Fábio Grecchi, Jornal de Brasília
Me considero um consumidor normal, às vezes até com tendências pão-durísticas. Há momentos do mês – geralmente no final, quando os dias têm 48 horas e a data do pagamento não chega nunca – que chego a deixar meus cartões, que não são muitos, em casa. E quando preciso fazer uma compra, ainda verifico qual levar. Claro: pagar à vista pode ser melhor do que aumentar a conta do cartão de crédito. Da mesma maneira que tem vezes em que jogar no crédito facilita manter aquele restinho de dinheiro que fica na conta, para pequenas despesas diárias.
Também tem outra coisa que me chama a atenção entre cartões: dificilmente um se parece com o outro. Por vezes, dentro do mesmo banco, têm várias cores diferentes. Naturalmente que há um objetivo para isso: facilitar a identificação por parte do consumidor, no momento de pagar a compra. Às vezes, o cartão errado evita o constrangimento de não passar na maquininha ou a transação ser vetada.
Daí que considero, no mínimo, cínica a afirmação do ministro Orlando Silva (Esportes) quando diz que pagou pouco mais de R$ 8 por uma tapioca por engano com o cartão corporativo. Pensou que estava puxando um quando – oh!, santo engano, Batman – puxou outro. A ex-ministra Matilde Ribeiro deu a mesma desclassificante explicação ao depor na CPI, no dia seguinte.
A dupla simplesmente tripudia sobre a inteligência média do cidadão. A mim pouco importa se ressarciram os cofres públicos. Me interessa é que, se não fossem flagrados, teriam colocado contas e mais contas desnecessárias – do meu ponto de vista, o de contribuinte –, para as quais poderiam ter coçado o bolso, nas costas do erário. Deixam claro que utilizam o cargo em toda sua plenitude, inclusive utilizando tal benefício como salário indireto. Por que se descapitalizar se a viúva pode ficar com o prejuízo?
Defendi aqui, artigos atrás, que os cartões corporativos tinham de ser extintos no serviço público. Servem a esse tipo de distorção, prática tão odiosa quanto a carteirada. O agente público que não tem caráter é mais nocivo que o bandido comum, o marginal de sarjeta. Afinal, um facilita a existência do outro, quando não lhe serve de exemplo.
Não sou defensor da ditadura, mas lembro que o coronel Mário Andreazza, ex-ministro dos Transportes e homem que tocou a construção da Ponte Rio-Niterói, foi durante anos acusado de ter enriquecido durante a obra. Ora, quem virou nababo não precisaria ser sepultado de favor e assim mesmo depois que os amigos se cotizaram para pagar o serviço funerário. Alguns jornalistas que o acusaram, estes sim estão com o boi na sombra há anos.
São várias as denúncias de que os generais e seus asseclas assaltaram o Estado brasileiro ao longo dos 21 anos da ditadura. Boa parte delas é verdade, mas há muitos generais vivendo com R$ 5 mil de aposentadoria. Gente que teve carro, casa, comida e roupa lavada bancada pelo Estado e que, hoje, poderia estar milionária. Afinal, tiveram acesso aos esquemas numa época em que nada, ou quase nada, vazava para a opinião pública.
E no governo de um ex-sindicalista, justamente alguns de seus auxiliares – muitos deles devem ter verberado contra a tortura e a devassidão no trato com a coisa pública – se apossam do Estado de maneira indigna. Impressionante como na democracia, que tinham o dever de respeitar até agindo com transparência e correção, tais personagens se assumem patrimonialistas, mácula da formação deste país desde os tempos do Brasil Colônia.