segunda-feira, abril 14, 2008

Coca na Amazônia brasileira

Vitor Gomes Pinto, Jornal de Brasília

Mais um mito em relação à nossa Amazônia se vai águas abaixo. Há poucos anos, numa rápida conversa com o general Alberto Cardoso, então todo-poderoso assessor de segurança do governo FHC, ouvi a afirmação de que as terras baixas da floresta brasileira só eram propícias a uma coca de baixo rendimento, mais fraca e sem valor econômico, o epadu que alimenta o culto do Santo Daime no Acre e é cultivado nos vales do Negro e do Solimões, além das terras em volta do Rio Guaporé em Rondônia com a vantagem de dar até quatro colheitas anuais. O tema mereceu reportagem ampla da revista Veja de 13 de setembro de 2000. Não consegui descobrir evidências científicas que pudessem corroborar tal “verdade”.

Há poucos dias, pela primeira vez oficialmente, cultivos de coca foram detectados nos arredores de Tabatinga, Estado do Amazonas, divisa com a cidade colombiana de Letícia. O mito foi, afinal, derrubado pelo diretor da Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) contra a Droga e o Crime no Brasil, o italiano Giovanni Quaglia, ao declarar à imprensa que "em termos de condições naturais é absolutamente possível produzir coca em território amazônico brasileiro. As condições ambientais são as mesmas no Brasil, Colômbia e Bolívia. Não é verdade que a coca cresce somente em altitudes elevadas”. A única diferença é a de que as folhas são mais grossas e duras, próprias apenas para serem transformadas em pasta de cocaína e não para mastigar como no altiplano.

Seguiu-se a denúncia do administrador da Funai em Tabatinga, trazendo à tona um problema já conhecido: a cada vez maior utilização dos índios como "mulas" para transporte da droga e o aumento do consumo de cocaína entre os jovens na região, especialmente na aldeia de Umariaçu, onde um de cada cinco índios estaria viciado.

Protegidas pelas grandes árvores e quase impossíveis de identificar à distância, as plantações florescem e a erva se vai pelas mesmas rotas de sempre. A própria ONU define o Brasil como um país de trânsito e também como fornecedor de insumos para os seus laboratórios que fazem a pasta-base e a transformam em cocaína. A droga que não é consumida internamente segue para os Estados Unidos e Europa. Ela entra no País pela Bolívia nas rotas Puerto Suárez/Corumbá, San Mathías/Cáceres, San Joaquín/Costa Marques, Guayara Mirim/Guajará Mirim, Cubijas/Basiléia; pelo Peru via Anaparí/Assis Brasil e Cruzeiro do Sul, Iquitos/Estirão do Equador, Atalaia do Norte e Benjamin Constant; ou chega da Colômbia por Letícia/Tabatinga e na seqüência dos rios Amazonas/Solimões, Putumayo/Içá, Caquetá/Japurá, Guainia/Negro e, ainda, pelo Vaupés e Içana que têm o mesmo nome nos dois países.

No lusco-fusco de um fim de tarde, é comum encontrar os vendedores de "raviólis" nas esquinas de Tabatinga e guerrilheiros que surgem da floresta são clientes costumeiros das lojas locais. A presença das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Liberação Nacional (ELN) no lado brasileiro na região fronteiriça, especialmente na área da "cabeça do cachorro" no Alto Solimões, em cujas cercanias foi capturado o traficante Fernandinho Beira-Mar, igualmente não é novidade.

Logo depois do ataque colombiano que vitimou Raúl Reyes, o número 2 das Farc, no Equador, as autoridades brasileiras aumentaram os efetivos do exército na fronteira norte, mas as perspectivas são de que tanto a presença da guerrilha quanto as plantações de coca devem seguir expandindo-se em terras nacionais.

Vitor Gomes Pinto é escritor, autor do livro “Guerra em los Andes”