Adelson Elias Vasconcellos
Entendo que deva subir, sim, do contrário a inflação pode chegar forte e aí o controle terá um custo maior para o país. É notório o desequilíbrio que está havendo entre oferta e demanda, e isto provoca inflação. Por que chegamos a tal ponto?
Bem, aí não tem outra, o governo Lula fez uma aposta de alto risco, imaginava que o país não seria atingido pela turbulência da crise americana, mas esqueceu que no mundo moderno nenhuma economia sobrevive como ilha isolada do restante.
Várias vezes afirmamos aqui que, no desejo obsessivo de obter uma taxa de crescimento mais alta do que a média dos últimos anos, até para favorecer o discurso político, o governo Lula investiu pesado no aumento da capacidade de consumo dos brasileiros. Esta capacidade se deu com dois instrumentos: de um lado, o crédito farto e barato, do tipo consignado e, de outro, a ampliação cada vez mais sem critério e cuidados, dos programas sociais. E criticamos duramente a opção escolhida, porque ela, primeiro, tem uma capacidade limitada de expandir o consumo, já que a massa de salários continua extremamente baixa e, se comparada com a média de 1996, está num degrau mais baixo. Considerando-se os aumentos reais do salário mínimo, tivemos apenas uma ligeira recuperação sobre os níveis de 12 anos atrás. Assim, estes empréstimos fatalmente esbarrariam nas capacidades de pagamento de seus tomadores. Isto já acontece, por exemplo, em estados como o Tocantins, cuja capital, Palmas, já experimenta ligeira recessão.
Da mesma forma, programas sociais também têm um limite pequeno para sustentar-se no longo prazo, já que seu valor mais alto não atinge sequer meio salário mínimo. Assim, a tendência seria que os níveis se estagnariam ou decresceriam.
O passo inicial que o governo sinalizou para este artificialismo foi quando mudou os critérios de cálculo do PIB, dando maior peso ao consumo. Depois, avançou sobre os programas sociais e, por fim, expandiu o quanto pode o crédito que podemos chamar de “popular”.
Contudo, deveria ter o governo atentado primeiro, para a limitação que seu artificialismo iria encontrar e, segundo, que aumento de demanda precisa, antes, ser precedida de aumento de oferta. E, esta, só se consegue com políticas de incentivos para ampliação de plantas industriais ou a instalação de novas. Para que tais investimentos possam acontecer faltou muita coisa. Faltou investimento público na área de infra-estrutura. Faltaram ainda ações no campo das reformas, uma delas essencial, que seria a reforma tributária. Faltou contenções de gastos públicos para permitir maiores sobras de caixa para alongar os investimentos, e permitir redução da carga de impostos.
Assim, poderiam aumentos de oferta e demanda andarem juntas, mantendo-se equilibradas para não haver aceleração de preços.
Agora só resta conter o apetite dos consumidores pelo juro, não restando ao Banco Central outra alternativa senão eleva-los.
E esta elevação que poderia ter sido homeopática, desde janeiro do corrente ano, agora deverá ser um pouco mais amarga para surtir efeitos. Ocorre que, por ser ano eleitoral, o governo está segurando o quanto pode elevar os juros, ou tomar medidas que forcem a queda no consumo. Isto não só contraria o discurso, como também politicamente traz prejuízos. Foi sob esta ótica, aliás, que Lula desmentiu o ministro Mantega quando sinalizou estudou para contração do crédito, especialmente de automóveis.
Acredito ainda que o governo Lula deveria olhar mais para o país do que para o calendário eleitoral para implementação de suas ações. O tal Pac por exemplo, já poderia ter sido implementado ainda no primeiro mandato de Lula. Priorizou os programas sociais e esqueceu os investimentos. Lançado no início de 2007, se esperou todo este tempo para acelerar sua execução. E, de quebra, vai se ampliando mais novos programas sociais e isto gera mais gastos, que, por sua vez, reduzirão as disponibilidades para investimentos.
Fica claro que o cenário positivo com que o governo contou até agora, está mudando, e para pior. A economia mundial que cresceu na média dos últimos anos em torno de 5%, com os emergentes puxando o vagão a taxas superiores a 7%, a exceção do Brasil, infelizmente, agora terá que contentar-se com taxas em torno de 2%, o que acaba reduzindo a demanda em todas as economias.
