... E NOSSO EMBAIXADOR DA PAZ: FERNANDINHO BEIRA-MAR
Reinaldo Azevedo
Vamos acompanhar o governo Lula em três movimentos:
Reinaldo Azevedo
Vamos acompanhar o governo Lula em três movimentos:
1 - O Apedeuta se encontrou com Hugo Chávez em Manaus. O ditador atacou o Congresso brasileiro. Em troca, Lula o afagou e afirmou que ambos enfrentam preconceitos porque são progressistas.
2 – Lula participou da tal reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e endossou afirmação de Guido Mantega de que a imprensa estrangeira é mais bem-informada sobre o Brasil do que a brasileira.
3 – Na reunião para fazer o balanço do PAC, o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) e Dilma Rousseff (Casa Civil) atacaram relatório do TCU que aponta irregularidades em obras do plano.
Chávez e a narcoguerrilha
É claro que, às vezes, considero aborrecido bater em Lula. Ele é um chato, sem imaginação, representando sempre o mesmo papel. A ladainha cansa. Mas é necessário deixar registrado, nem que seja para a história, os marcos novos que ele vai estabelecendo na política nativa. A imprensa hoje dará conta de contenciosos entre os dois, irritações de ambos os lados etc. O fato é que o Congresso brasileiro voltou a ser atacado por um governante estrangeiro. E isso em solo nativo. Não só não se viu resposta, como Lula se comparou ao próprio ditador, dizendo que ambos são alvo de incompreensões porque fazem governos “progressistas”.
Chávez é um ditador reles. Está, aos poucos, cubanizando a Venezuela, que levará décadas para se levantar do desastre quando finalmente o tiranete for pendurado em praça pública, de cabeça para baixo. Mas Lula o adula, exalta as suas virtudes. Num discurso vagabundo, negou que haja qualquer disputa entre os dois para liderar o continente. Imaginem só: a economia brasileira é 10 vezes maior do que a venezuelana; o território, umas oito, e a população, umas sete. E, no entanto, Lula está dizendo que não há disputa por liderança. Iguala-se a Chávez. Mais uma vez, fica provado que ele sabe ser arrogante com os EUA e subserviente com ditadores de meia-tigela.
E tudo pode ser ainda pior. Há tempos, ataquei a idéia idiota de o Brasil ser um território neutro para um encontro entre os líderes na narcoguerrilha colombiana e o governo daquele país. Neutro por quê? Entre um governo eleito democraticamente e os assassinos e bandoleiros, não temos lado? Agora as coisas pioraram muito. Lula oferece o nosso país para um encontro entre Chávez e as Farc. O ditador negociaria com seus amigos a liberação de pessoas seqüestradas na Colômbia. Estranho? Para o estado brasileiro, sim. Não para Lula e seu PT. Afinal, eles são companheiros dos narcobandidos no Foro de São Paulo, que é a entidade que, de fato, coordenada o movimento de esquerdização da América Latina. Notem que o Planalto jamais condenou a guerrilha. E é ligeiramente hostil ao governo colombiano. Na posse de Álvaro Uribe, Lula se fez representar pela especialista em assuntos internacionais Marisa Letícia.
Imprensa
Lula endossou a afirmação do ministro proparoxítono da economia segundo a qual é preferível ler a imprensa estrangeira à brasileira porque aquela seria mais bem-informada sobre o Brasil. A propósito: em que língua o monoglota incompleto prefere ler as notícias sobre o país? É evidente que se trata de uma crítica injusta, de uma provocação cretina. Veja-se, por exemplo, o estardalhaço que se fez recentemente com os dados do IBGE. Com raras exceções, praticamente se escondeu o fato de que a renda média do brasileiro, em 2006, ainda era quase 10% inferior à de 1996. Atribuíram-se ao governo Lula conquistas que são de mais de uma década de estabilidade da economia. E Lula não reclamou.
Ele só não chia quando a imprensa erra. Porque quase sempre o faz a seu favor. O jornalismo de que ele não gosta é aquele que vigia o poder, que aponta as falhas, que denuncia as falcatruas, que investiga as irregularidades. No melhor dos mundos do PT, o mensalão teria sido deixado de lado, o dossiê fajuto teria sido ignorado (quando se descobriu a tramóia, claro; a armação, se bem se lembram, contou com a ajuda de certa imprensa); Renan Calheiros já estaria esquecido. É verdade: a imprensa estrangeira se interessa menos por alguns assuntos que são, com efeito, domésticos.
O Apedeuta come no prato em que comeu por mais de 20 anos. Lula é uma invenção de Golbery do Couto e Silva, dos padres da Igreja Católica e... da imprensa. Vi outro dia trechos de um programa que debatia a situação política brasileira. A moça, jornalista, em tom crítico ao PT, volta e meia falava dos compromissos históricos da legenda com a ética na polícia. É uma forma de petismo. Aliás, esse é o petismo original, essencial: acreditar que, de fato, em algum momento, essa conversa de ética era pra valer, e não um item de uma estratégia de poder. Basta olhar a história da esquerda e seus doutores (ainda que, às vezes, antípodas): Marx, Lênin, Stálin, Trotsky, Mão, Gramsci... Ampliem a lista o quanto quiserem: citem-me um texto, um miserável que seja, que possa servir de base para a teoria do partido ético. Mas o jornalismo ainda cai nessa conversa, como caiu no papo no metalúrgico milagreiro.
As rusgas de Lula com a imprensa são, na maioria das vezes, um caso de amor não-correspondido. É menor do que já foi, sei bem, mas ainda é gigantesco o amor das redações pelo PT e por Lula. Se não for exatamente por ambos, é por aquela conversa do “outro mundo possível”. O caldo de cultura é petista. Tudo o que se publicou aqui sobre livros didáticos ajuda a explicar um pouco a origem dessa deformação. A doutrinação vem de há muito e atinge as crianças muito cedo. Uma parte dos infantes, pobrezinhos, decide fazer jornalismo e praticar justiça social com o próprio teclado - quer dizer, com o teclado da imprensa capitalista...
TCU
Era mais uma fronteira que faltava transgredir. Não falta mais. Não estou cobrando que o governo goste do relatório do tribunal que aponta corrupção em obras do PAC. Mas que, ao menos, procedesse a uma apuração para, se fosse o caso, contestar o tribunal com números. Em vez disso, o que se viu? A desqualificação. Eis aí: eles não aceitam a vigilância do Congresso, do tribunal de contas, da imprensa ou da democracia. Trata-se de um trabalho permanente, contínuo, mais metódico do que se supõe, para degradar as instituições.Volto, para concluir, ao caso da imprensa. O mais triste disso tudo é que parte dela, sentindo-se atingida, vai tentar demonstrar a Lula que ele está errado, “amaciando” (como diria certo Lewandowski) em uma de suas tarefas, que é vigiar o poder. E Lula terá sido, então, parcialmente bem-sucedido em sua luta diária contra as virtudes da democracia.
PS: No encontro entre Chávez e as Farc, sugiro que Lula mande um observador de seu governo. Nessas horas, nada como um sábio. Em vez dos traficante de ideologia que pululam no Planalto, envie Fernandinho Beira-Mar, que fazia negócio com os narcomarxistas. Numa reunião de bandidos, o Brasil nunca faz feio. Não seria desta vez.