sábado, fevereiro 23, 2008

Lula no rastro do voto

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

No ziguezague da abundante produção oratória do presidente Lula desde a volta dos gelos polares, com a variedade dos temas e as cambalhotas acrobáticas das colocações, não apenas a oposição parece aturdida como também correligionários e desafetos.

O mais polêmico da safra, sem dúvida, é a fala do trono do discurso de Vitória, quando saiu em defesa da Igreja Universal do Reino de Deus, que entrou com ações judiciais simultâneas contra a Folha de S.Paulo, o Extra e a Agência A Tarde, da Bahia. Como é transparente, o debate centra-se na liberdade de imprensa, defendida pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em vigorosa nota do seu presidente, jornalista Maurício Azêdo, e por vários jornais.
.
Pois o presidente justifica a atitude da Igreja do bispo Macedo, invocando o argumento de que se ela procurou o amparo do Poder Judiciário está recorrendo a um dos pilares da democracia.

É transparente a jogada da Universal e nem tanto a de Lula. Mas basta afastar os adornos que disfarçam a evidência para que ela se apresente sem máscara, como um lance em jogo de cartas marcadas. Lula não é a favor nem contra a liberdade de imprensa. Muito pelo contrário, dependendo de cada caso, pode deslocar-se para qualquer lado, a banda do seu interesse. E precisa agradar ao rebanho da Universal para garantir os votos. Pois que é da sua popularidade, que dispara batendo recordes além de 60% de aprovação, o que merece a atenção e o desvelo do presidente.

No ano eleitoral, o teste da base política com a briga pelos governos estaduais, prefeituras, deputados estaduais e vereadores, o presidente nas águas do segundo mandato não pode querer ser candidato ao sonhado terceiro, mas joga a parada para sua sobrevivência política. E tem tudo a perder com as cartas dos outros. O afago das pesquisas, os índices otimistas do desempenho econômico, a firme liderança no Norte e Nordeste são os trunfos para o truco das duas rodadas de voto.

Se não revela preocupação com os candidatos da oposição, tem a plena consciência de que não pode contar com o seu aloprado PT para a indicação de um nome, um único, para um mano-a-mano com os adversários.

E não vem escondendo nada para os que enxergam um palmo adiante na névoa. As profundas mudanças no comportamento e nos hábitos da população expõem o desafio aos que queiram decifrá-las. Não são apenas os que matam a fome com o que podem comprar graças ao cartão do Bolsa Família que carregam o andor da popularidade de Lula. Mas imensas faixas da classe média que manifestam o mais desdenhoso desinteresse pela política, com as suas crises cíclicas, os escândalos da decomposição ética do Congresso e os repiques nos demais poderes.

A oposição cumpre a sua obrigação quando denuncia os continuados assaltos ao cofre público, como no mais escabroso episódio dos saques e pagamentos com os cartões de crédito corporativo de despesas extravagantes para as compras de perfumes, guloseimas em free shop e o aluguel de carros de luxo, com motorista, para o passeio de ministros e secretários. A indiferença da sociedade, e que só explode diante de provocações insuportáveis, desnuda-se sempre que é cutucada. Na marola da gastança com os cartões, uma emissora de TV ouviu dezenas de pessoas em Brasília, em geral de classe média, inclusive estudantes. Poucos tinham ouvido falar na ciranda dos cartões. E nenhum, nem um único, sabia em quem votou para senador, deputado federal ou estadual. Também ninguém foi capaz de lembrar o nome de um senador ou deputado.

Lula aconselhou-se com o travesseiro e traçou o seu rumo. Adverte a oposição de que "não tem tempo para perder com CPI". E passa o recado completo: "Enquanto as pessoas discutem lá em Brasília, fazem investigação, CPI, meu papel vai ser viajar pelo Brasil". Atrás do eleitor, mesmo quando não precisa do voto como candidato. Mas como o grande eleitor. Senhor do seu destino, com um programa traçado com cuidadosa avaliação de riscos e benefícios, o presidente vai atirar-se à campanha para afirmação da sua liderança. Na verdade, não necessita mais do que mantê-la como está. E fazendo o que mais gosta, que é viajar e falar ao povo. À falta de obras prontas para inaugurar, o jeito é desapertar com os microcomícios locais para a inauguração de cada canteiro de obras.

Mas, só viagens domésticas, acabam cansando. Nenhum embaraço, basta alternar o pacote de roteiros pelo país, com os muitos compromissos internacionais de candidato a um dos líderes do mundo.

Um programa na medida para o candidato a 2014 ou 2018. A espera pelo poder não cansa. É estimulante.