Diante disso, não resta ao governo outra alternativa senão aplicar um corretivo doloroso para conter o consumo interno e assim evitar que a pressão sobre os preços sucumba trazendo de volta a inflação. Mais do que nunca, Lula deverá esquecer o calendário eleitoral, sob pena e risco de comprometer a estabilidade econômica Até aqui o câmbio ajudou, porque com a valorização, os produtos importados foram implacáveis para frear os preços dos produtos nacionais. Contudo esta “âncora” vamos assim dizer, começa a dar sinais de esgotamento, tendo em vista o crescimento acelerado das importações que já ameaçam nossos superávits comerciais.
Também é preciso atentar que ações do tipo TV Pública não se pode incluir no ranking dos investimentos. São despesas, são onerosas e provocam desequilíbrio fiscal, porque o governo quer a todo custo investimento no pac sem abrir mão dos programas sociais. Portanto, e apesar dos recordes sucessivos de arrecadação, não há dinheiro suficiente para cobrir todos as fantasiais governamentais. O caminho natural seria elevar o juro porque se, de um lado, contém a demanda, de outro, atrai mais capital especulativo nos títulos públicos. Como o endividamento interno, no curto prazo, não produz maiores dores de cabeça, haveria como governo fechar suas contas. Mas atenção: maior endividamento exige maior superávit primário. Se o governo o mantiver no atual nível, pode começar a ter problemas com o equilibro fiscal.
Minha preocupação, neste caso, é que como tudo na aparência parece ir bem, a equipe econômica pode achar que pequenas medidas pontuais corrige os problemas. Um exemplo disto foi a taxação com IOF para o capital motel com o objetivo de estancar a valorização do real frente o dólar. Não adiantou. E a depreciação dos saldos positivos do comércio exterior já assustam.
Ludmilla Totinick, do Jornal do Brasil, entrevistou Mendonça de Barros, ex-ministro e ex-presidente do BNDES sobre o drama de subir ou não os juros. Para ele a elevação é inevitável e inadiável, por ver forte desequilíbrio entre oferta e demanda. Segue a entrevista.
Entendo que deva subir, sim, do contrário a inflação pode chegar forte e aí o controle terá um custo maior para o país. É notório o desequilíbrio que está havendo entre oferta e demanda, e isto provoca inflação. Por que chegamos a tal ponto?
Bem, aí não tem outra, o governo Lula fez uma aposta de alto risco, imaginava que o país não seria atingido pela turbulência da crise americana, mas esqueceu que no mundo moderno nenhuma economia sobrevive como ilha isolada do restante.
Várias vezes afirmamos aqui que, no desejo obsessivo de obter uma taxa de crescimento mais alta do que a média dos últimos anos, até para favorecer o discurso político, o governo Lula investiu pesado no aumento da capacidade de consumo dos brasileiros. Esta capacidade se deu com dois instrumentos: de um lado, o crédito farto e barato, do tipo consignado e, de outro, a ampliação cada vez mais sem critério e cuidados, dos programas sociais. E criticamos duramente a opção escolhida, porque ela, primeiro, tem uma capacidade limitada de expandir o consumo, já que a massa de salários continua extremamente baixa e, se comparada com a média de 1996, está num degrau mais baixo. Considerando-se os aumentos reais do salário mínimo, tivemos apenas uma ligeira recuperação sobre os níveis de 12 anos atrás. Assim, estes empréstimos fatalmente esbarrariam nas capacidades de pagamento de seus tomadores. Isto já acontece, por exemplo, em estados como o Tocantins, cuja capital, Palmas, já experimenta ligeira recessão.
Da mesma forma, programas sociais também têm um limite pequeno para sustentar-se no longo prazo, já que seu valor mais alto não atinge sequer meio salário mínimo. Assim, a tendência seria que os níveis se estagnariam ou decresceriam.
O passo inicial que o governo sinalizou para este artificialismo foi quando mudou os critérios de cálculo do PIB, dando maior peso ao consumo. Depois, avançou sobre os programas sociais e, por fim, expandiu o quanto pode o crédito que podemos chamar de “popular”.
