só meio bobo ou completamente maluco.
Desafinação e desatino
O ministro da Defesa, Waldir Pires, avisou que o apagão aéreo vai durar pelo menos mais um ano. O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, informou que o colapso da aviação civil está quase no fim. Não passa de julho, garantiu. O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, acaba de dar a excelente notícia: "A crise acabou".
"Aos cretinos fundamentais, nem água", advertia Nelson Rodrigues. A era Lula deu a vários deles mais que isso. Ganharam o direito de beber nas fontes do poder.
Todo berço pode embalar bandido
"Eles não são bandidos", comunicou Ludovico Ramalho Bruno, pai de Rubens Arruda, um dos cinco jovens de classe média que espancaram e roubaram a empregada doméstica Sirlei Dias Carvalho Pinto. "Tem que criar outras instâncias para puni-los", reivindica. São bandidos, sim. De boas famílias, mas bandidos. Não merecem instância especial: merecem é cadeia, feita para engaiolar qualquer criminoso. O país ficará menos cafajeste quando o Código Penal valer para todos - pobres ou ricos. Até mesmo para senadores.
Nascidos um para o outro
Quando desfila no bloco dos pecadores companheiros, onde brilha como rainha da bateria, a senadora Ideli Salvatti, do PT catarinense, é um berreiro à procura de uma idéia. Fantasiada de madrinha do cordão dos aliados, Ideli é um sussurro a serviço dos aflitos.
Foi bonito vê-la soprando palavras amáveis aos ouvidos de Renan Calheiros, com escoriações generalizadas no coração e na imagem. Foi bonito ver o senador beijar a mão da parceira.
Ideli e Renan, PT e PMDB. Tudo a ver.
Yolhesman Crisbelles
Vai para o filósofo Renato Janine Ribeiro, pelo sumário de uma pesquisa que bolou:
Trata-se de destilar o que é a cultura social e política de nosso tempo mediante o exame de sua cultura, quer de elite, quer de massas, em especial nos significantes que mais chamam a atenção. Assim, estudaremos Cinderela e Mogli, de Disney, a astrologia, quando se torna junguiana, romances de Agatha Christie, Fellini e o espiritismo, Guimarães Rosa