sexta-feira, maio 09, 2008

A comemoração de coisa alguma

Adelson Elias Vasconcellos.

Pode ser que, passada a ressaca que sofre a oposição e expressiva parte da mídia brasileira, pós-depoimento de Dilma Rousseff no Senado, as pessoas comecem a refletir com maior clareza do que resultou de prático daquele depoimento.

A motivação era para falar sobre o PAC e, de contrapeso, do famoso dossiê anti-FHC. E nisso, convenhamos,Dilma enrolou e não acrescentou de positivo coisa alguma. Então se comemora o quê? A incompetência e o despreparo da oposição? Só se for isto, porque, do contrário, nos assuntos que levaram a ministra ao Senado, ela absolutamente, não se saiu tão bem como se propaga. Do PAC, conforme várias vezes aqui já falamos, a ministra não conseguiu provar o contrário de que se trata de um pactóide. Um programa rotineiro de governo, recheado de emendas parlamentares que o governo surrupiou a autoria, e que joga ao povão com intensa propaganda de tratar-se de um programa de desenvolvimento como nuncadantez. De fato, o nuncadantez no caso, se deve à propaganda intensiva como instrumento político para vender a imagem de “desenvolvimentista” para um governo que apenas cumpre parte de seu papel. Porque não me venha com a conversa mole de que “construção de pontes”, ou de “obras de saneamento” seja a enormidade do programa. Isto sempre foi fruto de emendas dos parlamentares, que se engalfinham nos ministérios e na Comissão de Orçamento, para empurrarem seus “projetos”. Mas sempre existiram projetos de”construção de pontes” e execução de “obras de saneamento”. E neste quesito, dona Dilma não conseguiu provar a consistência do PAC, cantado em verso e prosa por Lula.

O segundo assunto foi ainda mais melancólico: a ministra deixou muito claro que o dossiê de fato existiu, foi montado pela Casa Civil, e que o banco de dados “apenas” trata de despesas do governo anterior, o de FHC. Sobre os gastos deste governo, o silêncio é total. Nada se diz, nada se publica, nada se divulga. Mas a lambança continua solta e custando milhões de reais aos cofres públicos, e em porcarias inúteis de ostentação puramente. E, conforme também já havíamos afirmado inúmeras vezes, o dossiê foi montado de fato, e somente com os gastos feitos no governo anterior, e foi divulgado. E, sobre este ponto, a ministra deixou muita mais afirmação do que negativas.

Mas por que então tanta empolgação por parte do governo? Primeiro, os governistas receavam que os oposicionistas colocariam a ministra contra a parede. E isto não aconteceu. Deram-lhe uma avenida para desfilar, e ela soube fazê-lo muito bem. Segundo, porque os “rendidos” trataram de “vender” a imagem de vitória com muito maior ênfase, para encobrir o vazio que transpassou o depoimento nos seus pontos mais importantes. Assim, em cima da empolgação dos ”rendidos” restou uma certa desesperança pelo papel quase ridículo da oposição.

E é bom que fique claro que, para nós, a oposição continua ridícula na sua ação política, e sem projeto alternativo para o país, pós-Lula. Claro que o atual presidente se vale dos louros das políticas implementadas pela atual oposição quando esta esteve no governo. A questão da economia por exemplo, é justamente a obediência às regras da ortodoxia que mantém o país equilibrado e estável, regras por sinal que o atual governo, quando oposição, criticava à solta, regras que fazem as maravilhas do neoliberalismo econômico. Até na ação social o governo Lula não é inovador. No que tem que novo este governo é justamente vender à opinião pública como sua uma obra alheia que dá certo, apesar de que, na oposição, Lula e seus seguidores foram ferrenhos críticos e opositores. Querem exemplo mais grotesco do que o discurso da CPMF ?
Pois é, então não venham agora querer enganar àqueles que tem um pingo de respeito pela História, e sabem perfeitamente bem o que eles fizeram na oposição até 2002...

Veja-se na questão do PAC que este governo está conseguindo, com todos os ventos a favor e com recordes sucessivos na arrecadação, investir menos do que se investia há oito anos atrás. O alardeado grande “volume de investimentos” pertencem a alçada de empresas estatais, como a Petrobrás, por exemplo, e que aconteceriam com PAC ou sem ele. Voltem no tempo e vocês verão que, em termos de segurança, saneamento, educação, saúde, estradas, portos, hidrovias, aeroportos, dentre outros, não apenas os investimentos são menores do que já foram, mas que este governo sequer consegue gastar ou investir ao menos o programado em orçamento.

Recente pesquisa mostra que, de tudo o que o governo arrecadou em 2007, mais da metade foram destinados ao pagamento de dívida pública. Mas na propaganda, o governo “milagreiro” criou uma fantasia que só existe no papel. A triste realidade do país é demonstrar-se cada vez pior na deterioração dos serviços públicos. Não é surpresa portanto, saber-se que, no caso da Petrobras, as obras incluídas na rubrica do PAC, como lembrou Kátia Abreu, estavam previstas no planejamento da estatal. Assim como observou o senador Valter Pereira (PMDB-MS), que emendas parlamentares foram vetadas e depois clonadas pelo próprio governo para entrar na rubrica do... PAC. No ano passado, dos R$ 16 bilhões previstos para investimentos, executaram-se apenas 28%. E, para isso, Dilma não teve resposta.

Assim, a comemoração é muito mais para encobrir estes dois vazios que saltaram do depoimento da Dilma, do que propriamente por ele ter sido vitorioso no plano dos pontos que realmente importavam.

Talvez, curada a ressaca, os “pensadores” da vida nacional, debruçando-se mais detidamente nas coisas práticas, se dêem conta de que a comemoração é fruto muito mais da estratégia de embromação desferida pelo Planalto para consagrar Dilma. E, fruto da reavaliação, se possa observar melhor que Dilma é muito mais fruto de uma máquina de propaganda que manipula informações e fatos e, de quebra, lava reputações de canalhas empedernidos, do que propriamente alguém com o preparo e o equilíbrio necessários para ser uma aspirante ao Planalto. E se, de fato, se puder apontar “perdedores”, estes não seriam os oposicionistas que continuam sem rumo: quem na verdade perdeu foi o país, que assistiu um espetáculo que, do ponto de vista da moral pública, acenou com a farsa e consagrou a mentira como instrumento de se fazer política. Mais do que grotesco, o depoimento constrange por ter sido deprimente encenação, em que a verdade, mais uma vez, foi colocada em segundo plano.