Contudo, deveria ter o governo atentado primeiro, para a limitação que seu artificialismo iria encontrar e, segundo, que aumento de demanda precisa, antes, ser precedida de aumento de oferta. E, esta, só se consegue com políticas de incentivos para ampliação de plantas industriais ou a instalação de novas. Para que tais investimentos possam acontecer faltou muita coisa. Faltou investimento público na área de infra-estrutura. Faltaram ainda ações no campo das reformas, uma delas essencial, que seria a reforma tributária. Faltou contenções de gastos públicos para permitir maiores sobras de caixa para alongar os investimentos, e permitir redução da carga de impostos.
Assim, poderiam aumentos de oferta e demanda andarem juntas, mantendo-se equilibradas para não haver aceleração de preços.
Agora só resta conter o apetite dos consumidores pelo juro, não restando ao Banco Central outra alternativa senão eleva-los.
E esta elevação que poderia ter sido homeopática, desde janeiro do corrente ano, agora deverá ser um pouco mais amarga para surtir efeitos. Ocorre que, por ser ano eleitoral, o governo está segurando o quanto pode elevar os juros, ou tomar medidas que forcem a queda no consumo. Isto não só contraria o discurso, como também politicamente traz prejuízos. Foi sob esta ótica, aliás, que Lula desmentiu o ministro Mantega quando sinalizou estudou para contração do crédito, especialmente de automóveis.
Acredito ainda que o governo Lula deveria olhar mais para o país do que para o calendário eleitoral para implementação de suas ações. O tal Pac por exemplo, já poderia ter sido implementado ainda no primeiro mandato de Lula. Priorizou os programas sociais e esqueceu os investimentos. Lançado no início de 2007, se esperou todo este tempo para acelerar sua execução. E, de quebra, vai se ampliando mais novos programas sociais e isto gera mais gastos, que, por sua vez, reduzirão as disponibilidades para investimentos.
Fica claro que o cenário positivo com que o governo contou até agora, está mudando, e para pior. A economia mundial que cresceu na média dos últimos anos em torno de 5%, com os emergentes puxando o vagão a taxas superiores a 7%, a exceção do Brasil, infelizmente, agora terá que contentar-se com taxas em torno de 2%, o que acaba reduzindo a demanda em todas as economias.
Diante disso, não resta ao governo outra alternativa senão aplicar um corretivo doloroso para conter o consumo interno e assim evitar que a pressão sobre os preços sucumba trazendo de volta a inflação. Mais do que nunca, Lula deverá esquecer o calendário eleitoral, sob pena e risco de comprometer a estabilidade econômica Até aqui o câmbio ajudou, porque com a valorização, os produtos importados foram implacáveis para frear os preços dos produtos nacionais. Contudo esta “âncora” vamos assim dizer, começa a dar sinais de esgotamento, tendo em vista o crescimento acelerado das importações que já ameaçam nossos superávits comerciais.
Também é preciso atentar que ações do tipo TV Pública não se pode incluir no ranking dos investimentos. São despesas, são onerosas e provocam desequilíbrio fiscal, porque o governo quer a todo custo investimento no pac sem abrir mão dos programas sociais. Portanto, e apesar dos recordes sucessivos de arrecadação, não há dinheiro suficiente para cobrir todos as fantasiais governamentais. O caminho natural seria elevar o juro porque se, de um lado, contém a demanda, de outro, atrai mais capital especulativo nos títulos públicos. Como o endividamento interno, no curto prazo, não produz maiores dores de cabeça, haveria como governo fechar suas contas. Mas atenção: maior endividamento exige maior superávit primário. Se o governo o mantiver no atual nível, pode começar a ter problemas com o equilibro fiscal.
Minha preocupação, neste caso, é que como tudo na aparência parece ir bem, a equipe econômica pode achar que pequenas medidas pontuais corrige os problemas. Um exemplo disto foi a taxação com IOF para o capital motel com o objetivo de estancar a valorização do real frente o dólar. Não adiantou. E a depreciação dos saldos positivos do comércio exterior já assustam.
