Augusto Nunes, Sete Dias, Jornal do Brasil
Em tese, Renan Calheiros resolveu apenas afastar-se dos campos conflagrados pelo curto período de um mês e meio. É só uma folga, mais que merecida. Ao crescente bombardeio inimigo, somaram-se subitamente o fogo amigo dos supostos aliados, a deserção de velhos companheiros, o sumiço dos legionários de aluguel, a traição dos gurkhas de bigode. O general em farrapos precisa descansar. Durante seis semanas, poderá convalescer das canseiras da guerra que vai completando 150 dias. Então, recuperadas as energias consumidas nas muitas frentes de batalha, inocentado pelas partes em luta de todas as acusações inventadas pela imprensa e por antagonistas regionais, estará pronto para reassumir seu posto no quartel-general.
Isso em tese. Na prática, Renan enfim capitulou. A licença é o outro nome da renúncia. A volta do pecador à presidência do Senado tornou-se uma hipótese tão verossímil quanto a candidatura a papa do padre argentino condenado à prisão perpétua por se ter ajoelhado no altar dos torturadores e assassinos.
Ao celebrar rituais sangrentos nos porões da ditadura militar, o sacerdote desonrou a Igreja. Ao reduzir seu cargo e um instrumento a serviço da pilantragem, Renan desonrou o Senado. Ambos são delinqüentes comprovados. Ambos ainda contam com a mão amiga do corporativismo.
Graças à indulgência abjeta do clero argentino, o padre ainda não teve a batina confiscada. Graças à aliança dos comparsas de fé, dos profissionais do oportunismo e dos cúmplices no Planalto, Renan tem chances de transferir-se da cadeira de presidente para uma poltrona no plenário.
Lula ficará feliz. Ele acha que ninguém pode ser considerado culpado antes da condenação pela Justiça (mesmo quem é capturado ao lado da vítima que acabou de balear na testa diante de 40 testemunhas). Só aceitou ficar um tempo longe do parceiro porque não sabe viver sem a CPMF.
O senador Francisco Dornelles ainda não retificou o discurso em que só enxergou, no prontuário de Renan, irregularidades fiscais. Todas sem maior relevância, ressalvou, além de semelhantes às praticadas por muita gente no plenário. Em público, o senador José Sarney mantém o silêncio obsequioso recomendado pela liturgia do cargo de ex-presidente. Nas sombras, tateia trilhas que conduzam Renan à sobrevivência política.
Por falta de siso, a bancada do PT continua meditando à beira do penhasco. Por falta de coragem, muitos senadores do PSDB e do DEM evitam cuidadosamente colisões frontais com o colecionador de dossiês. Por temerem que Renan afunde atirando, a bancada do medo coloca o Senado inteiro sob o risco de naufrágio.
O Brasil que pensa espera que tripulantes e passageiros dessa nau dos insensatos tomem juízo. Não basta afastar do leme o timoneiro desvairado. É essencial atirá-lo ao mar. Só haverá esperança de salvação para o Congresso se Renan Calheiros perder, além da presidência do Senado, o mandato que não soube honrar.
Cabôco Perguntado
Moderno desde criancinha, o Cabôco gostou de ver transferida para empresas privadas, em leilão público, a administração das rodovias federais em frangalhos. Mas anda espantado com o silêncio da esquerda oitocentista que sempre acusou FH de ter vendido meio Brasil a capitalistas estrangeiros. Pergunta se a turma gostou de saber que, das oito estradas em disputa, sete passaram ao controle de empresas espanholas, ou vai exigir de Lula a imediata reestatização da rede ferroviária nacional.
Pai indulgente, ministro durão
Guido Mantega é um pai indulgente: nunca se queixou das incursões quinzenais da filha Marina ao salão de beleza da hora, onde paga 2 dólares por fio de sobrancelha extraído. Mas é um ministro durão: se a CPMF não for prorrogada, ameaça, só restará ao governo aumentar outros impostos. Existem opções menos cruéis. Uma é podar o cacho de ministérios e secretarias inúteis. Outra é demitir a multidão de companheiros só contratados para manter abarrotadas as sacolinhas que recolhem mensalmente o dízimo do PT.
Homem certo, no lugar certo
Para calotear o Banco da Amazônia, o senador Romero Jucá disfarçou-se de latifundiário da selva: tinha sete propriedades rurais no Pará, jurou. O Basa descobriu há mais de 10 anos que as fazendas nunca existiram. Ainda corre atrás do prejuízo. Para escapar da Justiça, Jucá agora jura que nunca foi dono de emissoras de rádio e televisão que lhe pertencem. Foi fazendeiro sem ter sido. Finge não ser o empresário que é. Entre um drible no banco e uma fuga da polícia, lidera a bancada governista no Senado. Faz sentido.
Consoante no fígado
Ainda convalescendo do soco no queixo desfechado pelo Legislativo com o carimbo que criou o Congreço (com c e cedilha) Nacional, a língua portuguesa foi atingida no fígado por um dos ss expulsos do Parlamento. Nesta semana, o site do Palácio do Planalto divulgou o seguinte aviso: "Este testo não substitui o publicado no D.O.U. de 28.7.1994". Nem poderia. Um testo só substitui um texto na cabeça dos analfabetos funcionais que, por indicação da Ordem dos Bons Companheiros, infestam a redação do Diário Oficial da União.
Yolhesman Crisbelles
A taça da semana vai para o rapper Ferréz, pelo fecho do artigo na Folha de S.Paulo sobre assalto sofrido por Luciano Huck:
O rolo foi justo. Todos saíram ganhando. O assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo para reclamação.
Assaltem à vontade, mas sem gastar chumbo com os otários, é o que sugere aos manos ladrões (correrias, em bandidês castiço) nosso Paulo Maluf da periferia...
