sábado, agosto 18, 2007

'The Economist': Brasil tem nova classe média

BBC Brasil

O Brasil tem uma nova classe média, surgida quase da noite para o dia, segundo uma reportagem publicada na edição desta semana da revista britânica The Economist.

Essa fatia da população teria se beneficiado da estabilidade e do crescimento econômico no país e também em boa parte da América Latina.

"Tendo deixado a pobreza para trás, a sua incipiente prosperidade está conduzindo o rápido crescimento de um mercado de consumo de massa numa região há muito tempo notória pelo duro contraste entre uma reduzida elite privilegiada e uma maioria pobre. Seu advento promete transformar a política da região", diz a revista.

A Economist frisa que enquanto é possível medir a pobreza, o termo "classe média" já é mais subjetivo, e esclarece que a reportagem está se referindo àquelas pessoas que poderiam ser descritas como de classe média baixa. Muitas têm pequenos negócios ou trabalham no mercado de serviços.

Consumo
Segundo a reportagem, entre 2000 e 2005, o número de famílias com renda anual entre R$ 12 mil e R$ 45 mil cresceu em 50% no Brasil, enquanto o grupo ganhando menos de R$ 6 mil anuais diminuiu dramaticamente.

Outra evidência da chamada "nova classe média" citada pela revista é o nível recorde da venda de carros novos, computadores e eletrônicos no país.

Além disso, de acordo com a Economist, "os sinais de progresso estão em toda parte. Novos prédios de apartamentos, do tipo comum nas partes mais chiques de São Paulo, agora sobressaem por entre as casas do que ainda lembra as favelas".

Editorial
Em editorial na mesma edição, a revista diz que apesar das notícias sobre "revoluções" populistas ou "socialismo do século 21" na América Latina, a situação em muitos países da região está, na realidade, melhor hoje do que em qualquer outro momento desde a metade dos anos 70.

"O ponto importante é que o caminho tomado pela maioria dos países latino-americanos - o da democracia e das economias de mercado - está finalmente rendendo frutos", diz o editorial.

Segundo a Economist, as mudanças ainda são frágeis, "mas as lições para os governos são claras. Para impulsionar a nova classe média, é crucial manter a inflação baixa. Assim como melhorar a educação de baixa qualidade oferecida pelas escolas e universidades da região".

Melhorar a infra-estrutura de transportes e retirar o excesso de proteção no mercado também são medidas necessárias, segundo a revista. Assim, "as democracias latino-americanas poderiam virar uma esquina importante, na qual desigualdade, pobreza e populismo dariam lugar a prósperas democracias de classe média onde a maior parte tem interesse na estabilidade
".


*** COMENTANDO A NOTÍCIA: Reparem que aquilo que poderia alimentar ainda mais o ego do atual governo, se olhado e analisado em profundidade, é, na verdade uma dura crítica não propriamente ao desempenho final, mas as ideologias que defendem e que se alimentam quando pensam em Brasil de futuro.

Primeiro, que a situação atual de inflação baixa e estabilidade econômica, como bem a revista britânica é uma conquista que começa a dar bons sinais. Demorou mas chegou. Mas qual o marco desta conquista ? O Plano Real, programa duramente criticado e combatido por Lula e o PT, e, ironia, do qual ele agora se beneficia. Mas não apenas isso: as reformas estruturantes promovidas no Estado brasileiro no período de 1995 a 2001 foram fundamentais para sedimentar esta estabilidade. Dizer que Lula teve méritos em não mexer nestes pilares é uma parte da verdade, porque i que aconteceu ele não teve foi competência para virar o país de cabeça para baixo como desejaria.

Segundo, estes resultados poderiam ser muito melhores tivesse sim dado seqüência as reformas que ficaram para trás, e que os petistas impediram que se consumassem. E quando foram tentar fazer, fizeram pior do que os projetos originais apresentados ainda no período anterior. Tanto assim que os demais emergente, nestes últimos cinco anos, disparam em crescimento e produção de riquezas, e nós ficamos remoendo uma lanterna vergonhosa.

Terceiro, a revista diz claramente que estas conquistas demonstram que a democracia e as economias de mercado são o caminho das pedras. E neste ponto, sabemos que o pensamento de Lula e dos petistas, se opõe literalmente contrários. Ou seja, apesar deles e de suas contrariedades, o Brasil avança pelos caminhos opostos ao que eles desejariam.

Quarto, a revista ainda aponta as prioridades que o país precisa atender para o Brasil tornar-se uma nação mais relevante no planeta: melhorar a educação de baixa qualidade oferecida pelas escolas e universidades, além de melhorar a infra-estrutura de transportes e retirar o excesso de proteção no mercado. Ou seja, tudo aquilo que já sabemos há muito tempo, e que insistimos em seguir na contramão. Na educação por exemplo, não basta rechear o orçamento de verbas se os currículos e melhor capacitação dos profissionais de educação não se consumar, como ainda resta investir maciçamente na qualidade dos prédios caindo aos pedaços. E na infra-estrutura,bem Lula já está aí há mais de quatro anos, e no quesito continuamos empacado por um governo que insiste em agigantar o tamanho do Estado já perdulário e paquidérmico por demais, e pensa mal da iniciativa privada, sem lhe oferecer regras seguras para investimentos que sem esta segurança de regras não vai arriscar-se de jeito nenhum.

Conclusão: depende de nós unicamente darmos passos corajosos para tirarmos o país do atraso secular. Fosse menos broncos, os governantes atuais veriam que a estabilidade atual do qual se gabam e se ufanam, muito embora não seja obra, só foi conseguida a partir do momento em que o Estado foi arejado e se tornou mais responsável. Não se deixassem contaminar pelo ranço ideológico, poderiam em cima do muito que já se conseguiu a partir de 1995, e na maré em que a economia mundial surfou desde 2002 ter encaminhado o Brasil para um ciclo virtuoso de crescimento. Pena que a maré tenha chegado ao final sem que tenhamos aproveitado a oportunidade.