Murillo de Aragão, Blog do Noblat
Semana passada, uma inundação de boas notícias deve ter animado muito o presidente Lula. Com um peteleco, aprovou o Orçamento de 2008 e a criação da TV Pública, matérias que prometiam dificuldades no Senado. Na seqüência, prosseguiu recolhendo boas noticias no campo econômico: arrecadação, reservas, investimentos, consumos, entre outros. Não contente, anunciou aumento para pensionistas e 800 mil funcionários públicos em patamares acima da inflação (mais uma medida provisória será assinada nesta semana). Finalizou recolhendo elogios rasgados de Condoleezza Rice em visita cultural ao Brasil. Miss Rice foi toda sorrisos e elogios para o nosso presidente. Sinceramente, ficou emocionada com o que viu na Bahia. Provavelmente, gostaria de ver o exemplo de acolhimento de nossas raízes culturais africanas sendo repetido nos Estados Unidos.
Voltando ao país, o acúmulo de boas notícias não deve servir para encobrir os sérios problemas do país e que ainda estão em aberto. São vários. Todas perigosos e de timing variado. Ou seja, existem desafios de curto, médio e longo-prazos. No cenário de curto-prazo, duas questões se “alevantam”: o câmbio e os juros. Ambos estão mal parados e merecem ajustes imediatos. O dólar prossegue com tendência de desvalorização. Sendo promovido a investment grade, o fluxo de capital estrangeiro deve aumentar. Há quem pense, como o senador Delcidio Amaral, em facilitar o repatriamento de divisas. Estudos de Amaral estimam em mais de US$ 100 bilhões lá fora. Imaginem se este dinheiro voltasse ao Brasil? O dólar ia ficar abaixo de um real. De acordo com informações veiculadas pela imprensa neste final de semana, seu projeto já está pronto e pode ser apresentado nos próximos dias.
Sendo meramente provocador, não sei o que deve ser feito no tocante à política cambial. Mas sei o que não deve ser feito. Não se deve, por exemplo, acabar com o câmbio flutuante. Não se deve abusar do artificialismo para resolver questões estruturais. Não se deve deixar as nossas reservas baixarem. Elas são a garantia de que o Brasil será respeitado lá fora. No tocante à política de juros, me arrisco a dizer que a cautela deve ser a grande tônica no momento. E que, acima de tudo, o brasileiro não quer a volta da inflação.
No cenário de médio-prazo, o Brasil tem o desafio de potencializar o bom momento. Grandes erros acontecem quando tudo está bem. Não podemos nos dar o luxo de cometê-los agora. O Brasil ainda está longe de ser um bom ambiente para investimentos. Nem deve ser apenas um paraíso de investimentos estatais. O Brasil deve atacar firmemente aspectos regulatórios sérios, a excessiva burocracia, o risco jurídico, a arcaica legislação trabalhista, a precária situação de nossa infra-estrutura, entre outros pontos. Felizmente, parece existir uma janela de oportunidade para a reforma tributária. Lula não deve perder a oportunidade de coroar o fim do seu governo com a sua aprovação.
A longo-prazo, o Brasil tem o desafio de bem conduzir a sucessão presidencial em 2010. Governo e oposição podem ter bons candidatos. O sucesso dos últimos anos pode ter o efeito pedagógico de afastar idéias despropositadas de alguns candidatos das eleições passadas. Um deles chegou a reconhecer que não estava preparado, em termos de gestão econômica, para ser presidente. Ainda bem que Lula, que também não estava preparado, tem o bom senso de ouvir e escolher pessoas sensatas para a condução da política econômica. A derrapagem com o BNDES no primeiro mandato foi, ainda, bem superada.
O fato é que devemos esperar que os bons resultados dos programas sociais, do controle da inflação, da expansão do emprego e da massa salarial, do aumento do consumo, da expansão do crédito, entre outras conquistas, sirvam de exemplo pedagógico para o futuro presidente. Seja ele quem for.
Murillo de Aragão é mestre em Ciência Política, doutor em Sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice – Análise Política.