Ludmilla Totinick, do Jornal do Brasil, entrevistou Mendonça de Barros, ex-ministro e ex-presidente do BNDES sobre o drama de subir ou não os juros. Para ele a elevação é inevitável e inadiável, por ver forte desequilíbrio entre oferta e demanda. Segue a entrevista.
"Deve haver aumento agressivo de juro"
Ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ex-ministro das Comunicações do governo FH, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros não tem dúvidas do que o Banco Central deve fazer na reunião de quarta-feira. Deve aumentar a taxa de juros o mais rápido possível, pois segundo ele, o Brasil vive um desequilíbrio, mas normal.
O economista-chefe da Quest Investimentos vê a atitude como a única saída para impedir o aumento da inflação. Critica a atuação do governo em não colaborar e ressalta que, só nos dois primeiros meses desse ano, o governo já gastou 12% a mais que no ano passado. Mendonça de Barros responde com rispidez a qualquer pergunta sobre os efeitos da crise no país. Para ele, o Brasil está blindado. Tucano, faz críticas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), petista, e alega que o programa é "uma grande embromação".
Na quarta-feira, o BC define se mantém ou aumenta a taxa de juros. O que acontecerá na sua opinião?
– Vai aumentar, claramente vai aumentar. O IPCA divulgado na quarta-feira ficou muito acima da expectativa de mercado. Deverá ser um aumento até mais agressivo do que se esperava. A inflação estava sendo discutida de forma teórica. Há um desequilíbrio claro entre oferta e procura dentro da economia, aquecimento acima do normal com os gastos das famílias, da empresas via investimentos e, principalmente, do governo. Isso estava muito mascarado porque o aumento da demanda está muito concentrado em bens duráveis, as importações estavam crescendo muito e, com a taxa de câmbio estável, a inflação não estava aparecendo. Mas esse desequilíbrio entre oferta e procura está começando a vazar para os setores de bens de serviços, mas ao longo do tempo iria começar a pressionar a inflação, como está acontecendo.
O Brasil estipulou, há alguns anos, um instrumento chamado meta de inflação para que o país não convivesse com taxas de 35% ao mês como era comum. A previsão não é que atinja o centro da meta, em 4,5%?
– No auxílio de metas da inflação, você tem duas formas de medir as expectativas. A primeira é via o modelo econométrico do Banco Central e que o mercado também tem acesso. Nele, a inflação já vinha crescendo e nos próximos meses irá superar o centro da meta. Também tem a medição pelo IBGE, onde no primeiro trimestre o Banco Central estava trabalhando com o IPCA na ordem de 1,3%, mas foi de 1,5%, bem mais alto do que se esperava. Não há dúvida de que há um processo de aumento da inflação, mas não é nada explosivo. Porém obriga o BC a não atrasar a iniciativa de aumento da taxa de juros já na próxima reunião.
Nas contas de economistas, não fosse o feijão e a carne, a inflação estaria em 3,4%. A capacidade instalada da indústria, medida pela CNI, caiu, não?
– Se for ver o que sobra, a inflação sempre fica abaixo da meta. Se tirar todo mês tudo aquilo que subiu mais do que deveria, a inflação fica abaixo da meta. Não é uma forma correta de medir. A inflação no Brasil é medida pelo IPCA cheio, além disso há claramente o desequilíbrio entre oferta e procura. O crescimento da demanda interna está acima da capacidade produtiva. O quadro de desequilíbrio é claro e evidente. A economia brasileira hoje é um organismo muito mais normal do que foi no passado. O economista tem de olhar para a economia brasileira com os olhos mais clássicos nos instrumentos de análise. Não tenha dúvida de que os gastos do governo, nos dois primeiros meses do ano, é 12% real acima do ano passado. O consumo também cresce a taxas quase acima de 10%. O Banco Central brasileiro, um banco responsável, tem de agir antes de a inflação atingir nível mais alto. Se o BC tomar essa medida, aborta o processo, ganha a confiança do mercado e a projeção da inflação será abaixo da meta. Além disso, com a subida dos juros claramente vai haver continuidade na valorização do real e com isso haverá contenção da inflação, principalmente nos segmentos trading.