Em tese, Renan Calheiros resolveu apenas afastar-se dos campos conflagrados pelo curto período de um mês e meio. É só uma folga, mais que merecida. Ao crescente bombardeio inimigo, somaram-se subitamente o fogo amigo dos supostos aliados, a deserção de velhos companheiros, o sumiço dos legionários de aluguel, a traição dos gurkhas de bigode. O general em farrapos precisa descansar. Durante seis semanas, poderá convalescer das canseiras da guerra que vai completando 150 dias. Então, recuperadas as energias consumidas nas muitas frentes de batalha, inocentado pelas partes em luta de todas as acusações inventadas pela imprensa e por antagonistas regionais, estará pronto para reassumir seu posto no quartel-general.
Isso em tese. Na prática, Renan enfim capitulou. A licença é o outro nome da renúncia. A volta do pecador à presidência do Senado tornou-se uma hipótese tão verossímil quanto a candidatura a papa do padre argentino condenado à prisão perpétua por se ter ajoelhado no altar dos torturadores e assassinos.
Ao celebrar rituais sangrentos nos porões da ditadura militar, o sacerdote desonrou a Igreja. Ao reduzir seu cargo e um instrumento a serviço da pilantragem, Renan desonrou o Senado. Ambos são delinqüentes comprovados. Ambos ainda contam com a mão amiga do corporativismo.
Graças à indulgência abjeta do clero argentino, o padre ainda não teve a batina confiscada. Graças à aliança dos comparsas de fé, dos profissionais do oportunismo e dos cúmplices no Planalto, Renan tem chances de transferir-se da cadeira de presidente para uma poltrona no plenário.
Lula ficará feliz. Ele acha que ninguém pode ser considerado culpado antes da condenação pela Justiça (mesmo quem é capturado ao lado da vítima que acabou de balear na testa diante de 40 testemunhas). Só aceitou ficar um tempo longe do parceiro porque não sabe viver sem a CPMF.
O senador Francisco Dornelles ainda não retificou o discurso em que só enxergou, no prontuário de Renan, irregularidades fiscais. Todas sem maior relevância, ressalvou, além de semelhantes às praticadas por muita gente no plenário. Em público, o senador José Sarney mantém o silêncio obsequioso recomendado pela liturgia do cargo de ex-presidente. Nas sombras, tateia trilhas que conduzam Renan à sobrevivência política.
Por falta de siso, a bancada do PT continua meditando à beira do penhasco. Por falta de coragem, muitos senadores do PSDB e do DEM evitam cuidadosamente colisões frontais com o colecionador de dossiês. Por temerem que Renan afunde atirando, a bancada do medo coloca o Senado inteiro sob o risco de naufrágio.
O Brasil que pensa espera que tripulantes e passageiros dessa nau dos insensatos tomem juízo. Não basta afastar do leme o timoneiro desvairado. É essencial atirá-lo ao mar. Só haverá esperança de salvação para o Congresso se Renan Calheiros perder, além da presidência do Senado, o mandato que não soube honrar.
Cabôco Perguntado
Moderno desde criancinha, o Cabôco gostou de ver transferida para empresas privadas, em leilão público, a administração das rodovias federais em frangalhos. Mas anda espantado com o silêncio da esquerda oitocentista que sempre acusou FH de ter vendido meio Brasil a capitalistas estrangeiros. Pergunta se a turma gostou de saber que, das oito estradas em disputa, sete passaram ao controle de empresas espanholas, ou vai exigir de Lula a imediata reestatização da rede ferroviária nacional.
Pai indulgente, ministro durão
Guido Mantega é um pai indulgente: nunca se queixou das incursões quinzenais da filha Marina ao salão de beleza da hora, onde paga 2 dólares por fio de sobrancelha extraído. Mas é um ministro durão: se a CPMF não for prorrogada, ameaça, só restará ao governo aumentar outros impostos. Existem opções menos cruéis. Uma é podar o cacho de ministérios e secretarias inúteis. Outra é demitir a multidão de companheiros só contratados para manter abarrotadas as sacolinhas que recolhem mensalmente o dízimo do PT.
Homem certo, no lugar certo
Para calotear o Banco da Amazônia, o senador Romero Jucá disfarçou-se de latifundiário da selva: tinha sete propriedades rurais no Pará, jurou. O Basa descobriu há mais de 10 anos que as fazendas nunca existiram. Ainda corre atrás do prejuízo. Para escapar da Justiça, Jucá agora jura que nunca foi dono de emissoras de rádio e televisão que lhe pertencem. Foi fazendeiro sem ter sido. Finge não ser o empresário que é. Entre um drible no banco e uma fuga da polícia, lidera a bancada governista no Senado. Faz sentido.
Consoante no fígado
Ainda convalescendo do soco no queixo desfechado pelo Legislativo com o carimbo que criou o Congreço (com c e cedilha) Nacional, a língua portuguesa foi atingida no fígado por um dos ss expulsos do Parlamento. Nesta semana, o site do Palácio do Planalto divulgou o seguinte aviso: "Este testo não substitui o publicado no D.O.U. de 28.7.1994". Nem poderia. Um testo só substitui um texto na cabeça dos analfabetos funcionais que, por indicação da Ordem dos Bons Companheiros, infestam a redação do Diário Oficial da União.
Yolhesman Crisbelles
A taça da semana vai para o rapper Ferréz, pelo fecho do artigo na Folha de S.Paulo sobre assalto sofrido por Luciano Huck:
O rolo foi justo. Todos saíram ganhando. O assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo para reclamação.
Assaltem à vontade, mas sem gastar chumbo com os otários, é o que sugere aos manos ladrões (correrias, em bandidês castiço) nosso Paulo Maluf da periferia...