Estadão
No documento da Programação Monetária para 2007, o Banco Central (BC) focaliza os diversos fatores que podem influenciar a demanda por moeda. A análise é bastante otimista, mas deixa de lado um fator muito importante: as despesas públicas.
No documento da Programação Monetária para 2007, o Banco Central (BC) focaliza os diversos fatores que podem influenciar a demanda por moeda. A análise é bastante otimista, mas deixa de lado um fator muito importante: as despesas públicas.
O BC mostra tranqüilidade pelo fato de a importação ser um fator importante para o equilíbrio entre a oferta e a demanda, e a evolução da taxa cambial nos últimos dias dá ainda mais força a esse argumento. Nota também que a recuperação dos investimentos vai bem, destacando apenas, com razão, que a atual volatilidade financeira internacional poderá ter algum efeito na contenção desses investimentos. Avalia ainda que a situação das contas externas é tranqüila e poderá favorecer uma maior abertura da economia com a elevação das exportações.
No entanto, quando fala da política fiscal, limita-se a notar que "permanece assegurado o cumprimento das metas para o ano e indicada sua continuidade nos exercícios seguintes". Paralelamente, mostra-se satisfeito com a trajetória descendente da relação dívida/PIB.
É estranho que, embora ligeiramente preocupado com a recente alta da inflação, o BC não se refira nenhuma vez ao excesso de carga tributária nem tampouco aos gastos públicos. Parece que as autoridades monetárias ignoram esse aspecto essencial da conjuntura e se esforçam para não fazer críticas ao Executivo.
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Esse silêncio revela um acordo tácito com os executores da política fiscal do governo, mas contrasta com a atuação de bancos centrais de outros países, nos quais as autoridades monetárias dão grande atenção à evolução dos gastos do Executivo e reconhecem os efeitos altamente negativos desses gastos. Foi sempre a posição do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e, recentemente, na briga que opôs o presidente da França, Nicolas Sarkozy, ao presidente do Banco Central Europeu, Jean Trichet, este último, para justificar a taxa de juros básica desse banco, não titubeou em dizer ao presidente francês que a taxa poderia ser menor se o governo francês reduzisse seu déficit cortando gastos.
O Banco Central do Brasil deveria ter coragem de denunciar, de um lado, o excesso da carga tributária que contribui para elevar os preços e reduzir a capacidade de investimentos do setor privado e, de outro, a crescente elevação dos gastos correntes que não permitem realizar investimentos suficientes na infra-estrutura.