segunda-feira, abril 07, 2008

Assessor de Lula quis pautar Agência Brasil

Tribuna da Imprensa

SÃO PAULO - Eugênio Bucci tem uma teoria para explicar a difícil convivência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a imprensa no primeiro mandato - período em que deu poucas entrevistas coletivas, ameaçou expulsar o correspondente do "New York Times" e foi acusado de tentar cercear a atuação dos jornalistas ao propor que a profissão fosse fiscalizada por um conselho.

Para o ex-presidente da Radiobrás, a "dieta informativa" servida ao presidente todas as manhãs colaborou na formação de um clima de animosidade. "Ela se chamava Carta Crítica e consistia num documento confidencial de aproximadamente duas páginas em papel ofício. A pretexto de analisar o noticiário do dia, lançava reprovações severas aos métodos dos repórteres, ao pensamento dos colunistas e aos donos de jornais", descreve Bucci.

O relatório, encaminhado a Lula de 2003 a 2006, era produzido por Bernardo Kucinski, militante do PT e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. Criticava não apenas o noticiário da "grande mídia", mas também o produzido pela Radiobrás.

Segundo Bucci, que teve acesso a algumas edições da Carta Crítica, ela continha "algumas das manifestações mais explícitas da mentalidade autoritária" que se opôs ao projeto de tirar o tom governista do jornalismo da empresa.

No final de 2004, Bucci teve acesso a uma Carta Crítica que censurava a Agência Brasil por não cobrir a chegada de reforços para as tropas brasileiras no Haiti - omitindo o fato de que a Agência vinha dando extensa cobertura à atuação dos militares brasileiros no país.

O relatório também criticava a agência por ter noticiado a ida de uma delegação do PT ao Haiti, o que teria dado "munição" para que a imprensa estrangeira especulasse sobre uma suposta tentativa do Brasil de trazer o país para a órbita da esquerda latino-americana.

No livro, Bucci rebate as acusações e se inspira nesse exemplo para descrever o que chamou de "sete pecados capitais do autoritarismo de esquerda". Em julho de 2005, Kucinski enviou a Gilberto Carvalho, assessor de Lula, uma carta para manifestar seu desagrado com a "postura editorial equivocada" da Agência Brasil e mostrar como deveria ocorrer a edição.

Segundo a receita, o ideal seria dar destaque a "quatro pautas positivas", que "quebrariam o enquadramento negativo da mídia nacional do que se passa no país". E acrescentou: "Registre, para todos os efeitos, que a direção da Radiobrás imprimiu uma determinada direção à cobertura da Agência Brasil, chamadas por eles de jornalismo público, que, além de executada de modo incompetente e não atender nossas necessidades de comunicação, nunca recebeu mandato explícito do governo".

Kucinski não quis comentar o relato de Bucci. Os "sete pecados capitais do autoritarismo de esquerda", segundo Bucci, são:

1. O esquecimento proposital - Sonegar a história e ocultar os fatos que não convêm ao argumento;

2. O coletivo compulsório - Dizer "nós" para impor obediência e intimidar a divergência;

3. A futrica instrumental - Semear a intriga palaciana para prejudicar os que pensam diferente;

4. A apologia do aparelhismo - Promover - abertamente ou, se necessário, de forma dissimulada - o uso dos meios de comunicação públicos para fins do grupo de governo;

5. O ódio à imprensa - Banir a reportagem e profetizar que todo jornalismo será castigado;

6. A arrogância sem substância - Desdenhar do outro para desqualificá-lo;

7. Condenar a priori - Acusar pelas costas, na escuridão, sem provas e sem tolerar o direito de defesa.