sábado, agosto 18, 2007

As hienas fundamentalistas

por Marcelo Scotton, site Diego Casagrande

Ninguém agüenta ver televisão comigo. Além de reclamar o tempo todo de tudo que passa, volta e meia paro em canais que ninguém gosta de assistir. Na TV aberta, gosto dos programas de fundamentalismo religioso. São divertidos. Na TV a cabo, fico assistindo o dia a dia das hienas, que ora estão comendo restos de animais e ora estão sendo afugentadas por leões na savana africana. Na terceira categoria, que alcunho de TV Pública, sempre dou uma espiada na Radiobrás, canal 2 da minha TV, onde o único conteúdo da programação parece ser os discursos políticos do governo nordeste afora.

Enquanto o governo parece trabalhar sua campanha para 2010 no nordeste do país, os problemas pipocam cá embaixo no sudeste, onde concentram-se a maior parte da população e do PIB do país. Para a nossa sorte, os problemas catastróficos - como o do caos aéreo - não foram muitos nos últimos anos. A única coisa de mais grave que aconteceu mesmo foi fecundada dentro do próprio governo, que foram os adormecidos, mas numerosos escândalos de corrupção que o povo acabou perdoando e esquecendo.

Se somos hoje incapazes de resolver um problema na aviação brasileira que começou há 10 meses, após o acidente com o avião da Gol, o que dizer se tivéssemos algo como a crise Argentina, dos Tigres Asiáticos, do apagão energético e o 11 de setembro pelo caminho, além de uma recessão econômica mundial? Ainda bem que “se” não existe.

Outro passo que demos para trás, obviamente foi no quesito privatizações. A doença ufanista do “Petróleo é nosso”, do “Banco é nosso”, da “Previdência é nossa”, nos custa muito caro. Se estes aeroportos tivessem sido privatizados, certamente teríamos pistas, controle de tráfego aéreo e toda infra-estrutura necessária para o bom funcionamento dos aeroportos em melhor nível do que o que aí está. Governo tem que legislar, e não cuidar de aeroporto, gerir aposentadoria ou fabricar aço. Como dificilmente veremos privatizações neste governo, teremos que agüentar por mais alguns anos um emaranhado de políticos e militantes partidários ocupando cargos de técnicos em setores estratégicos. Veremos estatais financiarem Pan-Americano, Revista Carta Capital, MST, Flamengo, e outras instituições que não interessam à população financiar.Apesar de tantas evidências, a maioria da população é incapaz de reagir frente à inépcia administrativa a que estamos sujeitos. As vaias de hoje são os votos de ontem. A cultura paternalista do estado venceu a lógica do mercado. Defendem um partido e uma bandeira cegamente, como nos programas fundamentalistas religiosos que assisto na TV aberta.

E falando em TV, essa subserviência sem questionamento e sem oposição, me faz lembrar bastante das hienas, estrelas da outra atração que gosto de assistir, no canal National Geographic: elas vivem comendo restos e sendo humilhadas pelos leões, mas continuam rindo a toa.