segunda-feira, julho 16, 2007

O dono do Pan são os cidadãos

Editorial do Jornal do Brasil

As disputas do Pan excedem o campo esportivo. Nos gabinetes de Brasília e do Rio, gestores públicos e privados travam uma batalha olímpica pela paternidade da competição que consumiu, até agora, R$ 3,7 bilhões, orçamento 700% superior ao original. Buscam os dividendos políticos e econômicos, igualmente grandiosos. Os Jogos transformam-se em palanque para a Olimpíada, a Copa, a guerra municipal no próximo ano. Até o presidente aproveitou o cabo eleitoral: "O Pan é brasileiro", enfatizou Lula, depois de reforçar a importância da festa dos atletas de 42 países para a imagem do país no exterior.

Proporcionais à pompa da cerimônia de abertura, as utilidades estratégicas do Pan-Americano e os conseqüentes confrontos políticos para melhor aproveitá-lo mostram-se lícitos até o limite da correção e da ética. Casos os interesses particulares, como é comum, prejudiquem o bem público, a luta pela paternidade revela-se oportunismo covarde.

O dono do Pan são os cidadãos. Cumpre aos dirigentes conciliar sua corrida pelo ouro com as demandas sociais. Converter os lucros em benefícios sustentados para a cidade e para o Brasil. Conjugar as negociações inflamadas pela tocha com legados consistentes para quem paga, como reconheceu o ministro Guido Mantega na quarta-feira passada, uma das cargas tributárias mais altas do mundo.

Embora algumas promessas tenham ficado no papel (corredor viário, alargamento da Lagoa-Barra, extensão do metrô até a Barra), é possível consolidar uma herança substantiva. Desde que os pais do Pan mantenham a ganância afastada dos compromissos essenciais ao interesse coletivo. Promovam a necessária conversão do sucesso executivo, da projeção mundial, da coleção de medalhas em benefícios comunitários: geração de empregos, inclusão, redução da violência.

Para estender os dividendos pan-americanos ao cidadão comum, é preciso que administrações públicas e empresários unam esforços em torno do aperfeiçoamento e do aproveitamento ótimo das benfeitorias. O Engenhão, por exemplo, exige a ampliação da estrutura de acesso, cujas limitações impedem o estádio de nivelar-se ao ambicionado padrão de primeiro mundo.

Igualmente decisivo ao casamento entre as pretensões olímpicas e os interesses da sociedade é a transformação das instalações em pólos permanentes de competições, exibições, iniciativas educacionais. Sem o uso integral, arenas, piscinas, quadras milionárias ganham o caminho da ociosidade ou da exclusão. Tornam-se objetos do descaso, do desperdício. Ou símbolos da desigualdade.

O desafio de transformá-las em passaportes para qualidade de vida depende da superação de uma miopia crônica: restringir o esporte à esfera do alto rendimento, dos negócios. Mais importante do que o avanço rumo à elite das medalhas, é a ampliação do legado do Pan às dimensões comunitária e educativa.

Esta deve ser a principal contrapartida dos bilhões investidos - o aumento do potencial do esporte como provedor de lazer, formação individual, cidadania, socialização. Assim determina a Constituição.

O êxito do Pan insinua-se só um pontapé inicial. Para alcançar o pódio esportivo, econômico e social, revela-se primordial o cumprimento de lições de casa esquecidas no palanque: resolver os gargalos de infra-estrutura, reformar as estradas, construir estádios de excelência, incentivar a prática esportiva nas áreas carentes.