Editorial Jornal do Brasil
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A longa expiação de Renan mostra que ameaças não forçarão ninguém a aprovar a CPMF
Depois de quatro meses de crise ética, cenas explícitas de corporativismo, desmandos, um julgamento, e cizânia, os senadores tiveram o longo fim de semana para meditar. O presidente do Congresso, Renan Calheiros, rendeu-se à pressão e ao abandono político, alçou vôo para Alagoas e ficará 45 dias, no mínimo, afastado do comando do Senado.
Em seu lugar, assume o posto, nesta segunda-feira de volta ao trabalho, o petista Tião Viana, um médico do Acre, paciente e ponderado. Um político afeito ao diálogo e à pacificação.
E é de uma temporada de calmaria que o Senado precisa para recompor a imagem desgastada e desacreditada durante a tempestade que se abateu sobre a Casa desde que o ocupante da cadeira mais alta do plenário azul viu-se envolvido na primeira denúncia de quebra de decoro parlamentar acusado de pagar despesas pessoais com a ajuda de um lobista de empreiteira. Se escapou da acusação no plenário, Renan ainda terá de enfrentar outras quatro representações contra ele no Conselho de Ética.
Usou e abusou do poder. É suspeito de mandar espionar colegas. Pagou pelo pecado da prepotência e do uso desmedido e nada ético do cargo. Perseguiu servidores que ousaram contestar ordens suas para manobrar processos e escarafunchar prestações de contas, montar dossiês, controlar os passos dos integrantes do conselho. Perdeu o pé, definitivamente, ao ordenar o afastamento dos senadores Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon, ambos do mesmo PMDB que integra, da Comissão de Constituição e Justiça decisão revogada na mesma quinta-feira em que Renan anunciou a licença. Enterrou-se politicamente até na terra natal. Em Alagoas, é comum encontrar automóveis com o adesivo: "Renan, devolva meu voto".
Com Renan temporariamente afastado, os senadores terão de reaprender a exercitar a arte do diálogo e da negociação. E é na contemporização que o presidente Lula aposta para aprovar, até o fim do ano, a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Boa parte da oposição, e até alguns governistas, são contrários à manutenção da CPMF. Há quem proponha a redução gradual da taxação para amenizar as críticas no Senado.
O Planalto insiste em manter o texto da emenda tal e qual foi aprovado na Câmara em dois turnos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ameaça aumentar impostos se a proposta for alterada ou recusada pelos senadores. Luta para engordar os cofres públicos em quase R$ 40 bilhões no ano que vem. Deveria, contudo, baixar o tom. Não é com ameaças, especialmente nesse momento, que o governo terá êxito. O ambiente ainda está carregado. É hora de apaziguar os ânimos e amenizar a retórica.
Ameaças terroristas não são bem aceitas, nem por parlamentares, nem pela sociedade, como provou a longa expiação de Renan Calheiros. O governo não convenceu ninguém, até agora, da necessidade da manutenção do imposto para manter programas e impulsionar o crescimento da economia.
Antes de acenar com aumento da taxação, o governo Lula deveria sentar e conversar. É o que os brasileiros querem agora. Que o episódio de Renan Calheiros deixe pelo menos essa lição: nada se consegue à força. Nem na base da negociação rasteira. Só se avança com o diálogo.
A longa expiação de Renan mostra que ameaças não forçarão ninguém a aprovar a CPMF
Depois de quatro meses de crise ética, cenas explícitas de corporativismo, desmandos, um julgamento, e cizânia, os senadores tiveram o longo fim de semana para meditar. O presidente do Congresso, Renan Calheiros, rendeu-se à pressão e ao abandono político, alçou vôo para Alagoas e ficará 45 dias, no mínimo, afastado do comando do Senado.
Em seu lugar, assume o posto, nesta segunda-feira de volta ao trabalho, o petista Tião Viana, um médico do Acre, paciente e ponderado. Um político afeito ao diálogo e à pacificação.
E é de uma temporada de calmaria que o Senado precisa para recompor a imagem desgastada e desacreditada durante a tempestade que se abateu sobre a Casa desde que o ocupante da cadeira mais alta do plenário azul viu-se envolvido na primeira denúncia de quebra de decoro parlamentar acusado de pagar despesas pessoais com a ajuda de um lobista de empreiteira. Se escapou da acusação no plenário, Renan ainda terá de enfrentar outras quatro representações contra ele no Conselho de Ética.
Usou e abusou do poder. É suspeito de mandar espionar colegas. Pagou pelo pecado da prepotência e do uso desmedido e nada ético do cargo. Perseguiu servidores que ousaram contestar ordens suas para manobrar processos e escarafunchar prestações de contas, montar dossiês, controlar os passos dos integrantes do conselho. Perdeu o pé, definitivamente, ao ordenar o afastamento dos senadores Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon, ambos do mesmo PMDB que integra, da Comissão de Constituição e Justiça decisão revogada na mesma quinta-feira em que Renan anunciou a licença. Enterrou-se politicamente até na terra natal. Em Alagoas, é comum encontrar automóveis com o adesivo: "Renan, devolva meu voto".
Com Renan temporariamente afastado, os senadores terão de reaprender a exercitar a arte do diálogo e da negociação. E é na contemporização que o presidente Lula aposta para aprovar, até o fim do ano, a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Boa parte da oposição, e até alguns governistas, são contrários à manutenção da CPMF. Há quem proponha a redução gradual da taxação para amenizar as críticas no Senado.
O Planalto insiste em manter o texto da emenda tal e qual foi aprovado na Câmara em dois turnos. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ameaça aumentar impostos se a proposta for alterada ou recusada pelos senadores. Luta para engordar os cofres públicos em quase R$ 40 bilhões no ano que vem. Deveria, contudo, baixar o tom. Não é com ameaças, especialmente nesse momento, que o governo terá êxito. O ambiente ainda está carregado. É hora de apaziguar os ânimos e amenizar a retórica.
Ameaças terroristas não são bem aceitas, nem por parlamentares, nem pela sociedade, como provou a longa expiação de Renan Calheiros. O governo não convenceu ninguém, até agora, da necessidade da manutenção do imposto para manter programas e impulsionar o crescimento da economia.
Antes de acenar com aumento da taxação, o governo Lula deveria sentar e conversar. É o que os brasileiros querem agora. Que o episódio de Renan Calheiros deixe pelo menos essa lição: nada se consegue à força. Nem na base da negociação rasteira. Só se avança com o diálogo.