Semana passada, uma inundação de boas notícias deve ter animado muito o presidente Lula. Com um peteleco, aprovou o Orçamento de 2008 e a criação da TV Pública, matérias que prometiam dificuldades no Senado. Na seqüência, prosseguiu recolhendo boas noticias no campo econômico: arrecadação, reservas, investimentos, consumos, entre outros. Não contente, anunciou aumento para pensionistas e 800 mil funcionários públicos em patamares acima da inflação (mais uma medida provisória será assinada nesta semana). Finalizou recolhendo elogios rasgados de Condoleezza Rice em visita cultural ao Brasil. Miss Rice foi toda sorrisos e elogios para o nosso presidente. Sinceramente, ficou emocionada com o que viu na Bahia. Provavelmente, gostaria de ver o exemplo de acolhimento de nossas raízes culturais africanas sendo repetido nos Estados Unidos.
Voltando ao país, o acúmulo de boas notícias não deve servir para encobrir os sérios problemas do país e que ainda estão em aberto. São vários. Todas perigosos e de timing variado. Ou seja, existem desafios de curto, médio e longo-prazos. No cenário de curto-prazo, duas questões se “alevantam”: o câmbio e os juros. Ambos estão mal parados e merecem ajustes imediatos. O dólar prossegue com tendência de desvalorização. Sendo promovido a investment grade, o fluxo de capital estrangeiro deve aumentar. Há quem pense, como o senador Delcidio Amaral, em facilitar o repatriamento de divisas. Estudos de Amaral estimam em mais de US$ 100 bilhões lá fora. Imaginem se este dinheiro voltasse ao Brasil? O dólar ia ficar abaixo de um real. De acordo com informações veiculadas pela imprensa neste final de semana, seu projeto já está pronto e pode ser apresentado nos próximos dias.
Sendo meramente provocador, não sei o que deve ser feito no tocante à política cambial. Mas sei o que não deve ser feito. Não se deve, por exemplo, acabar com o câmbio flutuante. Não se deve abusar do artificialismo para resolver questões estruturais. Não se deve deixar as nossas reservas baixarem. Elas são a garantia de que o Brasil será respeitado lá fora. No tocante à política de juros, me arrisco a dizer que a cautela deve ser a grande tônica no momento. E que, acima de tudo, o brasileiro não quer a volta da inflação.
No cenário de médio-prazo, o Brasil tem o desafio de potencializar o bom momento. Grandes erros acontecem quando tudo está bem. Não podemos nos dar o luxo de cometê-los agora. O Brasil ainda está longe de ser um bom ambiente para investimentos. Nem deve ser apenas um paraíso de investimentos estatais. O Brasil deve atacar firmemente aspectos regulatórios sérios, a excessiva burocracia, o risco jurídico, a arcaica legislação trabalhista, a precária situação de nossa infra-estrutura, entre outros pontos. Felizmente, parece existir uma janela de oportunidade para a reforma tributária. Lula não deve perder a oportunidade de coroar o fim do seu governo com a sua aprovação.
A longo-prazo, o Brasil tem o desafio de bem conduzir a sucessão presidencial em 2010. Governo e oposição podem ter bons candidatos. O sucesso dos últimos anos pode ter o efeito pedagógico de afastar idéias despropositadas de alguns candidatos das eleições passadas. Um deles chegou a reconhecer que não estava preparado, em termos de gestão econômica, para ser presidente. Ainda bem que Lula, que também não estava preparado, tem o bom senso de ouvir e escolher pessoas sensatas para a condução da política econômica. A derrapagem com o BNDES no primeiro mandato foi, ainda, bem superada.
O fato é que devemos esperar que os bons resultados dos programas sociais, do controle da inflação, da expansão do emprego e da massa salarial, do aumento do consumo, da expansão do crédito, entre outras conquistas, sirvam de exemplo pedagógico para o futuro presidente. Seja ele quem for.
Murillo de Aragão é mestre em Ciência Política, doutor em Sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice – Análise Política.