sábado, outubro 13, 2007

A educação aloprada

por Daniel Piza, Estadão

A forma como vem sendo criada a tal Secretaria de Ações de Longo Prazo é a própria demonstração de sua inutilidade. Primeiro, foi convidado para dirigi-la o professor-profeta Roberto Mangabeira Unger, aquele que já apoiou Ciro Gomes, já pediu o impeachment de Lula e já se associou aos evangélicos – ou seja, um sujeito de enorme coerência. Depois, como a sigla era "Sealopra" e, portanto, ecoava o incômodo adjetivo aplicado pelo presidente do PT, Ricardo Berzoini, aos correligionários flagrados com uma mala de dinheiro no caso do dossiê Vedoin (os "aloprados"), decidiu-se mudar a palavra "Ações" para "Planejamento", aquela que o regime militar apreciava. Agora, com o veto do Senado à criação do órgão, o presidente decidiu fazê-lo por decreto – ah, o prazer da canetada! – e assim fundar nada menos que o seu 37º ministério, com o kafkiano nome de Assuntos Estratégicos. Afinal, "choque de gestão" na máquina pública é contratar mais gente...

Na quarta passada, o quase novo ministro achou por bem dar uma amostra de suas idéias brilhantes para o futuro do país do futuro. Disse, por exemplo, que quer da Amazônia uma combinação de produtividade com preservação, o que poderia ser obtido a partir de uma subdivisão de seu território. Em seguida, pregou audácia ao Brasil para que não seja uma economia baseada na mão-de-obra barata, como a China. E ainda defendeu uma "estratégia nacional de defesa" como parte de uma "estratégia de desenvolvimento nacional". Aí está, enfim, o papel da Sealopra: atirar, e mal, para todos os lados. Ou ao menos assegurar um discurso com verniz de anos 70 para que o governo Lula – que nesta semana declarou que pretende se licenciar em 2010 para apoiar um presidente comum aos partidos aliados – venda a imagem de não ter pensado apenas em seus ganhos imediatos, em seu projeto de poder, em seu "nunca antes".

A realidade, porém, é outra. Tal como no governo anterior, a incompetência e o corporativismo pouco fizeram em favor da infra-estrutura, de sistemas como o tributário e o político e, acima de tudo, da educação – de tudo que diz respeito ao longo prazo. Há gargalos e semicolapsos nos mais diversos setores, como transportes, energia, saúde e saneamento. A carga tributária só faz crescer, alimentada por um governo cujos gastos são cada vez maiores, especialmente em pessoal, com aumento de 13% ao ano. O sistema político é ridículo, a tal ponto que nem mesmo medidas básicas e universais – a fidelidade partidária e a proibição do nepotismo – passam no Legislativo; imagine repensar a fundo essa questão, revendo até, por exemplo, o número de partidos. E a educação, embora com algumas melhoras estatísticas – como o aumento de alunos universitários em 13%, impulsionado pela ajuda pública a instituições privadas –, continua abaixo da crítica.

Segundo o PNAD, ainda que nenhuma publicação tenha destacado esse drama, o número de alunos no ensino médio caiu 0,7%. E isso num país onde o nível de aprendizado de quem termina o terceiro ano do ensino médio corresponde ao que ele deveria ter aprendido até o último ano do ensino fundamental. Em outras palavras, adolescentes com mais de 17 anos sabem apenas o que deveriam saber aos 14. Como se não bastasse, a maioria da população abandona a escola antes disso, ou seja, sabendo no máximo redigir um bilhete e fazer a tabuada, afora um punhado de datas, nomes e fórmulas. No ensino brasileiro, temos o pior dos dois mundos: não se aprende a ser metódico nem a ser independente. Forçados a repetir mecanicamente as informações – muitas delas erradas ou ideologicamente comprometidas, como tem demonstrado Ali Kamel –, os alunos não assimilam conceitos e não desenvolvem raciocínios; logo, não sabem usar a criatividade que, segundo o tolo consenso, distinguiria os brasileiros. São desobedientes – praticamente mandam nos professores hoje em dia – e ao mesmo tempo improdutivos. E passam de ano, graças à "progressão continuada", outra invenção tosca dos tucanos.

Daí a carência de mão-de-obra qualificada que angustia tantas empresas hoje, para não falar do vale-tudo moral em que mais e mais afundamos. A melhor ação de longo prazo seria mudar esse quadro. Mas um traço da cultura brasileira – ou da educação, dá no mesmo – é justamente supor que a solução de um problema venha da abertura de uma repartição pública, assim como para combater um crime é preciso promulgar mais uma lei... Veja a demagogia do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, "o do painel", que determinou a abolição do gerúndio. Eu não sabia que a língua portuguesa está sob comando de políticos. Não espanta que nosso ensino seja tão atrasado, tão burocrático, tão alheio ao mundo contemporâneo. É um celeiro de aloprados.