quarta-feira, setembro 05, 2007

Bons de discurso, ruins de serviço...

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Dois detalhes na área de economia chamam a atenção neste início, e dizem respeito ao Brasil: a primeira, um estudo feito pelo Organização Internacional do Trabalho, dando conta de que o trabalhador brasileiro, nos últimos 25 anos, perdem capacidade de produção. A outra, a de que a capacidade industrial instalada no País aproxima-se de 86,0% de ocupação.

O primeiro detalhe está relacionado diretamente à qualidade de ensino. Não são apenas nossas universidades que perderam o bonde da história, mas especialmente, o ensino médio e fundamental.

Até hoje, quando se fala com qualquer empresário do ramo de telefonia ou de qualquer ramo de alta tecnologia, a reclamação é uma só: os salários, são bons, o mercado de aberto está aberto, mas faltam profissionais qualificados.

Num primeiro momento até se poderia imaginar que as faculdades brasileiros não estão formando estes “profissionais” de alta performance. Não é verdade. Na linha da engenharia todo aquele que se destaca medianamente ainda nos bancos acadêmicos, automaticamente já é tragado pelas grandes empresas. O que falta é chegar mais gente à estas faculdades. E isto tem a haver com o péssimo ensino nos ciclos fundamental e médio.

Nossas escolas estão perdendo a capacidade de ensinar matemática e português. Isto é notório. Por um lado, está a má qualificação de professores pessimamente pagos e sem possibilidades de se reciclarem. De outro lado, está as péssimas condições das escolas sendo raras as que têm uma biblioteca. Isto do lado do idioma.

De outro lado, o ensino de matemática regrediu muito. E não se venha alegar que a tecnologia das calculadoras e da computação forçaram esta barra. Aí estão China, Japão, Estados Unidos e Índia para mostrar-nos que alta tecnologia não afasta ninguém da qualidade de ensino.

E é isto que faz a diferença entre um país sólido, moderno, progressista e de primeira linha. E uma vez mais estamos ficando para trás.

De outro lado, as más condições existentes no país para investimentos e ampliações, estão zerando nossa capacidade industrial instalada. Isto é muito ruim. Vamos ver as razões.

Primeiro, estamos insistindo nesta equação há muito tempo: o Brasil não oferece ainda condições adequadas para investimentos produtivos. Carga tributária, juros internos, excesso de burocracia, insegurança jurídica e infra-estrutura deteriorada, forma um cenário que inibe e afasta o investimento.

Mais: de acordo com os números oficiais, as importações do país cresceram de um ano para cá cerca de 29,0 % ao passo que as exportações apenas 10,0%, e ainda assim, aqui se nota a presença maciça das comoditties, fruto do mercado chinês comprador. Com o câmbio ajustado na forma em que se encontra, o investimento que aportar para o país terá que se contentar com o mercado interno.

Sabemos que o salário médio do trabalhador brasileiro é um dos mais baixos do mundo. O atual crescimento do consumo interno se dá muito mais em vista do crédito subsidiado do que pro crescimento da massa salarial. Ora, dívida gera consumo, não riqueza. Dívida, cedo ou tarde, terá que ser paga. Muitos estão apelando para novas dívidas para quitar as antigas. Isto não é crescimento. É bolha de crescimento que acabará estourando.

Assim, mesmo que esta “bolha” ainda demore a estourar, a rápida diminuição da capacidade ociosa de nossas indústrias, caso não se tome providências urgentes, nos conduzirá para uma encruzilhada: ou inflação, e aí todos perdem, ou atender a demanda interna com importações, e isto zeraria nosso saldo comercial, podendo até inverter-se. Claro, temos gorduras para queimar. Mas isto deve ser usado em momentos de instabilidade, de crises de liquidez, ou graves crises, e não em situação de certa calmaria.

Mas vamos supor que, de repente, se criem algumas brechas e se possam criar novas empresas ou ampliar as existentes em um ritmo mais intenso. Pois bem, cadê os profissionais qualificados ? Não temos, teremos que importar.

Mas, pelo andar da carruagem, nossas autoridades só sabem agir diante da crise instalado. São autoridades das políticas de tapa-buracos, não sabem agir com lucidez, com olho posto no futuro. E nem se precisa falar de um futuro muito distante, só coisa para além de 5 anos.

E depois do mal feito e instalado não adianta caçarem bruxas para responsabilizar governos passados, ou elites, ou imprensa, ou sei lá que baboseiras mais se possam inventar. Tem o governo atual uma grande oportunidade de inserir o país num futuro maravilhoso. Porém, para tanto, se requer ação muito mais do que discursos, se exige muito mais que se assuma responsabilidades do que transferi-las para o passado, e é indispensável trabalharmos com competências do que com retóricas.

E apenas uma última observação: já jogamos fora cinco anos de estabilidade e não avançamos nos principais pontos e reformas prioritários para atingirmos o nível necessário de um grande país. Permanecemos estacionados, discutindo muito mais sobre perfumaria do que sobre projetos, programas e ações públicas. Ou seja, somos até bom de debates e discussões, mas ruins de serviço quando se trata de FAZER.

O governo atual, por exemplo, ainda discute planos, projetos e programas, após estar há quatro anos e meio no poder. Quanto tempo ainda levará para agir ? Preocupante mais ainda é ele não se dar conta de que está gastando demais em coisas que não constam do cardápio das “grandes reformas”.

Querem um exemplo de atraso daqueles que não deixam dúvidas ? É o apoio do PT e, por conseguinte, do governo Lula, para uma votação em nível nacional de um “plebiscito” boca murcha pela reestatização da Vale do Rio Doce. Para os valentes que adoram perder tempo com inutilidades, aqui vai um desafio: mostrem-me, à luz da legislação vigente no país, qual a ilegalidade cometida na privatização da Cia Vale do Rio Doce? Qual? Ou então da Embraer? Ou então da Telebrás? Saibam os “patriotas” do atraso de que, se uma vírgula de ilegalidade tivesse sido cometido, nem Lula nem seus amestrados teriam ficado quietos este tempo todo. Tratariam de garantir novas bocas ricas para os companheiros em milhares de novos empregos que acabariam gerando.

Assim, enquanto discutimos, os demais países emergente continuando avançando e progredindo, avançando e progredindo. Nós discutimos, mas eles fazem.